AC RETRÔ: O PASSADO EM REVISTA

 

 

O passado passado em revista

Por Jorge Ventura

 

 

Primeiramente, eu gostaria de registrar o meu contentamento por estar aqui estreando o segundo ano de publicações da coluna AC Retrô, pela ArteCult.com, a plataforma de comunicação que mais cresce nas mídias sociais. Agradeço, nesta oportunidade, a leitura e o prestígio de todos os seguidores que curtem o assunto tratado, e prometo trazer para o(a) leitor(a) uma gama de curiosidades da cultura pop e memórias de um tempo que marcou a geração dos anos 1960 a 1990.

Neste artigo, dirijo minha atenção a um período áureo do jornalismo brasileiro, em que, além dos jornais diários, as revistas semanais também tinham muita credibilidade, contando, para isso, com o apoio de outros meios de comunicação, como o rádio e a TV. Entre 1960 e 1970, no caso, a notícia e a informação eram ditadas por dois veículos concorrentes de grande visibilidade no âmbito nacional: as revistas O Cruzeiro e Manchete.

À parte a disputa do mercado editorial na publicação de semanários populares entre os Diários Associados, do empresário Assis Chateaubriand, e da Bloch Editores, do empresário Adolpho Bloch, o jornalismo impresso era regido por empresas e grupos de comunicação que dispunham de uma infraestrutura exemplar. Para bem cumprir sua função, tal gênero jornalístico era desenvolvido por uma equipe de repórteres, fotógrafos, redatores, revisores, chefes de reportagem e editores, sem contar os ilustres colaboradores, grandes articulistas e colunistas, nomes famosos que representavam diversas especialidades e editorias, desde artes, literatura, medicina (ciências em geral), esportes, gastronomia, moda, astrologia, economia e política.

Para quem não sabe, naquela fase áurea do jornalismo impresso, os leitores dessas revistas tinham o privilégio de ler, entre alguns literatos, Jorge Amado, José Cândido de Carvalho, Manuel Bandeira, Millôr Fernandes, Rachel de Queiroz, Graciliano Ramos, Austregésilo de Athayde, Érico Veríssimo, Humberto de Campos, e de se entreter com os mestres do traço, Péricles – e o seu famoso personagem O Amigo da Onça – e Ziraldo, que havia lançado Pererê, um dos seus personagens mais carismáticos.

A revista O Cruzeiro chegou a ser uma referência na imprensa brasileira por estabelecer uma nova linguagem, com publicações de reportagens impactantes, enfatizando o fotojornalismo. Nessa relação repórter-fotógrafo, podemos destacar a parceria profissional de David Nasser e Jean Manzon, responsáveis por matérias de significativa repercussão. A revista ilustrada também tinha um acordo com agências estrangeiras (Atlantic Photo Berlin e Consortium Paris) que disponibilizavam um acervo fotográfico de baixo custo para a empresa.

Porém, O Cruzeiro, fundada em 1928 e a principal revista ilustrada nacional da primeira metade do século XX, começou a entrar em crise por não conseguir combater a concorrência. O surgimento e a ascensão da revista Manchete obrigou a revista O Cruzeiro a findar sua circulação em meados de 1970, precisamente em 1975, ano de sua última edição oficial.

O slogan “Aconteceu, virou Manchete” posicionou a revista Manchete no mercado editorial de forma avassaladora. Isso sem comentar a chegada e a expansão de novos títulos da Bloch Editores e Editora Abril. A Manchete reunia colunistas de peso, como Carlos Drummond de Andrade e Fernando Sabino, e apresentava aos leitores uma excelente impressão colorida em papel especial, com fotos que “sangravam” (jargão para a imagem que ocupa toda a página de uma peça impressa), despertando a curiosidade dos leitores e atraindo mais anunciantes.

