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A jornada começada por “Tipping Point” já deixa claro o foco do novo álbum: velocidade, técnica e uma guitarra que prende a atenção logo de cara. O riff inicial, obra de Teemu Mäntysaari, entra rasgando antes que Mustaine responda com um solo curtíssimo, quase uma provocação, preparando terreno para um segundo riff ainda mais agressivo. A bateria de Dirk Verbeuren conduz tudo com voracidade. A faixa desacelera aos poucos até se reconfigurar em um trecho inspirado no espírito da N.W.O.B.H.M., quase como um capítulo extra dentro da mesma música.
Em seguida, “I Don’t Care” traz o Mustaine mais direto e punk do disco. A única faixa assinada somente por ele começa com uma levada simples guiada pelo baixo pulsante de James LoMenzo e carrega um espírito anárquico, explicitando sem rodeios as influências de Dead Kennedys, F.E.A.R. e Sex Pistols. A letra funciona como um recado escancarado, confrontador, no clássico “não devo nada pra você”.
“Hey, God?!” chega freando o combustível das duas primeiras faixas, adotando um andamento mid-tempo e uma postura mais introspectiva. Mustaine canta em primeira pessoa e exibe certa vulnerabilidade , um contraste interessante com o início destrutivo do disco. O refrão é um dos mais memorizáveis do álbum e a sonoridade remete aos momentos mais melódicos de Countdown to Extinction, Youthanasia, Th1rt3en e Super Collider. Logo depois, “Let There Be Shred” recoloca tudo no modo turbo: é uma homenagem escancarada à guitarra, ao heavy metal e ao ímpeto juvenil do speed/thrash, dialogando tanto com a fase inicial de Mustaine dentro do Metallica quanto com o Megadeth do período Rust in Peace.
“Puppet Parade” reforça o lado mais melódico do disco e revisita o Megadeth dos anos 1990. O início remete a Cryptic Writings, mas a música vai aumentando peso e atmosfera, aproximando-se de Countdown to Extinction e Youthanasia. Na sequência, “Another Bad Day” mantém o andamento cadenciado e também aposta em melodia. O refrão, construído como um mantra com a repetição do próprio título, pega rápido e lembra soluções presentes em Super Collider, The System Has Failed e United Abominations.
Já “Made to Kill” figura entre as mais intensas do álbum: rápida, pesada e com potencial para virar caos em show. A introdução de Dirk é pulsante e criativa, e a banda mergulha em uma avalanche que lembra Blackmail the Universe e momentos extremos de The Sick, The Dying… And the Dead!. A estrutura alterna trechos velozes com passagens moderadas, mas sem perder a violência que define seu caráter.
“Obey the Call” representa o lado mais sombrio do disco. O início com dedilhado e bateria ecoa Trust, e o refrão, climático, dá um tom quase lisérgico à faixa. Quando tudo indica que o final virá da mesma forma, o grupo acelera abruptamente com solos alucinados antes de um encerramento brusco, selado com o comando de Mustaine: “Obedeça ao chamado!”.
Uma das surpresas é “I Am War”, assinada pelos quatro integrantes, que mistura melodia e densidade emocional. O phaser no riff inicial já entrega uma estética distinta, enquanto o solo — curto, mas bonito — e o refrão repetitivo ampliam o impacto. Mustaine personifica o conflito como algo interno e constante, o que torna a letra mais profunda do que parece à primeira vista.
Fechando o álbum, “The Last Note” chama atenção desde o título e assume o peso simbólico de uma despedida. A música começa triste, com dedilhado e voz quase sussurrada, até ganhar corpo na estrofe e explodir em guitarras e violão solo antes do retorno da melancolia. As palavras finais — “eu vim, eu comandei e agora desapareço” — cumprem o papel emocional sem exagero, encerrando com um sentimento de fim de trajetória.
Como bônus, Mustaine ainda inclui “Ride the Lightning”, não como provocação, mas como reconhecimento da própria origem. A versão respeita totalmente a estrutura original, diferenciando-se apenas pela afinação baixa e pela abordagem vocal menos gritante. O destaque fica nos solos executados por Dave e Teemu não para competir com o passado, mas para fechar um ciclo que começou no Metallica e encontrou seu caminho definitivo no Megadeth.
Assim, o álbum funciona como síntese das múltiplas facetas da banda: agressividade, melodia, introspecção e técnica coexistem sem virar simples colagem. Não há tentativa de rivalizar com clássicos, mas de encerrar a carreira com coerência, dignidade e personalidade. Mustaine, longe de uma postura egoísta, puxa a banda para um esforço coletivo que dá certo. É uma despedida consciente, fiel à essência e à história que ele ajudou a construir.
JEFF FERREIRA










