AC RETRÔ : Comédias tamanho família daqueles anos que não voltam mais

Comédias tamanho família daqueles anos que não voltam mais

Por Jorge Ventura

Nos anos 1960 e 1970, as séries de família invadiam as telinhas brasileiras, e muitas comédias de situação (sitcoms) faziam sucesso, como Papai Sabe Tudo, A Família Buscapé e Mister ED – o cavalo palomino falante – que meu pai e minha mãe curtiam! Mister Ed, uma produção da Filmways, foi transmitida, inicialmente, pela TV Bandeirantes, em 1967, e, em seguida, pela TV Record, entre 1969 e 1970, passando a ser exibida na TV Tupi a partir de 1970. A série, que narra a história de um cavalo que conversa com o seu dono Wilbur Post, ficou famosa lá nos EUA e também aqui, por ter sido veiculada em diversas emissoras até sua exibição final, transformando-se num clássico.

E das comédias de família que marcaram uma geração cheia de graça, havia duas séries de relevante sucesso na TV: A Família Addams (The Addams Family) e Os Monstros (The Munsters, um jogo fonético do título original para The Monsters). Embora houvesse similaridades nos tipos e personagens apresentados, os enredos eram diferentes. A Família Adams, oriunda dos cartoons criados por Charles Addams e, posteriormente, adaptada para diversas mídias, como séries e animações de TV, além de filmes (novas franquias a partir da década de 1990), é composta por membros góticos e excêntricos, que tomam chá de aranhas e sopas de morcegos, e são fascinados pelo grotesco. Eles se divertem com tudo o que é sobrenatural. Na verdade, formam uma família bizarra que satiriza os valores e a estética da família norte-americana tradicional, com personagens macabros e humor ácido. No fundo, no fundo, são todos encantadores: Gomez, Mortícia, Feioso, Tio Chico (na primeira dublagem brasileira, chamado de Tio Funéreo. Uma curiosidade: o primeiro ator a interpretar o personagem foi Jackie Coogan, o garotinho do filme O Garoto, com Charles Chaplin.), Vovó Adams, Coisa, Tropeço, Mãozinha e Wandinha – esta última, há poucos anos, ganhou até uma série especial, da Netflix. Aliás, sobre a primeira dublagem brasileira, realizada em 1964, nos estúdios da extinta Dublasom Guanabara, vale a pena registrar que outros nomes também foram rebatizados, tais como Covas (Gomez), Mortiça (Mortícia) e Lacraio (no original, Lurch, mas, em outras versões brasileiras, Tropeço). Foi exibida, pela primeira vez, no Brasil, pela TV Rio e suas afiliadas, aos domingos, às 21h, a partir de 1º de agosto de 1964.

 

Elenco de “A Familia Addams” – 1964

 

Fazendo jus à expressão que eu sempre costumo usar, na esteira das curiosidades, alguns astros de A Família Addams participaram depois de outras séries famosas, como convidados especiais: John Astin (Gomez) interpretou o Charada, no lugar de Frank Gorshin, nos episódios “O aniversário de Batman” e “O desafio do Charada” em Batman (1967); Carolyn Jones (Mortícia) interpretou a vilã Marsha/Márcia, a Rainha dos Diamantes, nos episódios “Márcia, paraíso do amor” e “Chega de diamantes” (1966), “Pinguim, o melhor amigo da mulher”, “A encenação de Pinguim” e “Desastroso final do Pinguim” (1967), outros episódios da série Batman; e Ted Cassidy (Lurch/Tropeço/ Lacraio), que interpretou Sasquatch/Pé Grande, substituindo André the Giant, no episódio “O Retorno do Pé Grande” – Parte 1, na série O Homem de Seis Milhões de Dólares (1976) e no episódio “O Retorno do Pé Grande” – Parte 2, na série A Mulher Biônica. Ted Cassidy também fez uma rápida aparição na série Batman, caracterizado de Tropeço, no episódio 61, “O ninho do Pinguim”, como o cidadão da janela.

No cinema, as versões de 1991 e de 1993 contaram, no elenco, com astros da grandeza de Raul Julia (Gomez), Anjelica Huston (que foi indicada ao Globo de Ouro por sua performance como Mortícia), Christopher Lloyd (Fester/Tio Chico) e Christina Ricci (Wandinha). A personagem Wandinha, por sua vez, ganhou da Netflix uma série com o seu nome – em sua segunda temporada e com previsão da terceira ser exibida – e vem agradando aos fãs. Nesta produção veiculada no Brasil (2022-2025), Jenna Ortega é Wandinha, e Catherine Zeta-Jones, Mortícia.

No entanto, retornando aos anos 1960, eu me lembro que meu querido e saudoso pai não era tão fã de A Família Addams quanto era de Os Monstros. Isso, de certa forma, acabou me influenciando. Só fui “entender melhor” e gostar dos Addams quando já estava quase adulto. Meu pai e eu amávamos assistir a Os Monstros. Uma família composta por membros esquisitos, que eram uma clara referência aos clássicos do horror da literatura, adaptados para o cinema. Senão, vejamos: Herman (Frankenstein), Lily (vampira), Vovô (o próprio Conde Drácula), o menino Eddie (lobisomem). A única que fugia ao padrão assombroso dessa família era a sobrinha Marilyn (de aparência humana, bela e loira, cujo nome, provavelmente, fazia uma homenagem a mais famosa loira de Hollywood, Marilyn Monroe). A série era mais uma paródia, entre tantas produzidas para a TV, da família norte-americana tradicional, em que monstros se passavam por pessoas comuns e, por incrível que pareça, a “normal” sobrinha era considerada a “estranha” entre eles. Toda vez que ela investia em um possível namorado, nada se concretizava, pois ele escapava ao conhecer os membros monstruosos da família. Para os tios, Marylin não arranjava um namorado por falta de beleza e encanto. O primeiro elenco ficou no ar de 24 de setembro de 1964 até 12 de maio de 1966 (somando 70 episódios), sendo transmitido pela emissora CBS. Nas telinhas brasileiras, estreou, alguns anos depois, na TV Globo, fazendo parte da programação até 1969. Em 1970, foi exibida pela TV Record até 1974. Após um longo recesso, em 1989, foi para o SBT. Em 1991, voltou para a Record e, em 1992, foi a vez da TV Bandeirantes. Em 2005, as cópias estavam deterioradas em imagem e som. Por esse motivo, a série precisou ser redublada e remasterizada para exibição no canal a cabo Nickelodeon.

