O primeiro super-herói japonês da TV a gente nunca esquece
Por Jorge Ventura
Muita gente da minha geração, na faixa dos 50 a 60 e poucos anos, deve concordar. O primeiro seriado de super-herói a fazer enorme sucesso na TV brasileira foi o Nacional Kid. Eu me lembro de uma brincadeira de criança que era dizer qual a diferença entre o Super-Homem (antigamente o nome do personagem era traduzido) e o Nacional Kid. A resposta vinha em forma gestual: o Super-Homem voa com os braços estendidos para frente, enquanto o Nacional Kid voa com os braços estendidos para os lados.
Outra brincadeira muito comum era imitar os incas venusianos, fazendo a saudação com as mãos cruzadas em xis na altura do peito: – Awica! (a pronúncia era “Auíca!”, e não “Ávica!”), um deslize da segunda dublagem feita para Home Video, nos anos 1990.
E detalhe: o diretor dessa dublagem foi Emerson Camargo, que conhecia o seriado desde a sua estreia no Brasil em 1964, quando se tornou a voz oficial do Nacional Kid.
Tenho na memória mais uma história afetiva. Minha primeira fantasia de Carnaval, feita pela minha mãe, foi a do super-herói japonês, tamanha a admiração que eu tinha pelo personagem. A fantasia, bem, ficou meio “psicodélica”, considerando o fato de que o seriado foi produzido em preto em branco e não havia referências sobre as verdadeiras cores do traje.
Tudo nesse seriado tokusatsu (de efeitos especiais) era, maravilhosamente, tosco. Por isso, maravilhosamente, encantador! A começar pela canção do tema de abertura que cantarolávamos o refrão de cor e salteado sem entendermos uma só palavra do idioma japonês: Hey! Sono na wa kiddo! Hey! Nashonaru kiiiiddoooo!
Ele trajava uma roupa espacial e usava capacete semelhante a um cocar com um penduricalho. Usava máscara, luvas, botas, uma capa repartida em duas partes (para facilitar o voo de braços abertos) com uma letra “N” estampada na altura do peito. Tinha também dois coldres para guardar duas pistolas que emitiam um raio poderoso chamado Eroruya (o efeito luminoso lembrava as antigas lanterninhas de cinema). A coreografia desengonçada dos golpes de artes marciais marcava as lutas corporais com os inimigos, e chegava a ser hilária em algumas cenas.
Contudo, em nossa santa inocência, nunca poderíamos imaginar que Nacional Kid era, na verdade, um garoto-propaganda da marca National Eletronics Inc.,atualmente, Panasonic. Lançado em 1960, ele foi criado, exclusivamente, para divulgar e ampliar as vendas dos produtos referentes. Algumas curiosidades: na abertura desse seriado pioneiro em merchandising na TV, o protagonista surge voando em frente à torre de publicidade do prédio da Matsushita Eletric, detentora da National. Outra curiosidade, logo no primeiro episódio, um aparelho comunicador da marca National – que mais parece um radinho de pilha – é entregue por Nacional Kid às crianças para chamá-lo todas as vezes que estivessem em perigo. E no último episódio do arco Os Incas Venusianos, após a paz restabelecida na Terra e, principalmente, em Tóquio, o alter ego do super-herói, o professor Massao Hata presenteia as crianças do grupo Pequenos Agentes Secretos com diversos produtos da linha de eletrônicos da empresa patrocinadora.
O que talvez muitos não saibam é que sua maior popularidade (leia-se audiência) foi aqui. Nem na TV japonesa aconteceu tanto sucesso. “Nacional Kid” fez sua estreia no Brasil, em 5 de março de 1964, sendo transmitido pela TV Record, de São Paulo. Na telinha carioca, foi ao ar pela primeira vez em 8 de maio de 1964, sob os auspícios da patrocinadora Brinquedos Estrela. Na capital gaúcha, um anúncio publicado em 3 de agosto de 1965, na revista Cinelândia, pela TV Piratini (atual SBT), divulgava a nova atração na grade da emissora.
Apesar do forte investimento de merchandising da National, este seriado foi produzido com baixo orçamento. Grande parte do elenco era composto por atores amadores, e muitos foram reutilizados ao longo dos 39 episódios. Toda criança esperta da época notava, por exemplo, que o ator que interpretava o Dr, Kuroiwa (pronunciava-se Kuroíva), em O Império Subterrâneo, já havia participado de outros arcos atuando como personagens diferentes. A maquiagem dos vilões, sempre muito carregada, era malfeita, como no caso dos narigudos Zarrocos. Dava para notar, claramente, que os narizes eram postiços. Os discos voadores dos incas eram pendurados por cabos visíveis para quem fosse bom observador. Entretanto, as cenas de voo do Nacional Kid valiam a pena e convenciam a criançada. Não havia um menino ou menina que não quisesse, pelo menos um dia, voar nos braços do super-herói.
Um ponto que compensava a fragilidade dos roteiros assinados por Nagayoshi Akasaka e Takashi Tanii eram as trilhas incidentais que acentuavam com eficácia as cenas de ação, mistério e suspense. Muitas vezes, alguns vilões nos provocavam tanto medo, que nos tiravam noites de sono. Os seres abissais, então, eram horrendos! E o que dizer do gigantesco monstro Giabra emergindo do mar de Tóquio?
Contudo, a ousadia e o carisma dos detetives mirins se destacavam e nós nos identificávamos com eles, porque eram amigos e protegidos pelo Nacional Kid.
O seriado valorizava a dedicação dos cientistas (na figura do Dr. Mizuno, que passou, depois, a se chamar Dr. Nagano) e o trabalho da polícia (na figura do Inspetor Takakura). Já abordava, nos anos 1960, temas relativos à preservação da Natureza, à ganância do Homem pelo poder, e os perigos das guerras atômicas. As aventuras transmitiam uma mensagem de paz e prosperidade para o planeta Terra, davam um alerta sobre a poluição e o lixo radioativo despejado nos mares e faziam apelos de união entre os povos intergalácticos, numa alusão direta à corrida espacial disputada entre os EUA e a antiga URSS.
Composto por cinco arcos de histórias – na sequência de apresentação, Os Incas Venusianos, Os Seres Abissais, O Império Subterrâneo, O Mistério do Garoto Espacial e Os Zarrocos do Espaço), o seriado contou com a direção de Nagayoshi Akasaka e de Jun Kaoike. O nosso super-herói nascido na galáxia Andrômeda foi interpretado por dois atores: Ichiro Kojima (nos dois primeiros arcos) e Shiutaro Tatsumi (o substituto que atuou nos demais arcos, mas que já havia feito uma ponta em um episódio de Os Seres Abissais como um apresentador de TV. Particularmente, eu gostava mais de Ichiro como o Nacional Kid/professor Massao Hata.
No elenco mirim, alguns atores também foram substituídos, mas mantiveram o bom nível de desempenho dos anteriores. Os nomes dos personagens (pequenos detetives) eram Yukio, Kurazo (às vezes, chamado de Koshio), Kioko, Tomohiro e Gôro. Tiako era uma personagem adulta, responsável pelos órfãos e pela casa onde eles moravam. Outro personagem jovem que se juntou aos detetives, em alguns episódios, foi Tarô, o garoto que veio do espaço dirigindo uma nave oval. Eu diria que o conjunto da obra funcionou muito bem para a criançada inocente que amava “Nacional Kid”.

