Culturas, Identidades e Escolhas: um rasante nas existências humanas através de algumas de suas festas e tradições – parte 7  Culturas e festas culturais Não Latina: Canadá e Estados Unidos

Foto: Quebec Winter Carnival | Crédito: James Smith – UK Travel Blogger

 

Culturas, Identidades e Escolhas: um rasante nas existências humanas através de algumas de suas festas e tradições – parte 7

 Culturas e festas culturais Não Latina: Canadá e Estados Unidos

  

A vantagem de ser inteligente é que podemos fingir que somos imbecis. O contrário é impossível.

                                                                                                                                                              Heywood Allen ou, como é conhecido, Woody Allen                                                                                                                                                  Escritor, dramaturgo, ator, diretor e cineasta norte americano

 

Woody Allen é um gênio perspicaz da cinematografia mundial e não apenas norte americana. A frase em epígrafe segue uma linha de raciocínio de outros pensadores, como o filósofo, semiólogo e linguísta italiano Umberto Eco (1932-2016), que disse que as redes (in)sociais vieram para expor a quantidade de imbecis que existe por aí e como o jornalista, escritor e dramaturgo brasileiro Nelson Rodrigues (1921-1980), disse, os imbecis ainda irão dominar o mundo, não pela qualidade, mas pela quantidade. Dizendo de outro modo os ditos de Umberto Eco e de Nelson Rodrigues: há muita gente que, por má formação ou por má opção de vida, ou ambas as situações, classificamos como “imbecis”. Neste mundo da extrema direita fascista, que apela para este número, infelizmente, crescente de pessoas e é por este grupo mantido, é necessário que isolemos os que optam por alienação e reacionarismos vários e que, respeitando os que tiveram má formação, escolar e humana, que são a maioria, não nos achando, os privilegiados, super-humanos e superiores, mas parceiros de vida neste lindo planeta, contribuamos, com competência e carinho, para tornar mais claras, as situações de vida que levam às crises ambientais e às crueldades e injustiças sociais que presenciamos. E para além da conscientização, condição necessária, contudo, insuficiente, para a superação aqui pregada, a motivação para novas tomadas de posição é fundamental. Motivação vem, também, e muito, da sensibilização e isso está, em grande medida, relacionado com a formação cultural geral. Vejamos, então, algumas das contribuições para a sensibilização motivacional das culturas dos povos do Canadá e dos Estados Unidos.

 

Canadá

 O Canadá é o país mais ao extremo norte do continente americano, sendo o segundo maior território nacional e, junto com o Brasil, o país que mais possui água doce, embora a maior parte esteja congelada, por seu intenso clima frio. Outra característica marcante é que, tendo sido colonizado, simultaneamente, a partir do século XV, como fruto das chamadas “Grandes Navegações Européias”, por duas das maiores potenciais imperialistas da Era Moderna, a Inglaterra e a França, é um país com forte herança cultural desses dois países, tanto que a população canadense é, em sua grande parte, bilíngüe; isso, além de também ter sido objeto, não colonizado, mas ocupado, em parte e por um curto período de tempo, e até antes dos ingleses e dos franceses, pelos escandinavos Vikings. Por muito tempo, a economia canadense baseou-se no comércio da madeira, de peles de animais e do pescado. O que hoje conhecemos por Canadá teve uma história curiosa e um tanto peculiar, no sentido de ter tido, digamos assim, várias independências: a primeira foi em 1867 quando o Canadá foi alçado à categoria de domínio autônomo do império britânico; a segunda foi em 1931, quando o parlamento do Reino Unido reconheceu o Canadá como parte da Comunidade Britânica, através da assinatura do “Estatuto de Westminster” e a terceira ocorreu em 1982, quando o Canadá se tornou formalmente independente, separando-se da Grã-Bretanha. Vamos conhecer um pouco mais deste país americano não latino? O faremos, como é o mote desta sequência de artigos, pelo breve conhecimento de algumas de suas festas populares, como a Celebration of Light (em Vancouver, um festival de muita música e fogos de artifícios os mais variados), o Halifax Busker Festival (em Halifax, um festival de música, notadamente, o jazz) e o Canadian National Exhibition (em Toronto, 18 dias de musica, teatro, exposições e muitas outras atrações). Vejamos um pouco mais dos festejos canadenses.

