Entrevista com a maestra brasileira Andréa Huguenin Botelho, da “Brasil Orchester Berlin”

Maestra Andrea Huguenin Botelho – Brasil Orcherster Berlin 2025 | Créditos: Igor Ogashawara

 

Andréa Huguenin Botelho

Uma Maestra na Vanguarda da Música Global

 

Maestra, pianista, compositora e pesquisadora, Andréa Huguenin Botelho (@maestra.andreabotelho) é uma das personalidades mais marcantes da arte contemporânea da regência. Em janeiro de 2026, ela assumiu o cargo de regente titular da Westpfälzischen Sinfonieorchester, a Orquestra Sinfônica do Palatinado Ocidental, na Alemanha. Essa nomeação marca um novo capítulo em uma carreira já brilhante, dedicada à excelência artística e à promoção incansável da diversidade cultural por meio da música.

Com uma carreira de mais de 30 anos, a maestra teuto-brasileira é reconhecida por seu compromisso apaixonado e sua profunda especialização no repertório de compositoras – uma característica central e distintiva de sua identidade artística e de sua missão.

Sua convicção de que a música é uma plataforma poderosa para o encontro cultural e a conexão humana concretizou-se com a fundação, em novembro de 2025, da Brasil Orchester Berlin.  Sob sua direção, a orquestra sinfônica rapidamente estabeleceu-se como um farol vivo da música brasileira na Alemanha, honrando a riqueza, a profundidade e a diversidade de um patrimônio musical que transcende fronteiras.

Este projeto inovador demonstra sua capacidade única de reunir músicos de diferentes origens e níveis de experiência – desde profissionais estabelecidos até amadores dedicados – em torno de um objetivo comum: criar experiências sonoras inesquecíveis que não apenas entretêm, mas também educam e inspiram.

A formação de Andréa Huguenin Botelho reflete sua ambição global e o seu compromisso inabalável com a maestria artística. Ela aprimorou sua arte com lendas da regência como Kurt Masur e Jorma Panula, absorvendo conhecimentos e técnicas que moldaram sua abordagem única e sensível.

No entanto, sua expertise não se limita ao pódio: ela é curadora da aclamada série “Komponistin!” (Compositora!) e membro do conselho do renomado arquivo Frauen und Musik (Mulheres e Música) – instituições que desempenham um papel central na redescoberta, valorização e divulgação de obras de compositoras historicamente negligenciadas.

Em 2025 ela lançou os álbuns Women and the Double Bass e Cantata Ayabás, ampliando ainda mais o seu alcance artístico e a ressonância de sua mensagem. Women and the Double Bass buscou renovar o repertório para contrabaixo e piano com peças compostas exclusivamente por mulheres. Cantata Ayabás exalta a paixão da maestra pela música e pela cultura afro-brasileira. O álbum é um registro ao vivo da obra homônima, que reuniu no palco do Schloss Britz, em 2024, cerca de 80 músicos e cantoras de 19 nacionalidades. Em 2026, suas composições serão publicadas pela renomada editora Hofmeister.

Atualmente, Andréa Botelho trabalha em um projeto em parceria com Thierry Barbé, ex-contrabaixista solo da Opéra National de Paris, que abre novas perspectivas para o repertório do instrumento.

Andréa Huguenin Botelho não apenas rege orquestras com precisão e alma – ela orquestra diálogos culturais, constrói pontes entre tradições e inspira uma nova geração a entender a música como um espaço dinâmico de inclusão, inovação e valorização da complexidade humana. Sua liderança é um convite a uma jornada sonora que é ao mesmo tempo profundamente enraizada em suas origens e universalmente ressonante em sua mensagem.

 

 

Foto: Maestra Andréa Huguenin Botelho | Divulgação

 

A Maestra Andréa Huguenin Botelho concedeu uma entrevista exclusiva

à Chris Herrmann, para o Portal ArteCult:

 

Chris Herrmann – Você se tornou a primeira mulher a assumir a direção de uma orquestra alemã com 130 anos de história. O que esse marco representa para você, pessoal e artisticamente?

