DESFAZENDA – Um espetáculo digno de aplausos!

“Desfazenda” | Foto: Divulgação

 

DESFAZENDA

 

O espetáculoDesfazenda” apresenta a história de quatro pessoas pretas que, após serem “salvas” de uma guerra por um padre branco, passam a viver em sua fazenda, dedicadas às tarefas cotidianas do lugar. A rotina é conduzida por Zero, um homem preto mais velho, enquanto o padre permanece recluso na capela. Figura ausente e, ao mesmo tempo, onipresente.

A guerra nunca chega ali.
Ou talvez nunca tenha ido embora.

Toda tentativa de questionamento é interrompida pelo toque constante de um sino. O som organiza o tempo, disciplina os corpos, silencia dúvidas. A encenação constrói, com rigor e delicadeza, uma reflexão profunda sobre memória, poder e permanência. Sobre o que se herda e o que se impõe.

Assisti online, durante a pandemia. Escrevi sobre a obra naquele momento, e, para minha surpresa, não retiro uma vírgula do que disse.

Na época, registrei:

“O espetáculo apresenta a história de quatro pessoas pretas que, após serem salvas de uma guerra por um padre branco, passam a viver em sua fazenda, dedicadas às tarefas cotidianas do local. A rotina é conduzida sob a supervisão de Zero, um homem preto mais velho, enquanto o padre permanece recluso na capela. Em um ambiente onde a guerra nunca chega e os questionamentos parecem ser silenciados pelo toque constante de um sino, a cena constrói uma reflexão sensível e provocadora sobre memória, poder e permanência.”

Isso foi dito quando a montagem chegava mediada pela tela. Ao vivo, no entanto, o impacto é maior. Mais físico. Mais incontornável.

O teatro de São Paulo merece minha reverência. A musicalidade dos corpos negros em cena revela uma afinação rara entre movimento, palavra e intenção. Há uma organicidade que não é apenas técnica, é ancestral. Assisti e tive a sensação de viajar no tempo. Um tempo que também é meu, mas que, dolorosamente, pertence sobretudo aos outros, aos que vieram antes.

O teatro ao vivo é segredo compartilhado. É honestidade crua. É contundência. E essa montagem é tudo isso.

Não encontro palavras suficientes para os artistas em cena: Ailton Barros, Filipe Celestino, Jhonny Salaberg e Joy Catarina / Marina Esteves. O nível cênico e musical é de excelência absoluta. Em tudo há licença poética: no corpo, nos olhos, no canto. São intérpretes coroados pela força daqueles que evocam. Há algo espiritual atravessando a cena, e não digo isso como metáfora vazia.

Sobre Marina Esteves, reafirmo o que escrevi:

“A atriz Marina Esteves, a única mulher no elenco, representa com devoção o gênero.
Parece sangrar em seu íntimo; por sua raça, parece compreender na alma essa história covarde vivida por seus ancestrais. Que atriz imensa, de arrebatadora performance. Suas expressões faciais são relevantes e hipnotizam o espectador.”

Repito cada palavra.

O hip hop atravessa a cena, e nada poderia ser mais justo. O gênero, nascido nas comunidades jamaicanas, latinas e afro-americanas da década de 1970, é linguagem legítima de resistência, denúncia e afirmação. Ele ecoa guetos, subúrbios, periferias. A direção musical de Dani Nega é contundente, precisa, visceral.

A iluminação é belíssima: não apenas ilumina, mas dança com os artistas. Cria atmosferas, rasga sombras, revela silêncios.

Que aula de teatro.
Que direção de movimento.
Que elenco.

Os figurinos gritam diante dos nossos olhos. Não como excesso, mas como afirmação. Há pertencimento em cada escolha estética. Há grandeza artística. Há consciência histórica.

O figurino, o cenário, a direção de movimento, tudo eles, sei lá, emociono-me a dizer que isso é um coletivo, ou não, mas uma força do teatro, que obviamente o sucesso não demoraria a se render ao BECO.

Não sei se algum dia esquecerei esse espetáculo. Pela dor que carrega, sim. Mas, sobretudo, pelo nível do teatro negro apresentado ali. Pela potência. Pela dignidade. Pela arte que não pede licença para existir.

É daquelas experiências que nos atravessam. E ficam.