1 – Thanksgiving Day ou Dia de Ação de Graças – comemorado no dia 14 de outubro, é também muito popular nos Estados Unidos, mas ao contrário deste, em que a festa é comemorada em família, no Canadá, há muitos eventos coletivos e ao ar livre, embora também haja a questão familiar, notadamente no tocante ao agradecimento, no campo, por belas colheitas.

Foto: rivetstays.com

2 – Quebec Winter Carnival – festa realizada do final de janeiro, para o início de fevereiro, na província do francesa do Quebec, considerada Patrimônio Mundial pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Ciência, a Educação e a Cultura), é o carnaval deles, que acontece no inverno, ao contrário do nosso, que é sempre no verão; é um festival grande, que dura 17 dias, com vários espetáculos, desfiles, shows pirotécnicos, esculturas no gelo e na neve, patinação, feiras gastronômicas, jogos e concursos, os mais variados, entre outros

Foto: onlybyland.com

3 – Canada Day – ocorre em todo país, quando os canadenses celebram, no dia 01 de julho, o que pode ser dito como a sua primeira independência, pelo Ato Constitucional de 1867, chamado “Ato da América do Norte Britânica”, com eventos bastante similares ao do Quebec Winter Carnival.

4 – Victoria Day – festa comemorativa do aniversário da Rainha Vitória (1819-1901), dia 24 de maio, que governou o reino por 63 anos (a  Era Vitoriana), posto que o Canadá, por quase toda sua história, pertenceu à Comunidade Britânica; lendas e histórias contadas, e podem ser vistos inúmeros eventos, desfiles, paradas, shows, concursos vários e há intensa queima de fogos de artifício.

5 – Festival Internacional de Jazz de Montreal – centenas de apresentações, de muitos gêneros musicais (rock, blues, reggae, música eletrônica etc., mas basicamente, do jazz, em suas várias vertentes que é realizado na cidade de Montreal, usualmente entre os dias 28 de junho e 8 de julho; atraindo muitos visitantes, desde os anos 1970 tem o título de maior evento de jazz do planeta, assim registrado no Guinness Book (o livro dos recordes mundiais).

6 – Edmonton International Fringe Theatre Festival – maior festival canadense dedicado às artes cênicas, realizado entre 11 e 21 de agosto, quando várias peças são encenadas simultaneamente, em teatros, mas também ao ar livre, na cidade de Edmonton, província de Alberta, compondo, ao contrário das comemorações anteriores, que são festivais de inverno, um festival de verão. Há, igualmente, muitos shows musicais, de ilusionismo e stand up comedies, dentre outros.

The Edmonton Fringe Festival – Feb/2025 | Tripadvisor

7 – Toronto International Film Festival (Tiff) – é o maior festival de cinema do Canadá, também se constituindo em um dos maiores do mundo, no setor, realizado no mês de outubro; além da exposição de filmes, há debates, eventos comemorativos aos filmes do passado, homenagens etc.

Foto: Tiff 2025 | playbackonline.ca

8 – Natal – evento comemorado em boa parte do mundo, notadamente, no mundo cristão e, em tudo, até na data, se assemelha ao nosso natal. A maior característica local é que há shows de luzes, parecido com o que temos no Brasil, mas em proporção, dizem um tanto maior. Toronto é, como Paris, tida como a “cidade das luzes”, com seus prédios, árvores, monumentos, entre outros símbolos que, enfeitados com uma iluminação especial, transformam-se em eventos à parte durante as celebrações natalinas.

9 – Edmonton Folk Music Festival – festival realizado durante 4 dias, no segundo final de semana de agosto, na cidade de Edmonton, Alberta; esta festa reúne artistas de vários gêneros musicais como o folk, o blues, gospel, música celta, bluegrass entre outros, além de comidas típicas da região.

10 – Hot Docs – é igualmente tido como um dos maiores festivais de filme, do estilo “documentário” não apenas do Canadá, como também do planeta, também promovendo debates e conferências sobre a área cinematográfica, incluindo produções independentes; ocorre entre o final de abril e o início de maio, com mostras de produções locais e estrangeiras. É um festival prévio tão importante que, normalmente, diz-se que quem participa do “Hot Docs” pode tornar-se candidato à constar na pré-lista/lista do Oscar.

