Desde os primórdios, o ser humano olha para o céu com fascínio. A astronomia busca compreender o universo por meio de observação, experimentação e leis naturais, tentando decifrar a vastidão do cosmos e os fenômenos que nele ocorrem. A ufologia, por sua vez, explora o desconhecido de forma especulativa, investigando relatos de objetos voadores não identificados e possíveis encontros com inteligências extraterrestres. Embora sigam caminhos distintos, tanto a astronomia quanto a ufologia refletem a mesma curiosidade humana: o desejo de entender nosso lugar no universo e de vislumbrar o que está além do visível.
A música encontrou nesses temas terreno fértil para narrativa, metáfora e crítica social. Artistas de diferentes estilos transformam a observação do céu, o mistério do inexplicável e o contato com o desconhecido em histórias que exploram medo, fascínio, isolamento, poder, fé e até interesses políticos ou comerciais. Mais do que apenas relatar avistamentos ou fenômenos, essas canções revelam como o desconhecido impacta a mente humana e a sociedade, mostrando que o contato extraterrestre ou a exploração espacial é também uma lente para refletir sobre cultura, valores e existência.
A seguir, confira algumas músicas que exploram essas dimensões do cosmos, do medo, da curiosidade humana e, em alguns casos, até histórias reais de encontros com o inexplicável.
Watcher in the Sky (Ghost)

Foto: Jéssica Marinho
Ghost também explora o tema de forma simbólica. Em “Watcher in the Sky”, do álbum Impera (2022), a banda apresenta a figura de um observador que vigia a humanidade de cima, uma referência direta às narrativas de seres extraterrestres que acompanham ou influenciam nossa evolução. A música não descreve um caso específico, mas utiliza a estética ufológica para falar sobre vigilância, destino e poder, reforçando a ideia de que talvez nunca tenhamos estado sozinhos.
A expressão “for a better place” ecoa tanto a esperança humana por um futuro fora da Terra quanto a promessa religiosa de um paraíso. Astronautas e cristãos olham para o mesmo céu, movidos por desejos diferentes, mas compartilhando o mesmo gesto: buscar algo acima de nós. Ghost explora essa interseção, onde a viagem interplanetária e a transcendência espiritual se misturam, sugerindo que a fronteira entre fé e cosmos pode ser mais fina do que imaginamos.
Essa ambiguidade entre o divino e o extraterrestre é um tema clássico da ufologia moderna, popularizado por Erich von Däniken em Eram os Deuses Astronautas?, onde se propõe que figuras interpretadas como deuses poderiam, na verdade, ser inteligências vindas de outros mundos. Tobias Forge trabalha exatamente nesse limite: em “Watcher in the Sky”, o observador pode ser Deus, mas também pode ser algo que apenas ocupa esse lugar de autoridade distante. O sagrado e o alienígena se sobrepõem, sugerindo que aquilo que chamamos de transcendência talvez seja apenas uma presença silenciosa nos observando lá do alto.
O.S 1977 (Válvera)

Foto: Leonardo Benaci
O Valvera traz a ufologia brasileira para o centro da música pesada com a faixa “O.S. 1977”, do álbum Cycle of Disaster (2020). A canção é inspirada na Operação Prato, investigação da Força Aérea Brasileira ocorrida no Pará entre 1977 e 1978, quando moradores de Colares relataram ataques de luzes vindas do céu, deixando queimaduras e perda de sangue, no caso que ficou conhecido como “Chupa-Chupa”. A letra traduz o medo e a incredulidade das testemunhas: “I wouldn’t believe it if my eyes hadn’t seen / Something shook my faith”. Em vez de representar extraterrestres como figuras sábias ou pacíficas, o Valvera retrata a experiência como terror direto: “Out of the skies came our annihilation”.
Com riffs agressivos e atmosfera tensa, a música transforma um episódio real da história ufológica brasileira em um retrato sonoro de pânico, silêncio e mistério, mostrando como a ufologia no Brasil também é marcada por trauma e não apenas por fantasia. A frase que se destaca resume essa visão dura e sem consolo: “Life is merciless in the universe.”
“Sou fascinado por ufologia desde pequeno, é um tema que sempre mexeu muito com a minha mente.
Já tive algumas experiências em que vi objetos voadores não identificados (OVNIs), e isso despertou ainda mais minha curiosidade. Passei a pesquisar profundamente sobre o assunto, desde os relatos da Operação Prato até o famoso caso do ET de Varginha.
Essa paixão acabou influenciando naturalmente o Válvera. Já havíamos explorado o tema em ‘The Skies Are Falling’, do álbum Back to Hell (2017), mas em ‘O.S. 1977’ mergulhamos de forma mais específica e direta na Operação Prato, um dos casos ufológicos mais intrigantes do Brasil.”, comenta Glauber Barreto, guitarrista e fundador do Válvera.
“It Came Out Of The Sky” ( Creedence Clearwater Revival )