Elenco mirim de National Kid. Foto: Reprodução
Os episódios eram sempre eletrizantes e despertavam a imaginação. Cada arco era simbolizado por vilões assustadores. Os incas tinham um rosto muito branco e vestiam um traje de cor preta, com uma letra Z estampada no peito, além disso, usavam máscaras com chifres bem pontiagudos. Eram liderados por Aura, que contava com Kábia e Vímana como seus asseclas.
- Os Incas Venusianos
- Os Incas Venusianos
Os seres abissais não ficavam pra trás. Difícil dizer se eles eram mais horríveis vestidos com batas longas e capuzes pretos, iguais a carrascos, ou sem trajes, na versão peixes aterrorizantes. Comandados pelo sinistro Nelkon, o satã do Reino Abissal sempre surgia sentado num trono, feito uma assombração, e vestia-se como os abissais, porém sua roupa era na cor branca. Ele conduzia o submarino-mostro chamado Guilton, que, ao movimentar as barbatanas, agitava as ondas do mar.
Isso deu origem a uma frase citada em um dos episódios e acabou se transformando numa grande brincadeira que marcou o início dos anos 1970, período em que o seriado foi reprisado. A famosa frase “Celacanto provoca maremoto” foi pichada em diversos muros e paredes da cidade do Rio de Janeiro causando muitas polêmicas. Uns insinuavam que se tratava de uma mensagem codificada de crítica ao regime militar. Outros afirmavam que era uma senha para encontros de traficantes. Houve até quem acreditasse em mensagem emitida por extraterrestres. O autor das pichações, segundo fontes, foi Carlos Alberto Teixeira, que se inspirou no seu seriado favorito.

Já os Zarrocos eram seres de narizes finíssimos que comandavam o monstro Giabra. Fediam a lodo e usavam um disco voador escondido no fundo de um lago pantanoso. Giabra era o poderoso monstro sob o comando dos Zarrocos. Seus olhos são seu único ponto fraco.

