Alguma decrepitude

Coluna de Márcio Calixto

 

 

Alguma decrepitude

 

De uns tempos para cá, toda vez que escovo meus dentes, de alguma forma machuco minha gengiva. Eu tenho cuspido sangue todas as vezes desde então. Dessa vez, em especial, a mistura da escovação com o sangue criou um mosaico.  Parecia levemente espiralado. Tinha um espectro bonito, trouxe-me certa leveza e senso de arte. Não queria exterminá-lo com a abertura da torneira. Parei a escovação. Boca ainda cheia. O movimento lento e gradual ampliava a beleza daquele mosaico funesto e sutil de sangue e pasta de dente. Aquilo me levou a uma reflexão: era a primeira vez que vi beleza em meu sangue. Sempre tive asco, um certo nojo, horror àquela víscera líquida. Ao longo da minha vida, não quis me inteirar de como meu corpo funcionava. Não era de meu desejo. Nunca quis ser médico, nem principalmente médico de mim.

Sim, era a dança de uma entranha. Eu percebi que ele não era só meu sangue, mas a exposição de minha velhice. Tinha muito mais do que a meia idade, vivera uma vida só, sem muitos amores e amigos. Todos foram peremptórios. Passei uma vida sem acidentes, não caí de bicicleta quando garoto ou sofri da perda do tampo do dedão jogando bola. Não a joguei. Fui um menino introvertido. Filho único, que deixou a mãe morrer sem conhecer netos. Também não tive filhos e os amores foram frágeis, de pouca diversão. Me incomodava.  Pedi alforria em quase todos. A mistura na pia ganhava um ar rosáceo. Passa a me parecer o reflexo final de um caleidoscópio de pouco brilho. Mas sua forma me draga. Era mais do que sangue ou velhice, era um pedaço de minha alma, desguarnecida, pedindo liberdade de meu corpo. Cuspo o resto, há mais sangue, bem mais denso e autocrático. Percebo como a minha gengiva e dentes estão feios, agredidos. Nunca me interessei muito pela evolução de minhas rugas. Era poucas, guarneciam pouco ou quase nada de minha óbvia velhice. Porém, meus dentes, minha gengiva e a força com que me saía o sangue deixavam em exata prontidão o quanto de minha decrepitude estava explícita.

Não era uma decrepitude simplista. Era alguma decrepitude. Deu-me certo orgulho dela. Estou tendo a sorte de vivê-la. Passei esse tempo todo lendo revistas em quadrinhos, ouvindo as músicas de sempre, repetindo filmes clássicos, porque não há nada de melhor do que eles e soube fumar bem meu cachimbo. O que mais pode querer um homem?

Ao longo da vida, conseguir dar algumas aulas. Uma matrícula na rede pública. Dá pena daquelas crianças, todas tão carentes de tudo. Inclusive de abraço. Passei uma vida evitando o contato físico com elas, por outras razões, porém queria poder abraçá-las e tirá-las da tormenta maniqueísta por que passam. É horrível. Olho com mais furor para tudo que está na pia, vi que meu sangue gotejava da minha boca e toda aquela sensação de boca limpa foi sendo substituída pelo tom ferroso em profusão. Era realmente minha alma se indo.

Passo a ouvir uma voz. Era bonita, eloquente, forte, profunda, de tom obtuso, grosso. Dizia meu nome. Senti uma mão na minha mão. “Hora de passear”. Saímos. Passei a andar sob o manto exótico e cadavérico do passado. Era eu com sonhos. Havia desejos naquele homem que era eu e que não era possível ser eu. Por mais que pudesse regressar ao passado, não podia regressar a mim. Homens distintos em paráfrases distintas de si mesmos. Vi um homem com alguma juventude, porém semimorto quase sempre. O que a voz queria me mostrar sobre mim mesmo?

Não consegui entender. A voz me aconselhava pelo menos regressar a um amor, aquele que havia sido meu maior amor, mas que nunca mais consegui viver sem, principalmente quando me deixou por outro homem. O amor de que mesmo eu me alforriei mentindo-me. Mesmo com as chaves dos grilhões, esse amor eu não podia deixar ir. O sangue que de mim escorre exige um desejo maior de vida, muito mais do que esse que eu ofereço em uma ferida boba inútil, que leva tudo a nos deixar à mostra, na solidão das falsas limpezas. O sangue que me observa de ausência de sangue, o sangue que não sou mais.

Desperto-me contendo o sangue que me escorre. Fecho a boca, abro a bica e limpo a pia. Passo apenas a borda da mão no que sobra no canto do meu lábio. Ele está ácido, volumoso, inchado e trêmulo. Parecia mordido pela ferocidade de um amor adolescente, que pulsa em descoberta do desejo. No entanto, não há mais ninguém aqui. Só eu, minha velhice e uma escova de dentes péssima, que sempre machuca a minha gengiva.

 

MÁRCIO CALIXTO
Professor e Escritor

Márcio Calixto. Foto: Divulgação.



Coluna de Márcio Calixto

Author

Professor e escritor. Lançou em 2013 seu primeiro romance, A Árvore que Chora Milagres, pela editora Multifoco. Participou do grupo literário Bagatelas, responsável por uma revolução na internet na primeira década do século XXI, e das oficinas literárias de Antônio Torres na UERJ, com quem aprendeu a arte de “rabiscar papel”. Criou junto com amigos da faculdade o Trema Literatura. Tem como prática cotidiana escrever uma página e ler dez. Pai de 3 filhos, convicto carioca suburbano bibliófilo residente em Jacarepaguá. Um subúrbio de samba, blues e Heavy Metal. Foi primeiro do desenho e agora é das palavras, com as quais gosta de pintar histórias.

2 comments

  • Li o autor Márcio Calixto. Levou-me em uma viagem através de suas ideias transformadas em texto suave, envolvente, discreto e claro. Fala de si, com significação de todos nós. Uma leitura muito agradável!

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