Maestra Andréa: Pessoalmente, é a culminação de mais de três décadas de uma trajetória que, como a de quase toda mulher, não teve nada de linear. Eu precisei pular, desviar e quebrar muitas barreiras para chegar até aqui. Ver a Westpfälzischen Sinfonieorchester (WSO) abrir suas portas para mim após 130 anos de uma tradição exclusivamente masculina me enche de alegria, mas também de uma profunda reflexão. Esse fato comprova que o mundo na música ainda está longe de ter um equilíbrio entre os gêneros. Por outro lado, representa que a barreira foi rompida. Artisticamente, é o palco perfeito para o que considero minha missão de vida: provar que a excelência não tem gênero. Estar nesse pódio significa que o espaço que por tanto tempo nos foi negado é, e sempre foi, nosso por direito. Essa conquista não é só minha; ela ecoa por todas as mulheres que vieram antes de mim e pavimenta o caminho para as que virão.

CH – Como foi o processo de chegar à frente da Brasil Orchester Berlin? Houve algum momento decisivo em que você sentiu que essa conquista se tornaria realidade?

MA: A Brasil Orchester Berlin e o meu trabalho com coros, como o Ayabás chor Berlin e o Brasil Ensemble Berlin , nasceram da minha urgência em trazer a riqueza da nossa cultura e a força para o rigor do cenário europeu. Todo o trabalho, que é financiado com verba pública do governo pela Escola de Música de Charlottenburg-Wilmerdorf, se baseia em estreitar laços interculturais com a música brasileira. A Brasil Orchester Berlin conta com participantes de mais de 10 países.

Mas se formos buscar o “momento decisivo” da minha jornada como maestra,  na Alemanha, eu preciso voltar aos meus 14 anos, no Rio de Janeiro. Foi quando tive a chance de escutar Gustav Mahler. Toda a textura sinfônica e orquestração invadiram a minha alma, e ali decidi seguir esse caminho, que agora continua desde 1998 fora do Brasil. O processo de liderar orquestras foi construído dia a dia, pela vontade de servir à música.  Foi um misto de rebeldia, por decidir ser feliz e realizada na minha vocação, com uma dedicação obstinada ao ofício.

CH – De que forma sua formação e sua identidade brasileira influenciam sua leitura musical e sua condução de uma orquestra na Alemanha? Existe um “gesto brasileiro” na sua regência?

MA: Creio que cada música têm a sua linguagem própria, e, se nos dedicarmos com muita seriedade e consciência, é possível tanto para mim como brasileira reger a música europeia com propriedade como outros colegas regerem a música brasileira da mesma forma. Mas certamente o fato de eu ter nascido e crescido ouvindo e valorizando a nossa música, me deixa com vantagens para melhor entender e interpretar o discurso musical brasileiro. Além disso, trato a música brasileira com muita seriedade e responsabilidade e conduzo com muita paixão. Creio que isso transforma a experiência tanto para a orquestra quanto para o público.

CH – A música de concerto ainda carrega estruturas historicamente masculinas e tradicionais. Quais desafios você enfrentou como mulher nesse percurso, e o que acredita que precisa mudar no cenário internacional da música erudita?

MA: A música de concerto carrega historicamente o peso do patriarcado mais conservador. Os desafios percorrem desde o linguístico até o estético. Por anos, lutei pelo direito de ser chamada de Maestra, pois minha pesquisa histórica comprovou que o termo “maestrina” carrega um peso pejorativo e diminutivo. Cheguei a ser duramente criticada quando mandei confeccionar um fraque de trabalho para mim; diziam que eu vestia “roupa de homem”, quando, na verdade, eu vestia a roupa de uma Maestra. Recebi “elogios” como “você rege igual a um homem”, como se a qualidade artística fosse monopólio masculino. E, claro, a culpa maternal: ouvi comentários cruéis sobre “deixar minha filha com o pai”, um julgamento que homens jamais sofrem. O que precisa mudar é a normalização da liderança feminina. O sacrifício não pode ser uma exclusividade nossa.