 

Ficha Técnica:

  • Direção: Roberta Estrela D’Alva
  • Dramaturgia: Lucas Moura
  • Elenco: Ailton Barros, Filipe Celestino, Jhonny Salaberg e Joy Catarina/Marina Esteves
  • Vozes Mãe e Criança: Grace Passô e Negra Rosa
  • Direção Musical: Dani Nega e Roberta Estrela D’alva
  • Produção Musical: Dani Nega
  • Cenografia e Figurino: Ailton Barros
  • Desenvolvimento de figurino: Leonardo Carvalho
  • Desenho de Luz: Matheus Brant
  • Vozes Mãe e Criança: Grace Passô e Negra Rosa

 

Sobre a obra:

O espetáculo cresce como uma febre que não pede licença. A cada cena, a respiração da plateia encurta. A história — desalmada, racista, brutal — é narrada por um elenco negro que carrega no corpo aquilo que o texto denuncia: a falsa “adoção de crianças negras” levadas para a Fazenda Cruzeiro do Sul.

Fazenda erguida com tijolos marcados pela suástica.
Sim, tijolos nazistas.
E não estamos falando da Europa. Estamos falando do Brasil. Infelizmente.

Crianças arrancadas de orfanatos do Rio de Janeiro, apresentadas como órfãs ou abandonadas, enviadas para o interior de São Paulo para serem escravizadas. Como aconteceu com Luiz Gama, vendido pelo próprio pai aos dez anos.

Eram cerca de cinquenta crianças. Escolhidas como gado. Para os fazendeiros, não tinham nome — eram números. Apanhavam, trabalhavam sob ameaça, sob tortura, com a exigência de força que se cobra de homens feitos. Infância nenhuma sobreviveria intacta ali.

Em um dos momentos mais dilacerantes, o diário do Menino 00 toma o palco. Os microfones apontam para o chão — um ruído seco que atravessa o peito — e, de repente, vozes emergem de todos os lados. Não vêm apenas do palco; vêm em nossa direção. Velas se acendem na escuridão e parecem apontar caminhos invisíveis. É como se os mortos exigissem escuta.

Ufa. Que momento.

O espetáculo não permite conforto. Ele convoca memória. Expõe um período doente da nossa história — um tempo que jamais deveria ter existido, mas que não pode, sob hipótese alguma, ser apagado.

Quase cem anos depois, a população negra continua enfrentando um racismo brutal e estrutural, muitas vezes legitimado pelo próprio Estado. A engrenagem muda de forma, mas não de alvo.

 

Assista ao documentário “MENINO 23”, de onde a peça nasceu:

Na Zona Sul do Rio de Janeiro, a antiga sede do Orfanato Romão Duarte — de onde saíram tantas crianças destinadas ao trabalho forçado e ao sofrimento — hoje abriga uma escola municipal. A ironia é dolorida: o mesmo Estado que falhou em proteger suas crianças no passado ainda falha no presente.

Crianças negras seguem sendo as primeiras a morrer.
Morrem antes de nascer.
Morrem no colo das mães.
Morrem sob o eufemismo cruel das “balas perdidas” — que quase sempre encontram corpos negros e pobres com precisão assustadora.

O espetáculo não termina quando as luzes se apagam. Ele continua reverberando no corpo de quem assiste. Porque não fala apenas do passado. Fala de agora. Fala de nós.

 

SERVIÇO:

Espetáculo “DESFAZENDA”

  • Local: Sesc Tijuca – Teatro II
  • Endereço: R. Barão de Mesquita, 539 — Tijuca, Rio de Janeiro (RJ)
  • Datas e horários: 26 de fevereiro a 22 de março de 2026 — Quintas a sábados, às 19h — Domingos, às 18h — Sessões de domingo com acessibilidade em Libras.
  • Tipo de espetáculo: Gratuito com ingresso / Pago
  • Preços: Gratuito (PCG) | R$15 meia-entrada | R$21 habilitado Sesc | R$27 convênio | R$30 inteira
  • Classificação indicativa: 14 anos

 

 

Paty Lopes (@arteriaingressos). Foto: Divulgação.

 

 

Author

Dramaturga, com textos contemplados em editais do governo do estado do Rio de Janeiro, Teatro Prudential e literatura no Sesi Firjan/RJ. Autora do texto Maria Bonita e a Peleja com o Sol apresentado na Funarj e Luz e Fogo, no edital da prefeitura para o projeto Paixão de Ler. Contemplada no edital de literatura Sesi Fiesp/Avenida Paulista, onde conta a História de Maria Felipa par Crianças em 2024. Curadora e idealizadora da Exposição Radio Negro em 2022 no MIS - Museu de Imagem e Som, duas passagens pelo Teatro Municipal do Rio de Janeiro, com montagem teatral e de dança. Contemplada com o projeto "A Menina Dança" para o público infantil para o SESC e Funarte (Retomada Cultural/2024). Formadora de plateia e incentivadora cultural da cidade.

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