 

Sítios consultados                                                                                                                                                           

 

Estados Unidos

O território dos Estados Unidos foi colonizado, tal como parte do Canadá, pelos ingleses, que inicialmente fundaram o que ficou conhecido como as “Treze Colônias” na costa Atlântica, antes da expansão para o Oeste, quando os colonos chegaram à costa Leste, através de um violento processo de colonização e extermínio interno contra os povos originários de lá. A independência norte americana foi declarada pelos colonos rebeldes no dia 04 de julho de 1776, no meio de grande conflito com as forças imperiais britânicas, que só estancou em 1783, quando o Reino Unido reconheceu a derrota e a independência do país que, desde então, adotou o nome pelo qual é até hoje conhecido, Estados Unidos da América. A expansão do território se deu, além da colonização interna antes mencionada, pela compra de novos territórios, como a Louisiana, da França, e a Califórnia, do México. O país, dividido entre o norte, já industrializado, e o Sul, mais agrário, divisão que, de certo modo, permanece até os dias atuais, entrou em Guerra Civil ou de Secessão, entre 1861 e 1865; com o Norte ganhando, a escravidão foi abolida e o país unificado sob a égide industrializante. O país entrou o século XX no estágio de potência emergente, mas só consolidou sua grande força, ainda presente no mundo, a partir da II Guerra Mundial, quando se ligou às potências europeias que combateram e venceram o nazi-fascismo, a muito custo; os Estados Unidos, com o Plano Marshall, financiaram a reconstrução da Europa Ocidental, o que reergueu esta região e a fez aliada na guerra contra o comunismo da ex-União Soviética, hoje extinta, período conhecido como Guerra Fria. O país também ficou conhecido pela questão racial e a luta pelos Direitos Civis, tendo à frente líderes como o reverendo Martin Luther King Jr. (1929-1968), que morreu assassinado enquanto pregava a paz. A influência norte americana, pelo mundo, é evidente e inegável, embora esteja em relativo declínio, como acontece com as potências, posta a dinâmica da própria História humana, e uma das forças deste país se deveu, ao longo do século XX, pela via cultural, como bem o demonstram a fama da música e de cinematografia norte americana.

1 – Independence Day ou Dia da Independência – comemorado em 04 de julho, é uma das datas festivas mais importantes para os norte-americanos, quando há muitas paradas cívicas, muitos fogos e eventos musicais, louvando o próprio patriotismo da população.

Independence Day parade – Washington D.C., United States on July 04, 2023 – www.aa.com.tr

2 – Thanksgiving ou Ação de Graças – festa também comemorada no Canadá, é comemorada na última quinta feira de novembro e é outra data muito popular nos Estados Unidos. Há festas de rua, embora menos do que no Canadá; majoritariamente, nos Estados Unidos, é uma festa familiar, quando se comem duas das maiores especiarias gastronômicas desse país, o peru assado e a torta de maçã.

3 – Desfile da Macy’s – é uma espécie de festa dentro da festa de Ação de Graças, basicamente, da cidade de Nova York, que acontece desde 1924 e é transmitido para todo o país. Balões gigantes, que representam personagens icônicos da cultura pop, flutuam pelos céus de Manhattan, enquanto bandas e artistas performam ao longo da rota.

4 – Halloween ou Dia das Bruxas – mais uma festa icônica e famosa dos Estados Unidos, e que é comemorada, também, em vários outros países, como o Brasil, realizada no dia 31 de outubro. As casas são decoradas com motivos fantasmagóricos sobrenaturais, muitas festas à fantasia são realizadas e acontece a tradicional peregrinação da garotada pedindo, nas casas, “gostosuras ou travessuras”. No Brasil, ao menos este pedido, guarda certa semelhança com a nossa data setembrina de Cosme e Damião. Em alguns lugares, notadamente, na cidade de Salem, no Estado de Massachusets, esta festa tem um ar histórico, por conta da associação com a, literal e real, caça às bruxas que por lá aconteceu, inspirando até um filme de sucesso.

