Corpos em Revolta: O Underground na França e Alemanha (1970s–1980s)

 

A mostra acontece no Estação NET Rio, entre os dias 25 e 28 de fevereiro, com curadoria de Pedro Henrique Ferreira, professor de Cinema da PUC-Rio, redator da Revista Abismu e sócio-fundador da Dilúvio Produções.

Iniciativa do Goethe-Institut Rio de Janeiro e do Consulado da França no Rio apresenta filmes raros que confrontaram normas de gênero, sexualidade e poder no pós-68

 

Corpos que não cabiam na norma, desejos fora do roteiro social e um cinema feito à margem da indústria. É desse território estético e político que nasce a mostra Corpos em Revolta: O Underground na França e Alemanha (1970s–1980s), iniciativa do Goethe-Institut Rio de Janeiro e do Serviço de Cooperação e Ação Cultural do Consulado da França no Rio de Janeiro, no âmbito da cooperação franco-alemã Juntes na Cultura. A mostra acontece no Estação NET Rio, entre os dias 25 e 28 de fevereiro, com curadoria de Pedro Henrique Ferreira, professor de Cinema da PUC-Rio, redator da Revista Abismu e sócio-fundador da Dilúvio Produções.

A programação reúne oito filmes franceses e alemães realizados entre as décadas de 1970 e 1980 que emergem do universo underground, low-budget artístico e experimental, frutos da efervescência política do pós-1968, do circuito da contracultura e de formas alternativas de produção e exibição. São obras que colocam em cena corpos dissidentes, não-hegemônicos e marginalizados, que resistem às normatizações impostas pela sociedade de consumo e pelas estruturas morais, sociais e políticas da Europa do pós-guerra e da Guerra Fria.

Distantes da lógica comercial das grandes salas de cinema, esses filmes ajudaram a construir um contra-circuito cultural, artesanal e vanguardista, que questionava os próprios signos nacionais e os modelos dominantes de representação. A curadoria privilegia títulos menos canônicos, de realizadores que tangenciaram de forma periférica movimentos como a Nouvelle Vague e o Neuer Deutscher Film, chegaram tardiamente a eles ou seguiram trajetórias solitárias. As obras raramente exibidas em salas de cinema brasileiros dialogam de forma potente com debates do presente.

Amor, política e exaustão geracional no pós-68 francês

Entre os destaques está La maman et la putain (Jean Eustache, 1973), obra-chave do período pós-68 que revela o esgotamento político e emocional de uma geração a partir de um triângulo amoroso marcado por tensão, melancolia e provocação. Misturando observação documental, diálogos extensos e rigor formal, o filme expõe os atritos entre corpos, desejo, linguagem e papéis sociais, tornando-se um retrato raro das contraculturas que buscavam novas formas de expressão fora das estruturas estabelecidas.

Do contexto francês, a mostra também apresenta Corps à cœur (Paul Vecchiali, 1979), drama lírico e trágico sobre o amor improvável entre um jovem mecânico e uma farmacêutica mais velha, e Simone Barbès ou la vertu (Marie-Claude Treilhou, 1980), pequena pérola feminista que acompanha o cotidiano de uma mulher que trabalha em um cinema pornô e enfrenta o assédio constante de homens, revelando as engrenagens de gênero e poder no espaço urbano.

Exílio, queer e memória traumática na Alemanha e na França

A mostra inclui ainda Cidade dos Piratas (Raul Ruiz, 1983), uma das obras centrais do cineasta chileno radicado na França após o golpe de Pinochet. Com narrativa labiríntica, onírica e neo-barroca, o filme traduz a experiência fragmentária do exílio e da condição pós-moderna.

No eixo alemão, destaca-se In einem Jahr mit 13 Monden (Rainer Werner Fassbinder, 1978), retrato pungente de uma mulher trans que enfrenta uma trajetória marcada por dor e exclusão, enquanto o filme revela os mecanismos sociais que marginalizam corpos dissidentes. Tragédia íntima, crítica social e radicalidade estética se combinam em uma das obras mais marcantes do cinema alemão.

Freak Orlando (Ulrike Ottinger, 1981) mistura estética queer, teatro brechtiano, humor negro e crítica ao consumismo neoliberal ao acompanhar as múltiplas vidas de uma figura não-binária errante. Já Taxi zum Klo (Frank Ripploh, 1980) oferece um retrato transgressor e afável da comunidade gay na Alemanha do período, abordando solidão, voyeurismo e desejo em confronto com a sociedade normativa.

A memória do nazismo e seus fantasmas emergem de forma radical em Wundkanal (Thomas Harlan, 1984), documentário híbrido que encena o sequestro de um ex-soldado nazista por militantes radicais. Misturando realidade, ficção e autobiografia, o diretor confronta sua própria herança como filho de um cineasta oficial do regime, produzindo uma obra perturbadora sobre memória, culpa e esquecimento.