É claro que eu teria muito o que escrever em relação à variedade de revistas que faziam sucesso junto a cada segmento ou público-alvo e que surgiram, anos depois, como a Amiga e a Fatos & Fotos (Bloch Editores), especializadas na publicação de fotonovelas, com enredos de romance e histórias dramáticas, tendo participações de astros da música, do teatro e da TV como atores protagonistas. Esse gênero, entretanto, foi mais explorado nas revistas Capricho (Editora Abril) – conhecida como a primeira revista feminina brasileira –, a Contigo (nesse período, publicada pela Editora Abril) e Sétimo Céu (Bloch Editores). Semanalmente, traziam notícias da TV, do rádio, do show business e uma sessão de fofocas. Uma curiosidade: o famoso apresentador Silvio Santos e o ator, produtor e compositor Carlos Imperial também assinavam colunas sobre o mundo artístico.

Da Bloch Editores, outros títulos contribuíram para o jornalismo no Brasil, como a Geográfica Universal, a Pais & Filhos e a Desfile. Havia ainda a revista esportiva Placar (Editora Abril, hoje sob o selo da Score), e as revistas chamadas “masculinas”, como a Playboy (Editora Abril), Ele & Ela (Bloch Editores) e Status (Editora Três). Vale ressaltar que essas revistas não eram eróticas ou pornográficas, apesar do forte apelo sexual exposto nas capas. Muitas atrizes e modelos, consideradas sex symbols e no auge da carreira, alavancavam a venda, ocupando a capa e algumas páginas centrais dessas publicações. Quem não se lembra das famosas Rose di Primo, Sandra Brea, Sonia Braga, Vera Fischer e de muitas outras beldades da época?

É importante frisar que, em sua maioria, essas revistas, além dos ensaios sensuais ou de nu artístico, abordavam também cultura, comportamento, o mundo dos esportes – especialmente o futebol e o automobilismo, que, naqueles anos, eram as modalidades esportivas que despertavam interesse maior do público masculino. E não faltava a crítica de costumes e política, feita por meio de tiras e charges de humor criadas por excelentes cartunistas, sem perder a qualidade editorial, que era de primeira grandeza.

Mas eu chamo a atenção para uma revista semanal, formatinho medindo cerca de 13,5cm x 18,5cm, criada e lançada pela Editora Abril, com circulação de 1963 a 1972: a Intervalo. Segundo pesquisadores, foi a primeira publicação brasileira especializada em televisão, focada nos bastidores, nas telenovelas, na programação televisiva, incluindo filmes, desenhos animados, seriados e programas musicais e de auditório.

Quem curtia TV, comprava a InTerValo (a logo era grafada assim no cabeçalho da capa, com as letras T e V em destaque em óbvia alusão ao conteúdo). O interesse era saber da programação, com detalhes de dias e horários da grade de cada emissora, tintim por tintim. O formato e a proposta da revista não passavam de uma versão brasileira da revistinha “TV Guide” norte-americana. As capas eram bastante chamativas, ilustrando uma celebridade de nível nacional ou internacional ou uma atração da TV: Roberto Carlos, Ronnie Von, Pelé, Sérgio Cardoso, Tarciso Meira, Glória Menezes, Adam West (o Batman da TV), Frank Sinatra, John Lennon, Martinha, Wanderléa, Topo Gigio, Brigitte Bardot foram alguns, entre astros e estrelas, que estamparam as capas. No entanto, a revistinha ficou caracterizada, com o passar dos anos, como um veículo de programas, telenovelas, entrevistas exclusivas e fofocas, mas muitas fofocas do métier artístico. Há quem diga, inclusive, que a notícia do namoro do cantor e compositor Chico Buarque de Holanda e a atriz Marieta Severo saiu, em primeira mão, na InTerValo. Será?

Atualmente, 99% desses títulos saíram de circulação, e alguns se transformaram em revistas on-line, como aconteceu com alguns jornais dirigidos. O(a) leitor(a) que viveu essa era de glamour do jornalismo impresso entende muito bem do que estou comentando aqui. Não fosse o trabalho de pesquisadores e colecionadores, essas revistas cairiam no total esquecimento. Fico contente por saber que, até hoje, são cobiçadas e encontradas em sebos por estudiosos de revistas vintage.

 

 

Ah, tempos bons! Quem se lembra?

 

*  Todas as imagens (fotos e vídeos) respeitam os seus respectivos direitos autorais e são utilizados aqui apenas para efeito de pesquisa e resenha jornalística.

