
Paulo Freire | Pop Art
Nada é o que parece ser; tudo é aquilo que se percebe ser
“A necessidade e/ou demanda atual pode ser contida;
porém, a necessidade e/ou demanda do porvir, não.”
Paulo Reglus Neves Freire (1921-1997)
Filósofo e professor brasileiro
Como bom filósofo existencialista, Paulo Freire nos brinda com uma bela e explícita concepção de temporalidade que está em consonância plena com a fenomenologia desta corrente de pensamento. O porvir, o tempo vindouro, é prenhe de nada de ser, o que nos leva a podermos fazer dele, o que quisermos e/ou pudermos. Nossas transcendências conscientes abrem possibilidades várias para nós e para a civilização humana, por mais que venhamos jogando fora este potencial cinético que leva e enleva a vida.
O nada é um conceito poderoso e não apenas na Filosofia. Na Física de Partículas, a Mecânica Quântica, por exemplo, o nada é algo bem diferente do que concebemos no dia a dia. Segundo esta concepção, o que conhecemos por “nada” é chamado pelos estudiosos de “Vácuo Quântico”, onde não há matéria ou luz, porém, há o que os físicos chamam de “Campo Quântico” (de forças). Especula-se, por momentos fugazes e em regiões de instabilidade, segundo a Entropia (quantidade de desordem e aleatoriedade em um sistema e que tende a aumentar com o decorrer do tempo) e segundo, também, a Lei de Conservação da Energia (Lavoisier – nada se perde, nada se cria, tudo se transforma), que este Campo Quântico vibrou, por motivação incerta, e gerou tudo o que vemos e somos. Este nada físico não era, como visto, nem matéria, nem luz, mas seu Campo Quântico, ao se instabilizar, por motivos ainda (e creio, por muito tempo o serão) desconhecidos, teria levado à transformação do Universo, de um Vácuo Quântico primordial, no Universo material atual. Assim, não teria havido um Big Bang, o Universo não teria sido criado do nada, porque ele, nesta perspectiva, simplesmente não existiria, fisicamente falando. O que existiria seria o resultado da transformação do que os físicos chamam de “Ponto Zero”, conforme os parâmetros ora brevemente explicados. Este Ponto Zero seria o que conhecemos como Singularidade, onde as leis da Física desaparecem e outras leis devem vigorar, mas não temos como saber quais são. O Vácuo Quântico instigou, a partir da instabilidade ora mencionada, dentre outras ideias instigantes, o surgimento da Teoria das Cordas, que é uma tentativa de ligar o Universo do muito pequeno (Mecânica Quântica) com o muito grande (Cosmologia).
A Teoria das Cordas, proposta nos anos 1960, brevemente, para melhor esclarecer a questão, é o conjunto de conceitos que foram construídos para explicar aspectos da realidade que as teorias como a Relatividade (Restrita, com foco na velocidade da luz, e Geral, com foco na Gravidade Universal) e as ideias Quânticas (com foco na probabilidade de momentum – criação, composição e interação da matéria) não explicam de todo. A realidade universal seria composta por cordas vibrantes minúsculas, infinitamente menores do que os átomos ou mesmo do que partículas subatômicas, como os prótons, os elétrons, os neutros e toda a família dos quarks, dos múons e dos bósons. A Teoria das Cordas supõe que, ao invés de a matéria ser constituída de partículas elementares, como os elétrons, por exemplo, seria, na verdade, constituída por “cordas unidimensionais”, divididas em “cordas abertas” (lineares) e “cordas fechadas” (em formatos diferentes, como as cordas em forma de laço), todas “vibrando” ininterruptamente em variadas frequências.
No senso comum, ao contrário da Física, o nada é, simplesmente, a ausência de tudo. Não obstante, o nada físico, como vimos, preparou as condições fundamentais para que o Universo seja, hoje, o que vemos e sentimos; o nada físico tem peso e exerce força sobre a materialidade universal até os dias atuais. O nada físico é tudo! E tudo o mais, dele derivou. Aliás, desta perspectiva (já escrevi antes sobre esta questão, em outros textos), o que chamamos de “tudo” é anterior ao que, comumente, muitos entendem por “nada”, posto o fato de que, se nada existe, tudo o que existe é nada e esta qualificação, de um nada como ausência de tudo, é típica das subjetividades que assim o conceituaram. O nada filosófico é, deste modo, posterior ou tudo existencial; já o nada físico se funde e confunde com tudo o que existia.