Corpos dissidentes ontem e hoje

Além das exibições, o evento promove o debate Corpos Dissidentes na Contracultura Pós-68: Pontes com o Presente, sábado, dia 28 de fevereiro, com convidades, que contextualizarão a produção do período e discutirão como as noções de dissidência corporal, gênero, sexualidade e resistência cultural continuam a reverberar no presente.

PROGRAMAÇÃO

  • Qua, 25/02
    18h40 – Wundkanal (1h47)
    20h45 – Corps à cœur (2h06)
  • Qui 26
    18h50 – La ville des pirates (1h51)
    21h – Taxi zum Klo (1h38)
  • Sex 27
    18h40 – Simone Barbès ou la vertu (1h17)
    20h15 – La maman et la putain (3h24)
  • Sáb 28
    16h50 – In einem Jahr mit 13 Monden (2h04)
    19h15 – Freak Orlando (2h06)
    21h30 – Debate “Corpos Dissidentes na Contracultura Pós-68: Pontes com o Presente”

 

SERVIÇO

Mostra: Corpos em Revolta: O Underground na França e Alemanha (1970s–1980s)

  • Local: Estação NET Rio
  • Endereço: R. Voluntários da Pátria, 35 – Botafogo, Rio de Janeiro
  • Data da mostra: De 25 a 28 de fevereiro
  • Ingressos: 17 Reais

Debate: Corpos Dissidentes na Contracultura Pós-68: Pontes com o Presente

  • Data e horário: 28 de fevereiro, às 21h30

SINOPSES DOS FILMES

Corps à cœur (1979)
Diretor: Paul Vecchiali
Nacionalidade: França
Sinopse: Pierrot, um jovem mecânico na periferia de Paris, apaixona-se perdidamente por uma mulher mais velha após um concerto de música clássica. Lutando contra o desprezo e os próprios sentimentos, ele a acompanha em uma jornada romântica na Provence ao descobrir que ela está morrendo.

 

La Ville des Pirates (1983)
Diretor: Raúl Ruiz
Nacionalidade: França / Portugal
Sinopse: Em um universo onírico e surreal, a protagonista Isidore vive experiências estranhas e encontros bizarramente poéticos — incluindo um menino psicopata e figuras enigmáticas — em um fluxo narrativo que mais evoca sonhos do que uma história linear convencional.

Simone Barbès ou la Vertu (1980)
Diretora: Marie-Claude Treilhou
Nacionalidade: França
Sinopse: Simone Barbès trabalha como cortadora de ingressos em um cinema adulto. Após o expediente, ela visita uma boate lésbica e, mais tarde, conhece um homem solitário e desesperado, levando-a a refletir sobre seus desejos e sua relação com o mundo ao seu redor.

La Maman et la Putain (1973)
Diretor: Jean Eustache
Nacionalidade: França
Sinopse: Em Paris, após o Maio de 68, o jovem Alexandre mantém uma relação aberta com Marie até conhecer Veronika, uma enfermeira. Os três acabam envolvidos em um complexo triângulo amoroso que explora conflitos de desejo, amor e dependência emocional entre eles.

In einem Jahr mit 13 Monden (1978)
Diretor: Rainer Werner Fassbinder
Nacionalidade: Alemanha
Sinopse: Elvira, uma mulher trans que passou por uma transformação por amor, tenta reconciliar seu passado com sua nova identidade depois de ser abandonada pelo parceiro. A narrativa acompanha sua busca por sentido e aceitação enquanto revisita antigos relacionamentos e lugares de sua vida.

Freak Orlando (1981)
Diretor: Ulrike Ottinger
Nacionalidade: Alemanha
Sinopse: O filme é uma série de episódios excêntricos e surrealistas em que o protagonista Orlando — assumindo várias identidades e gêneros — atravessa diferentes épocas e contextos em uma narrativa que mistura símbolos, mitos e metáforas sociais, inspirado livremente na obra Orlando: A Biography.

Taxi zum Klo (1981)
Direção: Frank Ripploh
Nacionalidade: Alemanha
Sinopse: Um professor gay em Berlim tenta conciliar um relacionamento afetivo com a compulsão por encontros sexuais e “cruising” em banheiros públicos, expondo o contraste entre sua vida pública e privada e registrando a cena gay de Berlim Ocidental no início dos anos 1980.

Wundkanal (1984)
Direção: Thomas Harlan
Nacionalidade: Alemanha / França
Sinopse: Um grupo de militantes armados sequestra um criminoso nazista e o submete a um processo contínuo de interrogatórios, confrontando-o com seus crimes até forçá-lo a articular algum tipo de confissão. O desfecho é uma morte violenta — suicídio ou assassinato. Considerado um dos filmes políticos mais radicais do cinema alemão do pós-guerra, a obra mistura referências à Fração do Exército Vermelho (RAF), aos julgamentos de Stammheim, ao passado nazista e aos mecanismos de negação e encenação histórica. O próprio ex-criminoso nazista Alfred Filbert aparece no filme.

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Redação do Portal ArteCult.com Expediente: de Seg a Sex - Horário Comercial. e-mail para Divulgação Artística: divulgacao@artecult.com. Fundador e Editor Geral: Rapha Gomide.

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