JEFF BECK: O SILÊNCIO QUE INCENDIAVA A GUITARRA

Coluna de Chris Herrmann

Arte Digital: Chris Herrmann

 

Quando o virtuosismo escolhe o caminho da liberdade

 

Jeff Beck nunca quis ser o mais famoso.
Nunca quis ser o mais vendido.
Nunca quis agradar a indústria.

 

Ele quis, e conseguiu, algo mais raro: fazer da guitarra um organismo vivo, capaz de respirar, sussurrar, gritar, tropeçar e se reinventar a cada nota. Na história do rock, poucos músicos alcançaram esse grau de liberdade criativa. Jeff Beck foi um deles, alvez o mais radical.

 

Infância, obsessão e o nascimento de um som próprio

Geoffrey Arnold Beck nasceu em 24 de junho de 1944, em Wallington, Surrey, Inglaterra. Ainda criança, construiu guitarras improvisadas e desenvolveu uma obsessão quase científica pelo som. Fascinado por Les Paul e Gene Vincent, Beck não buscava apenas tocar riffs: ele queria entender como o som nascia.

Essa curiosidade técnica, aliada a um ouvido extremamente sensível, moldaria toda a sua carreira. Jeff Beck não estudava música para obedecer regras, mas para dobrá-las até onde fosse possível.

 

The Yardbirds: o herdeiro improvável

Em 1965, Jeff Beck assume a guitarra do The Yardbirds, substituindo ninguém menos que Eric Clapton. A comparação era inevitável — e injusta. Onde Clapton reverenciava o blues tradicional, Beck já empurrava o gênero rumo à distorção, ao feedback e à psicodelia.

Pouco depois, o Yardbirds teria dois guitarristas simultaneamente: Jeff Beck e Jimmy Page. Era um choque de forças criativas que antecipava o futuro do rock pesado. Beck gravou clássicos como:

  • Heart Full of Soul

  • Shapes of Things

  • Over Under Sideways Down

Ali, o rock começou a soar mais agressivo, mais abstrato, mais moderno.

 

Jeff Beck Group: o blues explode em eletricidade

Após deixar o Yardbirds, Beck forma o Jeff Beck Group, reunindo músicos que se tornariam gigantes:

  • Rod Stewart (vocais)

  • Ronnie Wood (baixo)

Os álbuns Truth (1968) e Beck-Ola (1969) são considerados fundadores do hard rock. Esses discos antecipam o peso do Led Zeppelin, do Deep Purple e do heavy metal nascente, mas com uma diferença crucial: Beck nunca perdeu o controle emocional do som.

Ele não tocava para esmagar, tocava para tensionar.

 

A virada instrumental: guitarrista sem fronteiras

Nos anos 1970, Jeff Beck faz algo raro para um astro do rock: abandona o formato canção e mergulha na música instrumental. Com os álbuns:

  • Blow by Blow (1975)

  • Wired (1976)

Beck mistura rock, jazz fusion, funk e eletrônica, criando paisagens sonoras onde a guitarra substitui a voz humana. Cada nota parece escolhida não pela técnica, mas pela intenção emocional.

Esses discos o colocam definitivamente entre os maiores guitarristas de todos os tempos, mas também o afastam do estrelato fácil. Beck nunca fez concessões.

 

Parcerias que viraram história

Jeff Beck foi um músico reverenciado por músicos. Suas colaborações são um mapa do respeito que conquistou:

  • Stevie WonderSuperstition nasceu de uma jam com Beck

  • David Bowie — guitarra em Heroes (álbum)

  • Mick JaggerShe’s the Boss

  • Tina Turner — turnês e gravações

  • Johnny Depp — álbum 18 (2022), surpreendente e sensível

  • Eric Clapton & Jimmy Page — encontros históricos, raros e simbólicos

Entre guitarristas, era consenso: Beck era o guitarrista dos guitarristas.

 

Um estilo impossível de copiar

Jeff Beck dispensava palheta em muitos momentos, usando dedos, alavanca e microvariações de pressão para criar timbres quase vocais. Seu uso da alavanca não era efeito, era linguagem.

Ele transformou a guitarra elétrica em algo próximo a um instrumento de sopro, onde cada inflexão carregava respiração, tensão e silêncio.

 

Prêmios e reconhecimento tardio (mas incontestável)

  • 8 prêmios Grammy

  • Rock and Roll Hall of Fame, duas vezes:

    • com o Yardbirds

    • como artista solo

 

 

  • Presença constante no topo das listas de Greatest Guitarists of All Time

Mesmo assim, Beck permaneceu discreto, avesso ao espetáculo e distante do culto à celebridade.

 

Curiosidades que dizem tudo

  • Detestava repetir solos exatamente iguais

  • Preferia pequenos ajustes manuais a pedais excessivos

  • Nunca se sentiu confortável sendo chamado de “lenda”

  • Dizia que o erro fazia parte do som perfeito

 

O adeus e o eco eterno

Jeff Beck faleceu em 10 de janeiro de 2023, aos 78 anos. O mundo do rock reagiu em uníssono: mensagens de luto de Page, Clapton, Gilmour, Brian May, Slash e tantos outros.

Mas Beck não deixou apenas discos.
Deixou uma lição: a guitarra pode ser infinita quando o músico se recusa a obedecer fórmulas.

 

Por que Jeff Beck importa — e sempre importará

Jeff Beck não foi o mais popular.
Não foi o mais previsível.
Não foi o mais confortável.

Foi o mais livre.

E, no rock, liberdade é a forma mais alta de arte.

 

Fontes:

  • JeffBeck.com (site oficial)
  • Encyclopaedia Britannica
  • Rolling Stone (US)
  • GRAMMY / Recording Academy
  • AllMusic
  • Guitar World
  • MusicRadar
  • Mojo Magazine
  • The Guardian
  • NPR Music
  • AP News

 

 

 

CHRIS HERRMANN

 

 

 

 

Author

Chris Herrmann é escritora/poeta, musicista, musicoterapeuta, editora e webdesigner teuto-brasileira, nascida no Rio de Janeiro. Estudou Literatura na UFRJ, Música no CBM e pós-graduou-se em Musicoterapia na Universidade de Münster, Alemanha. Tem 13 Livros publicados (poesia contemporânea, haikai, romance, contos e literatura infantil); bem como participação e organização em inúmeras coletâneas de poesia no Brasil e exterior. Recebeu diversas premiações ao longo dos últimos 20 anos, como escritora, poeta, webdesigner e curadora de sarau. É editora-chefe da revista eletrônica Ser MulherArte (www.sermulherarte.com | @sermulherarte); articuladora do Mulherio das Letras na Lua (Grupo de Poesia ligado ao Movimento Mulherio das Letras); editora do Sarau da Varanda (@sarau.da.varanda) e Arthéria Viva (@artheriaviva) no Instagram. Desde Outubro de 2025, é assessora e colunista do Portal ArteCult (www.artecult.com | @artecult).

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