O que significa e o que pode significar, de diferente da concepção expressa no primeiro parágrafo, a frase de Paulo Freire, e por que comecei, aqui, a falar sobre “Nada”, “Vácuo Quântico” e “Teoria das Cordas”, que são conceitos físicos que em nada (opa!) se relacionam com o porvir freireano. Não se relacionam? Espere! Como diz o ditado popular: devagar com o andor, porque o santo é de barro. Pensemos um pouco.
O título deste artigo traz a ideia de que “nada é o que parece ser; tudo é aquilo que se percebe ser”. Então, quando Paulo Freire reflete sobre o porvir, como resultado inevitável, embora não previsível, de uma demanda ou necessidade atual que é, ou tenha sido, contida, ele está apontando para uma relativa “entropia social e política” que, apesar de sucessivas e insistentes negativas de uns e outros, é uma realidade irrecusável.
Diz o ditado que todo problema tem solução; se não há solução, não é ou deixou de ser um problema. Por outro lado, se a solução de um problema, notadamente em se tratando uma altercação social, não é rapidamente achada e posta em prática, ainda mais especialmente, se for uma questão estrutural e já longeva, a tendência é de a situação piorar, por conta, da Segunda Lei da Termodinâmica ou, como a definimos, a Entropia. Vejamos como isso acontece, resumidamente, através de dois exemplos práticos.
Primeiro exemplo. Por conta da baixa manutenção das galerias pluviais ou residuais e das respectivas calhas da rede de esgoto, ou de sua inadequação em face de terem se mantido as mesmas, ainda que a população local tenha crescido, com o passar do tempo, não só as referidas calhas irão entupir, como irão se deteriorar, posta a depreciação do material de que são feitas. A tendência de um sistema, pela entropia, sem intervenção externas que o reequilibrem é, assim, seguir para o caos, onde a desordem impera e o grau de aleatoriedade se sobrepõe à previsibilidade.
Segundo exemplo. Um fenômeno social relativamente recente são as “cracolândias”, onde seres deixam sua condição humana em algum lugar no passado e se transformam em verdadeiros zumbis, pelo vício arrasador. Se presenciamos rapidamente a intervenção urbana, especialmente do setor público, mas também, como, quando e até onde pode atuar, uma “cracolândia” pode ser dispersada, para o bem dos “cracudos”, dos moradores locais e da cidade como um todo. Contudo, se esta intervenção não for posta em prática ou se o for de modo parcial ou ineficiente, a tendência é que o grau de aleatoriedade dos acontecimentos humanos no meio dos cracudos a torne desordenadamente crescente e, por quase óbvio, desordenada. E entropia social, aqui, é ainda mais visível e difícil de ser combatida.
O sistema de forças sociais, se o “ponto zero” não for debelado, com rapidez e eficiência, tal como na natureza, nas sociedades não existe “vácuo” e o “campo quântico”, aqui representado pelo ascenso do problema social não resolvido, gera, em si, por si, para si e para fora do sistema, um problema que, projetado pela desordem causada, tende ao caos completo. E a partir de determinado ponto, talvez não haja vibração (a Teoria das Cordas, neste contexto, nem pode ser aplicada) social que possa resolver o problema, fazendo-o deixar de ter solução e, com isso, levando-o a uma indesejável e, ora, caótica, situação política.
O porvir, mencionado por Paulo Freire, torna-se altamente prejudicado em sua realização, se a Entropia Social não for levada em consideração na tomada de decisões de todos nós. Não que este porvir não se realize, mas sua materialização será a de um porvir distópico e não utópico; disruptivo e não construtivo. Qual porvir queremos para nós e para nossos descendentes?

Carlos Fernando Galvão,
Geógrafo, Doutor em Ciências Sociais e Pós Doutor em Geografia Humana
Instagram: @cfgalvao54
profcfgalvao@gmail.com









