

Elenco de “Cão”. Foto: Divulgação
Claro que sabemos que os grandes centros culturais concentram-se, em sua maioria, na região Sudeste. É por aqui que muitos grupos desejam estar para mostrar seus trabalhos. No entanto, ao analisar com mais cuidado — sem desmerecer a região onde estou — é impossível não reconhecer o celeiro artístico que é o nosso Nordeste.
De Ariano Suassuna, Luiz Gonzaga, Romero Britto, Jorge Amado, Zé Ramalho e tantas outras lendas (porque a lista é extensa), compreendemos a força de uma região riquíssima em talentos. Para minha sorte, pude beber de uma fonte inesgotável de riso e sagacidade. Confesso que, até agora, sigo rindo com “Cão”, espetáculo em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil.
Sinopse
A montagem nasce de uma pesquisa cênica sobre o Brasil contemporâneo e suas contradições sociais, afetivas e políticas, lançando um olhar crítico sobre as múltiplas faces do trabalho precário. Em cena, o espetáculo expõe as tensões que atravessam o cotidiano do trabalhador no Brasil e no mundo.
E, claro, Clowns de Shakespeare e Magiluth, companhias de altíssimo conhecimento cênico, trazem Shakespeare para essa loucura muito bem arquitetada que idealizaram.
Shakespeare de Clowns eu conheço de outros carnavais e tenho verdadeira adoração. Já a Magiluth é extremamente contemporânea e, em “Édipo”, chegou a me assustar. Eu adoro um bom drama no teatro, mas essa segunda companhia parece transformar tudo em insanidade. E, embora eu siga minhas convicções de gosto, a danada da companhia me leva a admirá-los. São artistas muito bons — e isso é o suficiente para que nos posicionemos diante deles com infinita reverência. Simples assim.
Quem trabalha com teatro sabe que as coisas funcionam exatamente do jeito que eles apresentam em cena. Pelo que entendi, na sinopse recebida haverá a posse do recém-eleito líder da jovem república do Lácio, detalhe, o inglês é a língua que utilizam para tratar os negócios e a realização do “espetáculo”, enquanto outros artistas encarnam personagens que atuam por trás do palco: técnicos, cooperadores, mulheres mães, relações afetivas, artistas vaidosos. Um verdadeiro caos necessário para que pessoas como eu e você possam assistir a um bom espetáculo. Porque, à frente do palco tudo parece perfeito, mas por trás…
Para completar, uma perna é adorada, um cão surge para encerrar a cena e o trabalho, e ainda há o artista que resolve matar todo mundo, como Shakespeare fazia em seus dramas.
“A gente parte de Shakespeare, mas usando só o que nos interessa: o conflito de classes, a insatisfação do povo, a manipulação política e o jogo de forças que recai sempre sobre quem trabalha. O processo da montagem foi muito natural. Fomos descobrindo, juntos, onde estavam as fraturas do presente, e daí nasceu CÃO. É uma obra que reflete profundamente a poética dos dois grupos, esse encontro tão desejado há tantos anos”, afirma Fernando Yamamoto, diretor e coautor da dramaturgia.
As risadas são garantidas. Afinal, falo de artistas nordestinos que — sem vergonha nenhuma de assumir — eu amo demais da conta. Oxê!
Os loucos
- Caju Dantas
- Diogo Spinelli
- Erivaldo Oliveira
- Giordano Castro
- Lucas Torres
- Mario Sérgio Cabral
- Olivia León
- Paula Queiroz
Não há muito o que comentar sobre cenário, luz e figurino: eles complementam com verdade os artistas, e isso é mais do que suficiente. Tudo é muito cômico, às vezes um brega muito bem colocado, o que reafirma a confiança absoluta desses artistas no que entregam. Eles não se sobrepõem aos intérpretes — e isso é fundamental, pois os artistas carregam uma força imensa.
Preciso ainda destacar o trabalho com as gralhas-cancãs. A preparação vocal dos artistas, a forma como as vozes chegam até nós, é realmente admirável. Um cuidado precioso, sobretudo quando pensamos na potência de artistas que, muitas vezes, não contam com fomento suficiente sequer para alugar equipamentos adequados para suas apresentações.
Louvo a força, o compromisso e a responsabilidade de cada um deles. E digo isso como produtora, não como crítica.
Escrever sobre esse espetáculo não é tarefa fácil — reconheço. Até porque eu precisava focar na análise, mas tudo ficou difícil demais: eu não conseguia parar de rir. Na cadeira atrás de mim estava a professora de teatro Dani Gemal, da importante Escola Martins Pena, e parecia que estávamos numa competição de gargalhadas. Creiam. Logo eu, Brutus, que não curto comédia nem um pouco.
Já disse, mas repito: eles me transportaram. Entre caixas voando, a discussão sobre a cor fúcsia (que fui procurar no Google), operários em cena e uma atriz argentina — Olivia León, que em cena aberta arranca aplausos do público por sua devoção quase religiosa a uma bateria — ficou realmente impossível me conectar com o sério. Peço desculpas, jogo a culpa nos artistas.
Alias, a senhorita Leon, deu o recado para o presidente do país dela, que tem criado um desgaste ao setor cultural da Argentina, mundialmente conhecida. “Antes morta, a ver a arte dela ser extinta”! Uma bicuda na cara do cão…
Giordano Castro, ora com colar elisabetano, ora como soldado, afirma que a culpa do barulho é da Turma da Mônica. E o que a Turma da Mônica tem a ver com um Cão? Leitores, o CCBB Rio está com uma exposição de Maurício de Sousa ocupando e lotando o espaço, e o artista, malandramente, soube se aproveitar disso. Resultado? Gargalhada geral. INESQUECÍVEL.
Erivaldo Oliveira atua como visagista, técnico e soldado. Mesmo parado, a plateia não conseguia conter o riso. Ele fazia os mesmos movimentos daqueles cachorrinhos de painel de carro que só balançam a cabeça. Juro que tentei me concentrar. Foi impossível.
Vale muito lembrar o texto do artista como visagista, olheiras, pele morta entre outras discrições, sensacional, e mais uma vez, rimos. Sem contar o corpo e os trejeitos…
Paula Queiroz, em uma de suas personagens, nos conduz a uma cena épica — talvez a única que nos aproxima do teatro mais sério (sim, com risos). Sobre um palanque ou trio elétrico, ela entrega um texto muito bem colocado, com domínio vocal e expressões corporais e faciais que nos levam àquele teatro que eu amo profundamente. Mas a cena foi uma só.
É preciso rir, eu sei. Mas rir de algo inteligente, divertido na medida certa, sem forçar a barra. E isso não é para todos.
Enfim, o final da peça… todos…
Não vou contar. Apenas sugiro que vá assistir, mas vá ao banheiro antes, esvazie-se para não molhar os bancos do Teatro I do CCBB/RJ.
Da terra de Titina Medeiros, não poderia ser diferente. Tinha que ser bom ou muito bom…
Bora para o teatro!
SERVIÇO
Espetáculo: Cão
- Local: CCBB Rio de Janeiro
- Temporada: 15 de janeiro a 15 de março
- Sessões: Quinta a sábado, às 19h | Domingo, às 18h
- Classificação indicativa: 16 anos
- Ingressos: À venda na bilheteria física do CCBB e em bb.com.br/cultura



Paty Lopes (@arteriaingressos). Foto: Divulgação.

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