 

SOBRE JORGE VENTURA

Jorge Ventura é escritor, roteirista, editor, ator, jornalista e publicitário. Tem 13 livros publicados e participa de dezenas de coletâneas nacionais e estrangeiras. É presidente da APPERJ (Associação Profissional de Poetas no Estado do Rio de Janeiro), titular do Pen Clube do Brasil, membro da UBE – RJ (União Brasileira de Escritores) e um dos integrantes do grupo Poesia Simplesmente. Recebeu diversos prêmios, nacionais e internacionais, como autor e intérprete. Tem poemas vertidos para os idiomas inglês, francês, espanhol, italiano e grego. É também sócio-proprietário da Ventura Editora, CQI Editora e da Editora Iniciatta. Jorge é colunista do ArteCult, responsável pelo AC RETRÔ.
E, agora vocês já sabem… Uma das maiores referências no Brasil sobre o universo Batman.

Instagram @jorgeventura4758

SOBRE O AC RETRÔ

Prepare-se para embarcar em uma viagem no tempo! O AC RETRÔ é um espaço dedicado à nostalgia, à memorabilia, ao colecionismo, relembrando também aquelas propagandas icônicas da TV, telenovelas, anúncios inesquecíveis das revistas e jornais, programas que marcaram época e filmes que nos transportam diretamente para tempos dourados! ️

Aqui, cada post será um convite para reviver memórias, despertar emoções e compartilhar as lembranças que moldaram gerações.

Se você sente saudade de jingles que não saíam da cabeça, comerciais que viraram clássicos, seriados que marcaram a infância ou até mesmo daquele filme que você alugava na videolocadora todo fim de semana, então o AC RETRÔ será o seu novo ponto de encontro. Afinal, recordar é mais do que viver: é reconectar-se com o que nos fez sorrir, sonhar e se emocionar. Fique ligado, porque essa viagem ao passado JÁ COMEÇOU! ✨

 

Author

Jorge Ventura é escritor, roteirista, editor, ator, jornalista e publicitário. Tem 13 livros publicados e participa de dezenas de coletâneas nacionais e estrangeiras. É presidente da APPERJ (Associação Profissional de Poetas no Estado do Rio de Janeiro), titular do Pen Clube do Brasil, membro da UBE – RJ (União Brasileira de Escritores) e um dos integrantes do grupo Poesia Simplesmente. Recebeu diversos prêmios, nacionais e internacionais, como autor e intérprete. Tem poemas vertidos para os idiomas inglês, francês, espanhol, italiano e grego. É também sócio-proprietário da Ventura Editora, CQI Editora e da Editora Iniciatta. Jorge é colunista do ArteCult, responsável pelo AC RETRÔ. E, agora vocês já sabem... Uma das maiores referências no Brasil sobre o universo Batman. Instagram @jorgeventura4758

6 comments

    • Tanussi, querido, muito obrigado pela leitura e prestígio! Seu comentário sempre me motiva, amigo. Beijos!

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  • Nasci na década de 70, creio poder concluir que faço parte da geração Millennials, visto que os anos 80 e 90 ajudaram a definir muito dos meus gostos pessoais. Ainda não estávamos inseridos nas tecnologias atuais. Aliás, há uma pesquisa que concluiu que, pela primeira vez, uma geração não avançou cognivamente em ralação ao que acontecia nas gerações passadas, ou seja, a geração Z está mais ignorante; não lê e não se interessa pela cultura, está mais retraída e acostumada às telas e informações prontas…
    Muito obrigado, Jorge Ventura, por essa nostalgia linda…

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    • Meu querido Amalri, eu lhe agradeço pela leitura e prestígio! É muito bom quando desenvolvemos um tema que desperte interesse e, ao mesmo tempo, nostalgia no leitor. Valeu!

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  • Como sempre, Jorge Ventura nos brinda com seus textos magníficos! Nossa… Como eu via (mais do que lia) aquelas revistas! Na casa da minha avó materna compravam todas elas! Era um divertimento!.

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  • Coisa boa, Jorge.
    Nessa época , eu não podia comprar todas as revistas, mas tinha um primo mais velho que comprava . Seu texto, Jorge me trouxe de volta um tempo em que as notícias, as fofocas, momentos inesquecíveis, eram gostosos de “saborear”. Viva o passado! Recordar, sim é viver! Obrigada!!

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