
O CARNAVAL 2026 E A LITERATURA
Todo Carnaval é, em sua essência, uma grande narrativa. Mas em 2026, a tradição festiva encontrou a ancestralidade literária de forma inédita: não se trata apenas de enredos inspirados em livros, mas de uma temporada em que literatura e festa se imbricam como partes de um mesmo gesto criador. Foi como se o Brasil, essa imensa biblioteca em movimento, resolvesse ler suas contradições, memórias e potenciais a partir de suas próprias palavras.
No coração dessa transformação está o reconhecimento de que o Carnaval não é apenas espetáculo visual, mas também espaço simbólico de interpretação. Onde antes o grito, a cor e a batida preenchiam a avenida, agora há também uma voz que pensa, que dialoga, que reflete. É o caso do Império Serrano, cuja escolha de homenagear Conceição Evaristo vai muito além de um tributo: transforma a avenida num grande poema coletivo. A “escrevivência” da escritora mineira, conceito que desloca as fronteiras entre experiência de vida e criação literária, será traduzida em alas, fantasias, metáforas e cores que celebram memória, ancestralidade, negritude e resistência. O desfile se torna, assim, um gesto épico de linguagem popular, uma narrativa em que cada componente ajuda a compor o significado maior da obra.

Imagem: Unidos da Tijuca
Não menos significativa é a homenagem da Unidos da Tijuca, que traz à Sapucaí o enredo de Carolina Maria de Jesus. Autora de Quarto de Despejo, livro que rompeu fronteiras ao narrar o cotidiano de uma mulher negra na periferia na década de 1960, Carolina é evocada como voz que pensa, denuncia e cria mundo. A Tijuca volta seu olhar para as palavras que nasceram da dureza da vida e que, paradoxalmente, trouxeram ao mundo uma forma inédita de humanidade literária. Nas cores, nas alegorias e no canto do samba-enredo, a literatura se inscreve como documento de experiência, de luta e de afirmação.
Ao mesmo tempo, a Mocidade Independente de Padre Miguel escolheu homenagear Rita Lee, cuja obra, embora musical, transita também na escrita autobiográfica e no sentido de autoimagem como criação. A ex-Tremendão aparece como figura literária de suas próprias narrativas, traduzindo em ritmo, humor, ironia e crítica social um painel de brasilidade que dialoga com as tensões e liberdades do nosso tempo. A festa, aqui, transforma a biografia na grande crônica carnavalesca de um país que ama reinventar-se.

Ney Matogrosso/ Foto @monteiro.gab
No desfile da Imperatriz Leopoldinense, a literatura se funde à performance do universo estético de Ney Matogrosso, artista cuja trajetória atravessou letras, interpretações poéticas e direções sensoriais que desafiam normas e molduram sensações. Ao celebrar Matogrosso, a escola propõe que a literatura não vive apenas em frases e páginas, mas em modos de estar no mundo, em visões elaboradas, em gestos expressivos.

Logo do enredo da Milênio para 2026
Na capital paulista, o enredo da Vai-Vai, uma das mais tradicionais escolas de São Paulo, traz à avenida a homenagem a Paulo César Pinheiro, poeta e compositor cujo legado atravessa canção e versos. A obra de Pinheiro, que há décadas ocupa lugar central na cultura do samba, é reinterpretada como narrativa literária que embala lembranças, dissabores e conquistas coletivas. É uma tradução da cidade em palavra, ritmo e canto.
Esse movimento do Carnaval brasileiro de 2026 representa uma reconfiguração da festa como literatura viva, não apenas como referência, mas como expressão profunda de sentido. O samba-enredo, que já é por natureza um gênero híbrido (poesia, história, crítica, música e performance), encontra agora nos autores e autoras homenageados uma razão de ser mais ampla: afirmar que a literatura mora nas ruas, nos corações, nas vozes populares e nos gestos comunitários.
E há um aspecto político nessa convergência que não pode ser ignorado. Em tempos em que se questiona a importância da leitura, em que livrarias enfrentam dificuldades econômicas e a cultura letrada é constantemente desvalorizada, o Carnaval coloca a literatura na vitrine maior, não como discurso acadêmico, mas como experiência coletiva. Ao transformar escolas de samba em tributos vivos à palavra escrita, o Carnaval de 2026 ensina que pensar é também cantar, que interpretar é também sambar, e que a festa popular é, no fim das contas, uma grande biblioteca que se move e pulsa.
A literatura, então, se faz festa; o Carnaval se faz leitura. Uma grande crônica brasileira que atravessa tempo, espaço, cor e voz. Em 2026, o Brasil leu suas próprias histórias na avenida, e o grito que ecoou não foi apenas de alegria, nem apenas de crítica: foi um convite aberto à reflexão sobre como narramos. E celebramos nossa própria existência.



CHRIS HERRMANN