CH – Estar à frente de uma orquestra com tanta tradição implica dialogar com passado e futuro ao mesmo tempo. Como você equilibra respeito à história e desejo de inovação no repertório e na proposta artística?

MA: O respeito à história não significa repeti-la cegamente, mas sim completá-la. A história da música tradicional está pela metade, porque apagou as mulheres. Muito frequentemente menciono em entrevistas que meu trabalho em trazer músicas invisibilidades novamente ao público, é por entender que a humanidade perdeu muito não tendo acesso a elas. Meu equilíbrio vem justamente de trazer essas vozes esquecidas para o centro do palco tradicional. Uma das minhas grandes musas inspiradoras, a brasileira Joanídia Sodré – que dirigiu a Escola Nacional de Música da UFRJ por 20 anos e lutou pelo sufrágio feminino –, é um exemplo de vida que resgato. Na WSO, na Brasil Orchester Berlin e em todas as orquestras que já tive o prazer de estar a frente, sempre proponho executar, além do grande repertório estabelecido, colocar lado a lado, com a mesma dignidade e excelência, obras de compositoras que o patriarcado tentou silenciar. Inovar, para mim, é equilibrar, recuperar e fazer justiça histórica.

CH – Que mensagem você gostaria de deixar para jovens musicistas e regentes brasileiras, especialmente mulheres, que sonham em ocupar espaços de liderança no cenário internacional?

MA: Minha mensagem é: sejam rebeldes e saibam que vocês não estão sozinhas. A jornada não será linear, vocês terão que desviar de muitos obstáculos, mas não aceitem que digam onde é o lugar de vocês. Se o fraque não serve, mandem fazer um que respeite o corpo de vocês. Se a tradição exclui, reescrevam a tradição. Apropriem-se do título de Maestra. Não se diminuam para caber no conforto de quem não está acostumado com a nossa grandeza. Que a nossa luta hoje sirva para que nenhuma de vocês precise esperar mais 130 anos para subir a um pódio e ser ouvida com o respeito que merecem.

 

Galeria de Fotos:

(clique na foto para vê-la aumentada)

 

Assista a este vídeo com regência da maestra Andréa Huguenin Botelho:

 

Para assistir mais vídeos com a maestra, CLIQUE AQUI.

 

Mais informações:

  • Assessora de Imprensa: Marcelle Braga – 55 21 98842-4820
  • Site: www.andreabotelho.com
  • YouTube: maestra.andreabotelho
  • Spotify: https://shre.ink/q7k4
  • Email: pr@andreabotelho.com
  • Instagram: @maestra.andreabotelho

 

 

Agradecemos carinhosamente à maestra brasileira André Huguenin Botelho pelo privilégio desta bela e elucidativa entrevista, bem como desejamos boa sorte e muito sucesso na Brasil Orchester Berlin, na Alemanha!

 

 

 

CHRIS HERRMANN

 

 

 

 

Author

Chris Herrmann é escritora/poeta, musicista, musicoterapeuta, editora e webdesigner teuto-brasileira, nascida no Rio de Janeiro. Estudou Literatura na UFRJ, Música no CBM e pós-graduou-se em Musicoterapia na Universidade de Münster, Alemanha. Tem 13 Livros publicados (poesia contemporânea, haikai, romance, contos e literatura infantil); bem como participação e organização em inúmeras coletâneas de poesia no Brasil e exterior. Recebeu diversas premiações ao longo dos últimos 20 anos, como escritora, poeta, webdesigner e curadora de sarau. É editora-chefe da revista eletrônica Ser MulherArte (www.sermulherarte.com | @sermulherarte); articuladora do Mulherio das Letras na Lua (Grupo de Poesia ligado ao Movimento Mulherio das Letras); editora do Sarau da Varanda (@sarau.da.varanda) e Arthéria Viva (@artheriaviva) no Instagram. Desde Outubro de 2025, é assessora e colunista do Portal ArteCult (www.artecult.com | @artecult).

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *