O OFÍCIO DE EDITOR

Arte Digital com IA: Chris Herrmann

 

 

O OFÍCIO DE EDITOR

 

Pensar o livro como coisa completa.

Pensá-lo por dentro e por fora, coisa una, amara.

O labor mil vezes repetido, infinitas vezes elaborado.

O livro não termina nunca, pois assim que acaba, começa outro.

Esperar que os livros se sucedam, um a um, como afagos,

coisas íntimas de tão relidas, revê-las, encontrar os erros

que se depositam no fundo do casco.

Recompor a ode última para que nada falte.

Assim os livros vêm e vão, e não se despedem, apenas partem,

pois o trabalho que tivemos nunca nos deixa.

É como se ainda os fizéssemos, muito tempo depois de concluídos.

Quando preparamos os livros, eles entram e saem, dois a dois,

cada um a seu tempo, escolhendo o seu par,

como os animais na arca de Noé.

Há livros que se assemelham, têm os mesmos traços,

livros parecidos tanto por fora quanto por dentro,

mas nunca sabemos quem será o par do outro:

só na impressão se revelam.

Curiosa dança dos livros, em que concluir-se é um ritual.

Até para partirem, fazem uma mesura.

E, ao olhar para eles, todos prontos, nos perguntamos:

“Como conseguimos fazê-los todos?”

 

 

Thereza Christina Rocque da Motta

Rio de Janeiro, 24 de outubro de 2009 – 20h55

 

 

 

 

Colunista ArteCult e editora
da Ibis Libris Editora (@ibislibris)

 

 

 

 

Author

Thereza Christina Rocque da Motta (São Paulo, SP, 1957) é poeta, editora e tradutora. Foi Jurada de Tradução do Prêmio Jabuti, em 2018. Recebeu a Medalha Chiquinha Gonzaga da Câmara dos Vereadores, em agosto de 2021. Coordena a Ponte de Versos desde 2000, evento incluído no Calendário Oficial de Cidade do Rio de Janeiro, em 2024. Fundou a Ibis Libris no Rio de Janeiro, em 2000. Publicou Joio & trigo (1982), Capitu (2014), Lições de sábado (crônicas, 2015), Minha mão contém palavras que não escrevo (2017), O amor é um tempo selvagem, Lições de sábado Vol. 2 e A vida dos livros Vol. 2 (2018), Poesia Reunida 40 anos (1980-2020), Sheherazade: Novas lendas das 1001 noites e três já conhecidas (2022), entre outros. Traduziu, entre outros, Marley & Eu, de John Grogan (2006), A Dança dos Sonhos, de Michael Jackson (2011), 154 Sonetos, de William Shakespeare (2009), Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll e O Corvo, de Edgar Allan Poe (2020), Mais mortais que os homens, org. Graeme Davis (2021) e A última casa da Rua Needless, de Catriona Ward (2023), vencedor do British Fantasy Award, como Melhor Romance de Terror de 2022.

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