Das fábulas infantis, o mundo animado de Hanna-Barbera

 Das fábulas infantis, o mundo animado de Hanna-Barbera

Por Jorge Ventura

Na época da “inocência”, tempo de minha infância, tínhamos uma boa desculpa para não irmos à escola nos dias chuvosos ou de bastante frio. Fingíamos acordar indispostos, com a garganta meio inflamada, com o corpo quase febril, e alegávamos uma possível gripe. Pronto! Era suficiente para a nossa mãe nos deixar no sofá da sala, enrolados em um cobertor de lã, assistindo aos desenhos animados e aos seriados da TV.

Elas preparavam um Nescau bem quentinho, o sanduíche de queijo e presunto, e nos serviam como se fôssemos os reis da casa. Mas a mentirinha tinha de ser bem contada, porque, uma vez descobertos, a surra era certa!

Porém, o risco valia a pena. Entre uma mordida e outra no sanduíche e alguns goles do achocolatado, ficávamos vidrados nos desenhos de Hanna-Barbera. E para falar sobre esse mundo animado, é preciso destacar, pelo menos, três fases áureas de produção. A primeira fase, comentada especialmente neste artigo, relata o período de 1957 a 1965, a chamada Era Fabulosa, composta de fábulas infantis, cujos desenhos tinham como protagonistas personagens animais, que agiam como seres humanos, lembrando das fábulas de Esopo, cujo objetivo consistia em transmitir uma lição moral ou um ensinamento.

Carismáticos, dinâmicos, uns ingênuos, alguns valentes e espertos, outros nem tanto; alguns trapalhões, medrosos e covardes, outros nem tanto. Os personagens criados pelos estúdios de William Hanna e Joseph Barbera encantaram uma geração de crianças e adultos. Até os nossos pais se divertiam muito com as peraltices deles.

William Hanna (direita) e Joseph Barbera posando com alguns dos seus personagens, 1988. Douglas Pizac—AP/Shutterstock.com

A história desses dois magos da animação começou em 1937, quando se conheceram. Dois anos depois, passaram a trabalhar em parceria, como diretores da divisão de animação da poderosa Metro-Goldwyn-Mayer. Em 1940, chegaram a enviar desenhos e alguns projetos para Walt Disney, mas nunca obtiveram retorno. O primeiro desenho criado e desenvolvido pelos cartunistas norte-americanos William Hanna e Joseph Barbera foi Puss Gets Boot (Um bichano em maus lençóis,1940), dando origem à famosa série Tom e Jerry, sucesso nas matinês de cinema, aos domingos.

A empresa Hanna-Barbera – que muita gente no Brasil pensava que fosse o nome de uma mulher empresária do ramo de animação – foi fundada em 7 de julho de 1957, com o registro de H-B Enterprises. Somente a partir de 1959, foi rebatizada como Hanna-Barbera Productions. Nascia, então, a marca muito bem-sucedida de uma verdadeira e profícua fábrica de sonhos. Por cerca de 30 anos, foi a maior responsável pela alegria e pelo entretenimento da garotada. Notadamente, com a popularização da televisão, o selo Hanna-Barbera se tornou sinônimo de qualidade na categoria Desenho Animado. A galeria de personagens é extensa, mas, entre os que estão em nossa memória afetiva, podemos selecionar o Jambo & Ruivão, Dom Pixote, Plic e Ploc & Chuvisco, Lula Lelé, Coelho Ricochete e o seu ajudante Blau-Blau, Maguila, o Gorila; Peter Potamus e Tico Mico, a Tartaruga Touché e Dum Dum, Leão da Montanha, Lippy & Hardy, Manda-Chuva, O Xodó da Vovó, A Formiga Atômica, Esquilo sem grilo, Zé Colmeia, Bacamarte e Chumbinho, Bibo Pai e Bobi Filho, Wally Gator, Pepe Legal e ainda Matraca-Trica e Fofoquinha.

Todos adoráveis e divertidos, com seus bordões e expressões, os personagens da dupla genial Hanna-Barbera nunca saíram da nossa lembrança. Mesmo por meio de uma televisão brasileira com transmissão em preto e branco, imaginávamos as cores de cada cenário, figurino e tipo, e entrávamos naquele universo infantil e fantástico. Todas as vezes que comento os clássicos da TV, faço questão de destacar a relevância da dublagem, uma arte, às vezes, esquecida, mas que, de fato, faz a diferença no produto final. Procuro, portanto, sempre me referir, com respeito e admiração, ao trabalho primoroso da dublagem no Brasil. Grandes atores e atrizes, migrados do radioteatro, deram vida, também, a esses desenhos animados de Hanna-Barbera.

Entre tantas vozes conhecidas de astros que brilhavam nas telenovelas e programas de humor, podemos citar as de Lima Duarte (Manda-Chuva, Wally Gator e Leão da Montanha), Flávio Galvão (Maguila e Matraca-Trica), os irmãos Cazarré: Olney (Coelho Ricochete e Fofoquinha – muito conhecido, anos depois, pelo personagem João Bacurinho, o torcedor corintiano da Escolinha do Professor Raimundo) e Older (Sr. Peebles, Dom Pixote, Chumbinho e Zé Colmeia), Ary Toledo (Bla-Blau) e Luiz Orioni (Lippy).