Zarrocos do Espaço
“Nacional Kid” foi exibido pela primeira vez no Brasil, em 1964, pela TV Record, com dublagem feita pela AIC, de São Paulo. Depois, reprisado várias vezes nas emissoras TV Globo, TV Rio e TV Excelsior na década de 1970. Sua exibição chegou a ser interrompida pela Censura Federal a partir de um decreto que proibia programas televisivos de super-heróis voadores. Mas graças às boas relações dos empresários de TV com o regime vigente, tudo foi resolvido e o garoto-propaganda da National retornou à grade de programação, sendo reexibido, anos mais tarde, por demais emissoras (TV Tupi e TV Manchete).
Em 1993, o seriado televisivo ganhou nova dublagem e novo formato, sendo lançado em VHS pela Sato Company. Em 2002, foi relançado em DVD, ainda sob o selo da Sato Company. Em 2009, houve um relançamento em DVD, pelo selo da Focus Filmes. Esse box contém sete estojos de DVDs com episódios completos, porém faltando algumas cenas memoráveis, como a da criança paralítica, que é carregada nos braços de Nacional Kid para um rápido voo sobre Tóquio e, em seguida, é curada “milagrosamente” pelo super-herói, ao provocar a grande força de vontade do menino de querer andar. Uma lição inesquecível para ele. Esta cena ficou guardada na minha memória.
Ah, tempos bons! Quem se lembra?
*Todas as imagens (fotos e vídeos) respeitam os seus respectivos direitos autorais e são utilizados aqui apenas para efeito de pesquisa e resenha jornalística.

SOBRE JORGE VENTURA

Jorge Ventura é escritor, roteirista, editor, ator, jornalista e publicitário. Tem 13 livros publicados e participa de dezenas de coletâneas nacionais e estrangeiras. É presidente da APPERJ (Associação Profissional de Poetas no Estado do Rio de Janeiro), titular do Pen Clube do Brasil, membro da UBE – RJ (União Brasileira de Escritores) e um dos integrantes do grupo Poesia Simplesmente. Recebeu diversos prêmios, nacionais e internacionais, como autor e intérprete. Tem poemas vertidos para os idiomas inglês, francês, espanhol, italiano e grego. É também sócio-proprietário da Ventura Editora, CQI Editora e da Editora Iniciatta. Jorge é colunista do ArteCult e é responsável pelo AC RETRÔ.
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SOBRE O AC RETRÔ
Prepare-se para embarcar em uma viagem no tempo! O AC RETRÔ é um espaço dedicado à nostalgia, à memorabilia, ao colecionismo, relembrando também aquelas propagandas icônicas da TV, telenovelas, anúncios inesquecíveis das revistas e jornais, programas que marcaram época e filmes que nos transportam diretamente para tempos dourados! ️
Aqui, cada post será um convite para reviver memórias, despertar emoções e compartilhar as lembranças que moldaram gerações.
Se você sente saudade de jingles que não saíam da cabeça, comerciais que viraram clássicos, seriados que marcaram a infância ou até mesmo daquele filme que você alugava na videolocadora todo fim de semana, então o AC RETRÔ será o seu novo ponto de encontro. Afinal, recordar é mais do que viver: é reconectar-se com o que nos fez sorrir, sonhar e se emocionar. Fique ligado, porque essa viagem ao passado JÁ COMEÇOU! ✨


















Maravilha. De volta ao túnel do tempo. Nacional Kid o herói que agrafou todas as idades, gêneros, etc…. Addisitia com meus pais, Saudosas lembranças.
Ahhhh Jorge Ventura… você nos fazendo voltar ao tempo… Voltava da escola correndo para assistir… não tínhamos tv em casa e eu ia p a casa da vizinha, que era uma prima, assistia da janela … E dali já começava a imitar o super herói no quintal … havia uma disputa entre os primos para ver quem ia ser o Nacional Kid… também gostava de ser o vilão/ vilã kkkk … pegava um pano amarrava no pescoço ( tb servia p outros herois) , uma máscara genérica… e abria os braços parecendo voar … mas o melhor era “performatar” as lutas, sempre imitando as cruzadinhas dos braços, uns chutes no ar … como você bem lembrou!!!
Ahhh e depois, na sequência, tinha o Vigilante Rodoviário… né?? Já fica a dica para você nos brindar com seus textos lindos!
Jorge Ventura, querido amigo!
Que maravilha essa postagem sobre o grande super-herói da minha, da nossa infância, o nacional kid!
Confesso que mexeu com o meu imaginário infantil.
Como diz a letra da música cantada por Roberto Carlos, com menção a um programa desta mesma época (jovem guarda)” velhos tempos, belos dias “.
Gostei muito, por favor, mandar mais.
Um grande abraço!
Que interessante conhecer Nacional Kid, o super-herói que marcou uma geração! Incrível e curioso o efeito nostálgico que é causado até em quem não viveu a época. Amei, amei! Parabéns, Jorge Ventura!
Parabéns! Maravilhosas recordações teremos através de você. Todas, ótimas postagens e pesquisas. Leve-nos a viajar ao passado. Grata. Bjo