ESCREVA, ESCREVA, ESCREVA…

Arte digital com IA | Chris Herrmann

 

ESCREVA, ESCREVA, ESCREVA…

 

…e me volte daqui a vinte anos, disse Mário Quintana a um poeta novato. Monteiro Lobato também advertia: “Não se precipite para publicar seus versos. Guarde-os até ter certeza de estarem maduros”, aconselhou ao jovem Gilson Maurity, que lhe mostrara seus poemas.

Essa paciência nem todos os autores têm. De esperar que seu fruto esteja no ponto, mas os escritores tarimbados sabem que é preciso esperar que o livro se “apronte”. Antonio Torres nos dá outro conselho: “Não fale sobre o que está escrevendo, senão você se desincumbe falando e não escreve nada”.

Todos eles sabem o que estão dizendo, e também seus editores. Publicar um livro imaturo é pecar contra si mesmo. Um livro não tem culpa da pressa de seu dono. Ele antes caminha no seu próprio tempo. Tem um andar todo seu, de coisa que sabe a que veio. E, se o apressarmos, o livro se vira contra nós. Quanto tempo se espera um livro ficar pronto! Por vezes, são décadas, como tenho visto. E escrevê-lo faz parte desse processo.

A outra ponta é revisá-lo. Há erros que ficam ocultos e não os percebemos. Só muito tempo depois é que “saltam” aos olhos. A sorte é pegá-los antes que virem “gralhas” ou “sacis-pererês”, como Monteiro Lobato gostava de chamá-los.

Um erro num livro estraga-o todo. Só conseguimos pensar nele e em mais nada. Nem percebemos que é apenas um em meio a não sei quantas palavras certas. Depois de publicados, não podemos mais corrigi-los. E ter de conviver com eles é um suplício. Só nos resta aceitá-los, seguir em frente e fazer tudo para que, da próxima vez, tenhamos a calma e os olhos de águia para não deixar passar coisa alguma.

Revisores, cuidado: nem sempre sabemos o que estamos fazendo. É preciso ter uma sabedoria monástica para ponderar durante uma revisão e ver em profundidade, não apenas a superfície do texto.

Tenho certeza absoluta de que já fui um desses monges copistas, que ficavam na biblioteca, copiando e traduzindo livros, ou até sonhando com seus versos. Ainda posso sentir o frio através das paredes úmidas que os protegiam do inverno gelado do lado de fora.

Livros preenchem uma vida para poder escrevê-los, revisá-los, editá-los e imprimi-los. Fazer isso toma todo o nosso tempo: e no que sobrar, passamos lendo outros livros, ou pensando em novos ainda não escritos, ou naqueles que gostaríamos de traduzir.

 

Thereza Christina Rocque da Motta

Janeiro 2026

 

 

 

 

Colunista ArteCult e editora
da Ibis Libris Editora (@ibislibris)

 

 

 

 

Author

Thereza Christina Rocque da Motta (São Paulo, SP, 1957) é poeta, editora e tradutora. Foi Jurada de Tradução do Prêmio Jabuti, em 2018. Recebeu a Medalha Chiquinha Gonzaga da Câmara dos Vereadores, em agosto de 2021. Coordena a Ponte de Versos desde 2000, evento incluído no Calendário Oficial de Cidade do Rio de Janeiro, em 2024. Fundou a Ibis Libris no Rio de Janeiro, em 2000. Publicou Joio & trigo (1982), Capitu (2014), Lições de sábado (crônicas, 2015), Minha mão contém palavras que não escrevo (2017), O amor é um tempo selvagem, Lições de sábado Vol. 2 e A vida dos livros Vol. 2 (2018), Poesia Reunida 40 anos (1980-2020), Sheherazade: Novas lendas das 1001 noites e três já conhecidas (2022), entre outros. Traduziu, entre outros, Marley & Eu, de John Grogan (2006), A Dança dos Sonhos, de Michael Jackson (2011), 154 Sonetos, de William Shakespeare (2009), Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll e O Corvo, de Edgar Allan Poe (2020), Mais mortais que os homens, org. Graeme Davis (2021) e A última casa da Rua Needless, de Catriona Ward (2023), vencedor do British Fantasy Award, como Melhor Romance de Terror de 2022.

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