Halloween USA | shutterstock

5 – Coachella Valley Music and Arts Festival – grande festival de gêneros musicais vários, tendo por cenário o deserto da Califórnia, realizado no mês de abril, na primavera.

6 – Burning Man – realizado por 9 dias, no deserto do Estado de Nevada, para onde acorrem muitos artistas das mais variadas formas de arte (teatro, tecelões, músicos etc.). Não há palcos, mas eventos ao ar livre; alguns dizem que são montadas “pequenas cidades” provisórias no meio do deserto que são desmontadas ao final do festival.

Foto: Burning Man | Crédito: NK Guy

 7 – New Orleans Jazz & Heritage Festival – festival musical tradicional da cidade de Nova Orleans, também no mês de abril, é focado no Jazz, mas também apresenta muito Blues e Rhythm and Blues (R&B) e que é uma variação do Blues, além de música Gospel (que é um tipo de música composto para expressar crenças cristãs, de várias denominações religiosas). Outra tradição é a gastronomia, com pratos típicos como a jambalaya semelhante à paella (espanhola), misturando arroz, carne (frango, linguiça e frutos do mar) com vegetais (os mais diversos) e po’boys (Poor Boys ou Garotos Pobres – sanduíche feito numa baguette de pão francês, que deve ser crocante, mas com miolo macio, de carne (em geral, rosbife), normalmente, ou peixe ou mariscos fritos, acompanhado de picles, alface e molhos picantes.

8 – Super Bowl – evento de encerramento do futebol americano, quando a liga deles, a NFL, organiza um megaevento, com muito mais do que esporte (shows musicais, comidas variadas etc.).

9 – US Open – realizado em agosto e em setembro, quando a cidade de Nova Iorque recebe o US Open, um dos 4 principais torneio de tênis do mundo, compondo o chamado Grand Slam (Grande Circuito), em quadras rápidas (grama dura; realizado em janeiro). Os outros torneios aqui citados são: Aberto da Austrália, realizado em Melbourne (em quadras rápidas), o Aberto da França (Roland Garros, no piso de saibro, realizado em maio e em junho) e o de Wimbledon (quadra rápida, realizado em junho e julho).

10 – Comic-Con International – é considerado um dos maiores eventos culturais da chamada “Cultura Pop” e “Cultura Geek” do mundo, do setor de quadrinhos, realizado em San Diego, também apresenta filmes, séries e videogames. As culturas aqui referidas são diferentes, porém, apresentam aspectos em comum: a Cultura Geek é específica dos quadrinhos, jogos de fantasia e ficção científica; A Cultura Pop é mais ampla, abarcando essas áreas e mais, por exemplo, música e cinema.

Foto: Daniel Knighton/Getty Images

11 – Sundance Film Festival – realizado em janeiro, é considerado o principal festival de cinema independente dos Estados Unidos.

 

Sítios consultados                                                                                                              

 

Bibliografia sugerida para consulta

  • CASCUDO, Luís da Câmara (1898-1986). Civilização e Cultura. São Paulo: Global Editora, 2004.
  • TURINO, Célio. Cultura a unir os povos – a Arte do Encontro. São Paulo: Instituto Olga Kos de Inclusão, 2018.

 

 

 

Carlos Fernando Galvão,
Geógrafo, Doutor em Ciências Sociais e Pós Doutor em Geografia Humana

Instagram: @cfgalvao54
profcfgalvao@gmail.com

 

 

 

 

 

Author

Carlos Fernando Gomes Galvão de Queirós é carioca, Bacharel e Licenciado em Geografia (UFF), Especialista em Gestão Escolar (UFJF), Mestre em Ciência da Informação (UFRJ/CNPq), Doutor em Ciências Sociais (UERJ) e Pós Doutor em Geografia Humana (UFF). Autor de mais de 160 artigos, entre textos científicos e jornalísticos, tendo escrito para periódicos como O Globo, Jornal do Brasil, Folha de São Paulo e Le Monde Diplomatique Brasil, também foi colaborador do Portal Acadêmico da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp) entre 2015 e 2018. Atualmente, escreve com alguma regularidade no Portal ArteCult. É autor, igualmente, de 14 livros.

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