
Coluna de Márcio Calixto
Duas crônicas em uma

Pois bem, chego ao dia de meu aniversário.
Em especial, colocarei duas crônicas aqui. Uma desse ano. Escrita recentemente. Outra, do ano passado, eu a escrevi, mas esqueci de passá-la para a coluna.
Aqui estarão. Divididas.
Aproveitem!
Crônica I
Uma crônica ao meu aniversário
Faço 46. Percebi, nesse processo, que não publiquei a crônica que escrevi ao meus 45. Repassando meus cadernos, onde hoje tudo anoto, eu a encontrei, silenciosa, esperando digitação. Impávida e tristonha, a crônica permanecia no esquecimento da vida.
Nela escrevi sobre uma nova velhice. Tal tema já me foi alvo de outras tergiversações, porém, ao revisitar o texto, não me vi tão velho assim. Não somente porque a idade chega. Gosto tanto dessa expressão, “a idade chega”, ao nascer a idade chega, mas que idade mágica é essa, ou não tão mágica assim, que esperamos que venha um dia, e há de levar-nos aos vales da decrepitude sacral e inumana, tão violenta e voraz? Essa tal idade, tão peculiar e imaginada, que nos leva à velhice primordial de tudo, dessa vez não está aqui. Importante salientar, escrevo a crônica um mês antes de realmente me realizar com 46, mas é preciso escrever o quanto antes.
Meu atual sentimento de não velhice vem na esteira do que vivi com minha filha, em sua internação no início de Agosto. Uma anemia grave a fez ser hospitalizada. Quando os exames se apresentavam desastrosos, vi minha filha em um espaço que não cabe aos filhos. Hoje, ela plenamente viva, estou vivo. Muito vivo. Foi logo no fim de semana em que seria o Dia dos Pais, ele não estava completo. A ausência dela, a presença daquele espírito hospitalar entre todos, não nos deu o melhor dos sentimentos. Não tiramos foto. Arthur curtiu, como sempre, o Tio do Joguinho, que é a forma carinhosa como ele define meu irmão do meio. Théo, em seu afã de descobrir o mundo, correu o shopping inteiro. Almoçávamos. E era só.
Houve um momento, em especial, em que todos sacamos óculos. A conta veio. Precisávamos enxergar melhor. Meu irmão mais novo, que agora também está na casa dos 40, olhou com calma aquele papel numérico, pautado de algum absurdo. Sim, a vida é cara e agora estamos de óculos. Desse pressuposto, passamos a comparar cabeleiras.
Foi a centelha para o caos e para a risada. Nossa família se divide entre homens destelhados e outros que podem se assemelhar ao Primo It. Vale a pesquisa do nome caso não o conheça. Eu sou do lado Primo It. Meus dois meninos também assim se dividem. Um muito cabeludo. Outro, que um dia experimentará a calvície. Meu irmão, o do joguinho, muito cabeludo, grisalho, em acizentado processo de perda de vastidão negra de outrora, e o outro, a experimentar os vazios populacionais dos êxodos particulares de seus tufos. O que há, em breve aurora à inexistência, já se mostram brancos, envelhecidos. Eu, o irmão mais velho, não tenho cabelos brancos. A barba idem. Ali analisamos velhice interposta, figurada em fios. Eu, no entanto, o não velho. Os dois, mais novos, em princípio de velhice. Foi a piada do dia. Dessa forma, aplacamos a saudade por Sofia e a preocupação que nos rodava.
Realmente, chego aos 46 sem a devida presença dos fios brancos em meus cabelos. No entanto, preciso ser sincero e afirmar que me coloco em breve mentira. Há-me fios brancos. Guardo-me à discrição de onde se dão suas presenças.
Crônica II
Sobre a nova velhice
Aniversário chegando. O misto óbvio de sentimentos por alcançar 45. Nessa ode de metade de 90, um caminho mais do que sedimentado à velhice, à decrepitude, à decadência sem consentimento. Penso direto em como será a minha vida quando chegar mesmo à velhice. Tenho por meta perder algum peso, ficar mais fino para que os joelhos não sejam profundamente destroçados, ter alguma autonomia sem dependência. Vejo os atuais idosos. Poucos com plena saúde e a vida alastrada por remédios. Eu já tomo remédios cotidianamente, o de pressão. O que mais me espera?
Penso sempre na energia que deverei manter. Volto aos meus filhos, uma já adulta, outro caminhando para a adolescência e o mais novo querendo caminhar. São momentos profundamente diferentes que exigem energias diferentes. Quem serei eu para cada um deles? Durante meu processo de escolha de filhos, vinha o medo de mais ser avô de algum filho do que realmente pai. Preciso pensar neles para conseguir pensar em mim.
A blusa custa a entrar no corpo. A calça também. O ar parece não me desejar. Meu sopro é mais lento. Meus olhos mais esbugalhados. Meu garoto do meio exige de meus ouvidos e inteligência com suas perguntas de extrema constância e perspicácia. Meu mais novo quer que eu respire. Em todos, uma falta de ar absurda. Isso tudo antes dos 45. E depois? Pressinto caos. Que venham os 45. Depois vejo o que posso fazer.
MÁRCIO CALIXTO
Professor e Escritor

Márcio Calixto. Foto: Divulgação.


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