Foto: Divulgação
A música narra o episódio de um objeto não identificado que cai em uma pequena cidade americana, em Moline. A reação inicial do protagonista, Jody, é puro choque e medo: “fell out of his tractor / couldn’t b’lieve what he seen”. A letra coloca o ouvinte na perspectiva do cidadão comum diante do extraordinário, destacando o impacto pessoal do contato com o desconhecido e o fascínio e pânico que ele desperta.
À medida que a notícia se espalha, diferentes setores da sociedade reinterpretam o fenômeno para seus próprios interesses: cientistas tentam racionalizar, políticos veem oportunidades de controle, a Igreja transforma o evento em sinal divino, e Hollywood cria entretenimento. Essa diversidade de respostas transforma o objeto alienígena em campo de disputa simbólica, cultural e midiática, enquanto Jody, o cidadão comum, surge como protagonista e mercador do fenômeno. A música funciona como uma crítica irônica à maneira humana de lidar com o inexplicável, lembrando que nossas reações ao desconhecido dizem mais sobre nós do que sobre os alienígenas.
The Sky Is a Neighborhood ( Foo Fighters)

Foto: Elizabeth Miranda
A faixa surgiu após Dave Grohl assistir a debates sobre astronomia e possibilidade de vida no universo apresentados por Carl Sagan e Neil deGrasse Tyson, que defendem a ideia de que o cosmos é um espaço em constante atividade, e não um vazio silencioso. Na música, o “céu” é tratado como um ambiente habitado, um “bairro” onde poderiam existir outros seres, consciências ou formas de vida ainda desconhecidas. Essa imagem dialoga diretamente com os relatos de Elizabeth Klarer, pesquisadora e figura marcante na ufologia sul-africana, que descrevia as naves extraterrestres que teria visitado como verdadeiras comunidades organizadas, onde os alienígenas viviam em harmonia, tal qual um bairro suspenso no espaço.
Assim como nos relatos de Klarer, a canção não se sustenta na prova literal da vida extraterrestre, mas na reflexão sobre o que essa possibilidade desperta no imaginário humano. A metáfora proposta pela faixa sugere uma reconsideração sobre responsabilidade e coexistência: se não estamos sozinhos, nossas ações e escolhas ganham outra dimensão. A presença do desconhecido funciona como um convite à revisão de valores, comportamentos e formas de convivência, seja neste planeta ou além dele.
1000 Nights e Crimson Star (Espectro)

Foto: Divulgação
Enquanto outras faixas lidam com observação, contato ou especulação social, “1000 Nights” e “Crimson Star” contam uma história em dois atos do encontro humano com o desconhecido. Em 1000 Nights, o protagonista abandona uma Terra condenada e se lança ao espaço em busca de sobrevivência e transcendência, impulsionado pelo medo, fascínio e até orgulho heroico: “Turn on the engine and ride out / Cuz it’s getting late / The time is running out / The Earth’s about to end” e “I want to see what’s on the other side”. Já em Crimson Star, a euforia da fuga dá lugar à solidão absoluta e ao confronto com o cosmos indiferente, e o narrador busca um astro vermelho que pode salvá-lo ou consumi-lo: “Crimson Star, save me from this void / Don’t let me fade away into the unknown”. Segundo o autor das letras, trata-se de uma viagem solitária através do cosmos misterioso e aterrorizante, sem chance de voltar pra trás.
Nessa sequência, o espaço não é apenas cenário, mas personagem de terror cósmico, refletindo a vastidão indiferente que provoca medo existencial. A “Crimson Star” atua como símbolo astrológico e metafísico, ponto de referência, guia e desconhecido absoluto, onde fé, esperança e terror se misturam. Diferente de narrativas de vigilância ou contato, as músicas exploram como a experiência do desconhecido afeta a mente e os sentimentos do protagonista, mostrando solidão, medo existencial e questionamentos sobre identidade e destino. O contato com o alienígena ou com o cosmos funciona tanto como salvação quanto como sentença, e revela mais sobre a consciência humana do que sobre o próprio extraterrestre.
Desde pequeno, sou fascinado por astronomia, ufologia e música. Foi dessa combinação que surgiu a ideia de unir essas paixões em uma única matéria, destacando bandas de amigos e faixas lado B que muita gente ainda não conhece. É uma forma de mostrar como ciência, mistério e criatividade se encontram no som, criando experiências que misturam curiosidade, imaginação e talento. Deixo também uma menção honrosa ao Canal Freak TV e a Edison Boaventura, profissionais que sempre acompanho e admiro pelo trabalho dedicado à pesquisa e à divulgação desses temas.
JEFF FERREIRA










