Matamos saudades

Musical “Vozes Negras – A Força do Canto Feminino” | foto acervo @musicalvozesnegras

 

Vozes Negras, em sua absurda beleza, apresentou mais uma pérola: a história de Ivone Lara e Clementina de Jesus, através do espetáculo ‘Samba, Terreiro e Ancestralidade’.

Na noite em que o ex-presidente foi condenado pelo voto de Cármen Lúcia, ministra do Supremo, o teatro aplaudiu por quase dois minutos a DEMOCRACIA, através da fala da atriz Roberta Ribeiro. E por que falar sobre política em uma crítica teatral? Porque, por meio da democracia, lutamos a favor da diversidade e da inclusão. Portanto, entende-se a importância de defendê-la até o fim e em todos os momentos.

E o espetáculo seguiu, com um corpo de dança do mais alto nível, em que ombros, cinturas e pés falaram sobre africanidade.

Desta vez, Maria Ceiça apresentou o espetáculo, bradando seu texto com a alma, sem hesitar, com uma força sentida através da pele e de nossos arrepios, mais uma vez.

Na performance de Ivone, surge Roberta Ribeiro, atriz indicada ao prêmio Bibi Ferreira em São Paulo. Ao fecharmos os olhos, era possível sentir Ivone. Naturalmente, a plateia cantou os sambas da senhora que nos ensinou a “pisar devagarinho”. O figurino rendado e branco, de um alvejante brilho, com poucos detalhes em uma gola, criado por Wanderley Gomes, pareceu superar a identidade artística dele. Roberta não falha, mesmo enfrentando dificuldades semelhantes às que Ivone um dia atravessou. Há, na atriz, uma necessidade de ser e de mostrar que sabe fazer, e temos a sorte de estar presentes diante da sua luta para ser melhor que ontem!

Já, como Clementina de Jesus, a mulher que descolonizou a música brasileira, a atriz Vanessa Brown foi simples e pontual, muitíssimo cuidadosa, sem querer ser mais do que deveria. E isso foi assertivo. O figurino da atriz nos remeteu à mulher negra que, por meio da religião, nos embalou completamente. Até sotaque havia — um trabalho de voz e teatro que nos conduziu à admiração ou devoção, por que não?

Sem contar a beleza que foi assistir às artistas “vivas” vestidas de baianas, estilo anos oitenta, sem apetrechos pesados, mas na tradição da década.

Ah! A rotunda de palhas e velas acesas também criou o aconchego dessas artistas que defenderam a própria fé. Digno!

Cláudia Elizeu, do seu trono, tocava e cantava com um grande sorriso. Não parecia estar trabalhando, mas festejando — assim como Gustavo Gasparani, em sua poltrona, ele, o diretor artístico. Regozijar era o mínimo que poderiam fazer após as criações de ambos.

As atrizes Roberta Ribeiro e Vanessa chegaram ao palco e sentaram-se como se fossem duas entidades e, ao despertarem, nos ofereceram um belíssimo espetáculo. Nesse espetáculo, parecíamos estar em um terreiro, um terreiro belíssimo e encantador, com o apoio do corpo de dança que, através das vozes e palmas, abrilhantou a nossa noite.

Vale mencionar a artista que conduziu o coro com as cantadeiras: a atriz Mariana Antonia Braim, que estava simplesmente em sintonia com as ondas do mar, batendo em nós com o impacto certo.

Aos demais profissionais, segue a crítica anterior, pois mais uma vez brilharam como a lua cheia em uma noite de céu sem nuvens.

Ainda temos mais 4 espetáculos!

 

SINOPSE

‘Samba, Terreiro e Ancestralidade’

O segundo espetáculo da série musical Vozes negras – A Força do Canto Feminino exaltará o samba – seus terreiros e sua ancestralidade – homenageando duas de suas maiores damas: Clementina de Jesus e Dona Ivone Lara. Sem esquecer das “tias” baianas que se fixaram no centro do Rio de Janeiro no fim do século XIX, numa região chamada Pequena África; e o famoso quintal da Tia Ciata, por onde passaram grandes nomes do samba. No repertório musical, grandes sucessos de Clementina e Dona Ivone.

 

FICHA TÉCNICA

  • Idealização e Direção Geral: Gustavo Gasparani
  • Dramaturgia e Roteiro Musical: Gustavo Gasparani e Rodrigo França
  • Direção Musical e Arranjos: Cláudia Elizeu e Wladimir Pinheiro
  • Pesquisa Histórica e Musical: Rodrigo Faour
  • Consultoria de Representações Raciais e de Gênero: Deborah Medeiros
  • Coreografia: Junior Scapin
  • Cenário: Mina Quental
  • Figurino: Wanderley Gomes
  • Desenho de Luz: Ana Luzia de Simoni
  • Desenho de Som: Gabriel D’Angelo e Joyce Santiago
  • Visagismo: Mary Santos
  • Diretores Assistentes: Marluce Medeiros, Menelick de Carvalho e Sueli Guerra
  • Produção de Elenco: Elenco Negro Casting por Mônica Nega e Gabriel Bortolini
  • Direção de Produção: Bianca Caruso
  • Direção Artística e Produção Geral: Aniela Jordan
  • Direção de Negócios e Marketing: Luiz Calainho

 

SERVIÇO

 

Paty Lopes (@arteriaingressos). Foto: Divulgação.

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Author

Dramaturga, com textos contemplados em editais do governo do estado do Rio de Janeiro, Teatro Prudential e literatura no Sesi Firjan/RJ. Autora do texto Maria Bonita e a Peleja com o Sol apresentado na Funarj e Luz e Fogo, no edital da prefeitura para o projeto Paixão de Ler. Contemplada no edital de literatura Sesi Fiesp/Avenida Paulista, onde conta a História de Maria Felipa par Crianças em 2024. Curadora e idealizadora da Exposição Radio Negro em 2022 no MIS - Museu de Imagem e Som, duas passagens pelo Teatro Municipal do Rio de Janeiro, com montagem teatral e de dança. Contemplada com o projeto "A Menina Dança" para o público infantil para o SESC e Funarte (Retomada Cultural/2024). Formadora de plateia e incentivadora cultural da cidade.

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