Lima Duarte cedeu sua voz para vários personagens , entre eles o Manda Chuva

O(a) leitor(a) da minha geração há de concordar. As vozes desses personagens ajudaram a eternizá-los. Quando, por exemplo, o personagem ganhava a voz de outro dublador, isso provocava um estranhamento para nossos ouvidos. A voz era uma marca muito forte em nossa memória afetiva e, por isso, vivíamos imitando o nosso personagem favorito com os amiguinhos da rua ou os coleguinhas da escola.

A dubladora e diretora Maria Inês, a segunda voz da personagem Oreu, a menininha ruiva de trancinhas do desenho Maguila, o Gorila, costumava brincar, improvisando as falas, fazendo um trocadilho fonético com o nome Oreu e a interjeição Ora, eu! E por falar nesse clássico desenho, o nome Maguila acabou se tornando o apelido de um pugilista sergipano, na categoria peso-pesado, em razão de sua semelhança física – alto e corpulento – que fez história no boxe brasileiro: Adilson Rodrigues, o Maguila (falecido em 24 de outubro de 2024).

Oreu e Maguila, O Gorila

Em relação aos famosos bordões que transcenderam as gerações dos anos 1970 e 1980, alguns alcançaram o status de antológicos, como o canto-lamento do Dom Pixote: – Ó queriiida! Ó queriiida! Ó queriiida Clementina!; e as lamentações da hiena Hardy: – Ó vida, ó azar!

Que tal voltar um pouco mais nesse túnel do tempo? Confira os vídeos abaixo de algumas dessas animações!

 

 

Ah, tempos bons! Quem se lembra?

*  Todas as imagens (fotos e vídeos) respeitam os seus respectivos direitos autorais e são utilizados aqui apenas para efeito de pesquisa e resenha jornalística.

 

SOBRE JORGE VENTURA

Jorge Ventura é escritor, roteirista, editor, ator, jornalista e publicitário. Tem 13 livros publicados e participa de dezenas de coletâneas nacionais e estrangeiras. É presidente da APPERJ (Associação Profissional de Poetas no Estado do Rio de Janeiro), titular do Pen Clube do Brasil, membro da UBE – RJ (União Brasileira de Escritores) e um dos integrantes do grupo Poesia Simplesmente. Recebeu diversos prêmios, nacionais e internacionais, como autor e intérprete. Tem poemas vertidos para os idiomas inglês, francês, espanhol, italiano e grego. É também sócio-proprietário da Ventura Editora, CQI Editora e da Editora Iniciatta. Jorge é colunista do ArteCult, responsável pelo AC RETRÔ.
E, agora vocês já sabem… Uma das maiores referências no Brasil sobre o universo Batman.

Instagram @jorgeventura4758

SOBRE O AC RETRÔ

Prepare-se para embarcar em uma viagem no tempo! O AC RETRÔ é um espaço dedicado à nostalgia, à memorabilia, ao colecionismo, relembrando também aquelas propagandas icônicas da TV, telenovelas, anúncios inesquecíveis das revistas e jornais, programas que marcaram época e filmes que nos transportam diretamente para tempos dourados! ️

Aqui, cada post será um convite para reviver memórias, despertar emoções e compartilhar as lembranças que moldaram gerações.

Se você sente saudade de jingles que não saíam da cabeça, comerciais que viraram clássicos, seriados que marcaram a infância ou até mesmo daquele filme que você alugava na videolocadora todo fim de semana, então o AC RETRÔ será o seu novo ponto de encontro. Afinal, recordar é mais do que viver: é reconectar-se com o que nos fez sorrir, sonhar e se emocionar. Fique ligado, porque essa viagem ao passado JÁ COMEÇOU! ✨

 

Author

Jorge Ventura é escritor, roteirista, editor, ator, jornalista e publicitário. Tem 13 livros publicados e participa de dezenas de coletâneas nacionais e estrangeiras. É presidente da APPERJ (Associação Profissional de Poetas no Estado do Rio de Janeiro), titular do Pen Clube do Brasil, membro da UBE – RJ (União Brasileira de Escritores) e um dos integrantes do grupo Poesia Simplesmente. Recebeu diversos prêmios, nacionais e internacionais, como autor e intérprete. Tem poemas vertidos para os idiomas inglês, francês, espanhol, italiano e grego. É também sócio-proprietário da Ventura Editora, CQI Editora e da Editora Iniciatta. Jorge é colunista do ArteCult, responsável pelo AC RETRÔ. E, agora vocês já sabem... Uma das maiores referências no Brasil sobre o universo Batman. Instagram @jorgeventura4758

3 comments

  • Delícia de coluna! Um mergulho nostálgico mas sempre com bom conteúdo informativo.
    Adoro essa coluna retrô!

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    • Minha querida Ana, sua leitura é um privilégio para mim. Nosso saudosismo faz despertar a criança que ainda existe em nós. Um beijo carinhoso.

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  • Minha querida Ana, sua leitura é um privilégio para mim. Nosso saudosismo faz despertar a criança que ainda existe em nós. Um beijo carinhoso.

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