
Arte Digital com IA: Chris Herrmann
LIVROS À MANCHEIA
O mercado editorial é tirano em relação a novos livros. Eles têm de atender às exigências de comercialização, senão são prontamente descartados. Quem determina a importância de um livro são os leitores, mas os editores, por entenderem “do que vende”, conduzem o que é oferecido como as únicas opções possíveis.
É um cabo-de-guerra: ora a demanda exige, ora a oferta se abre. Mas o que as pessoas realmente querem ler, ninguém sabe, porque isso não está dito em lugar nenhum.
O único lugar que pode servir de termômetro talvez sejam as livrarias. E quem mais entende disso são os livreiros. Os editores (muitas vezes também livreiros) tentam perceber o que as pessoas querem ler. Eu, pelo meu lado, crio um público leitor: publico o que não tem em lugar nenhum, em vez de atender o que se pensa que os leitores querem ler, pois isso só eles sabem. Mas como irão procurar o que não conhecem? É aí que o editor tem de “descobrir” o que eles poderão querer ler um dia.
Um livro só vende se estiver à venda. Se não for colocado à venda, não vende. E só saberemos se vende, se ele existir, para alguém poder comprá-lo. Se eu não o publicar, jamais saberei se ele vende. Temos de acreditar piamente que o melhor livro ainda será escrito, ainda será publicado, ainda será posto à venda. Então, é esse livro que temos de buscar.
A surpresa é o melhor ingrediente. Surpreenda sempre. Livros sobre os mesmos assuntos já publicados também vendem, pois um livro não compete com outro, ele o complementa. Sempre a visão de um autor é única, diferente de outro. Relatos pessoais sempre interessam, pois cada um tem um modo próprio de enfrentar uma situação, então, são sempre novidade. Observar o que está à sua volta é a melhor forma de obter informações. Veja, leia, compare.
Passear por uma livraria para saber o que vem sendo publicado ultimamente dá uma dica sobre o que ainda não foi escrito – e, por outro lado, mostra assuntos que podem ser expandidos ainda mais. Ninguém rouba uma ideia, a não ser que a copie. Aí é plágio, e isso é crime. Mas falar sobre algo que alguém já falou, chama-se recriação. Por isso, todos os poemas de amor valem a pena, como todas as biografias e livros de viagem. Por mais que o homem seja o mesmo, nada se repete exatamente do mesmo modo, como os dias que se sucedem e nunca são iguais.
Uma paisagem depende de quem a vê. Italo Calvino escreveu sobre as Cidades invisíveis, aquelas que só o viajante conhece, pois uma cidade nunca é a mesma para duas pessoas. O mesmo acontece com um livro: todo relato é único. E quanto melhor contarmos nossa história, mais pessoas irão querer lê-la. Mario de Andrade escreveu um único romance: não precisou de outro. Oscar Wilde, idem, e ambos são conhecidos especialmente por eles: Macunaíma e O retrato de Dorian Gray.
Shakespeare, quando escreveu Romeu e Julieta, inspirou-se na história de outro autor, mas escreveu-a de forma tão única, que sequer conhecemos a outra peça. O importante não é ser inédito, mas escrever da melhor maneira o que tiver para contar.
Bram Stoker se inspirou na história do vampiro de John Polidori, médico particular de Lorde Byron, escrita na mesma noite tempestuosa, em 16 de junho de 1816, à beira do Lago Léman, em Genebra, que também engendrou Frankenstein. Mary Shelley criou seu monstro a partir dos relatos sobre um médico alemão que tentava ressuscitar cadáveres. Em Drácula, Stoker escreveu a partir do que o médico de Byron esboçara e a história vingou. Aí descobrimos que Drácula e a criatura de Frankenstein são irmãos: nasceram na mesma noite.
Escolha seu tema: é preciso surpreender. Mesmo que faça algo já conhecido, faça-o como se fosse pela primeira vez – e conseguirá alcançar o tom para contá-la como nova.
Thereza Christina Rocque da Motta
Fevereiro de 2026
Colunista ArteCult e editora
da Ibis Libris Editora (@ibislibris)