Assim como A Família Addams, Os Monstros foi produzida, originalmente, em preto e branco e contou com astros como Fred Gwynne, Yvonne De Carlo, Al Lewis, Beverley Owen (como Marilyn até o episódio 13), Pat Priest (como Marilyn, do episódio 14 ao 70) e Butch Patrick. No auge de sua transmissão, recebeu adaptações para o teatro e histórias em quadrinhos. George Barris, considerado o rei das customizações de veículos, havia criado o carro de passeio Munster Koach – um misto de Ford T modificado com a frente de um carro funerário – , enquanto o engenheiro Richard “Korky” Korkes e o supervisor Tom Daniel, ambos funcionários da Barris Kustom Industries, projetaram o Drag-U-La, o carro de corrida, no formato de um caixão, para o Vovô Monstro. George Barris ficou super conhecido no meio televisivo por ter planejado o lendário batmóvel do Batman, de Adam West.

 

Elenco de “Os Monstros” em 1964.

 

Em 1966, infelizmente, a tentativa de reerguer a audiência dessa série, que dava sinais de declínio, foi em vão. Os produtores lançaram, naquele ano, Munster, Go Home! (Monstros à solta!), em cores, no cinema, com o elenco principal e, contudo, não obtiveram êxito. O ator Butch Patrick, que interpretou o pequeno lobisomem Eddie, alegou, em uma entrevista, que o sucesso da série Batman da TV, produzido pela Fox Television, foi responsável pelo fim de Os Monstros. “Todo mundo só queria saber do Morcego!” – frisou com alguma amargura. Anos após o encerramento da série, Butch criou uma marca em parceria com uma indústria de confecção para vender o boneco do seu personagem, que vinha com figurino e certificado de garantia autografado.

Décadas mais tarde, a série se tornou cult, ganhou um remake e novas mídias. Os Monstros passou a se chamar A Família Monstro e, por ironia do destino, a atriz Lee Meriwether – a Mulher-Gato do longa-metragem Batman de 66 – encarnou a Lily, na versão de 1988. E o que ficou na minha memória foi o dragão que ficava escondido debaixo da imensa escada da sala, que dava acesso aos cômodos do segundo andar do casarão mal-assombrado. Essa escada se erguia, de vez em quando, como se fosse uma passagem secreta, de onde a criatura, que nunca aparecia, soltava sua labareda.

Que tal voltar um pouco nesse túnel do tempo? Vamos relembrar mais essas séries icônicas? Veja abaixo os vídeos!

 

Alguns videos da série “A FAMÍLIA ADDAMS”:

Tema de abertura da série clássica dos anos 60:

Abertura do desenho animado em 1973:

Trailer da primeira temporada da série Wandinha, que estreou na NETFLIX, e que foi derivada do universo expandido de “A Família Addams”:

 

Alguns vídeos da série “OS MONSTROS”:

 

E mais bonus:

 

Ah, tempos bons! Quem se lembra?

 

*  Todas as imagens (fotos e vídeos) respeitam os seus respectivos direitos autorais e são utilizados aqui apenas para efeito de pesquisa e resenha jornalística.

 

SOBRE JORGE VENTURA

Jorge Ventura é escritor, roteirista, editor, ator, jornalista e publicitário. Tem 13 livros publicados e participa de dezenas de coletâneas nacionais e estrangeiras. É presidente da APPERJ (Associação Profissional de Poetas no Estado do Rio de Janeiro), titular do Pen Clube do Brasil, membro da UBE – RJ (União Brasileira de Escritores) e um dos integrantes do grupo Poesia Simplesmente. Recebeu diversos prêmios, nacionais e internacionais, como autor e intérprete. Tem poemas vertidos para os idiomas inglês, francês, espanhol, italiano e grego. É também sócio-proprietário da Ventura Editora, CQI Editora e da Editora Iniciatta. Jorge é colunista do ArteCult, responsável pelo AC RETRÔ.
E, agora vocês já sabem… Uma das maiores referências no Brasil sobre o universo Batman.

Instagram @jorgeventura4758

SOBRE O AC RETRÔ

Prepare-se para embarcar em uma viagem no tempo! O AC RETRÔ é um espaço dedicado à nostalgia, à memorabilia, ao colecionismo, relembrando também aquelas propagandas icônicas da TV, telenovelas, anúncios inesquecíveis das revistas e jornais, programas que marcaram época e filmes que nos transportam diretamente para tempos dourados! ️

Aqui, cada post será um convite para reviver memórias, despertar emoções e compartilhar as lembranças que moldaram gerações.

Se você sente saudade de jingles que não saíam da cabeça, comerciais que viraram clássicos, seriados que marcaram a infância ou até mesmo daquele filme que você alugava na videolocadora todo fim de semana, então o AC RETRÔ será o seu novo ponto de encontro. Afinal, recordar é mais do que viver: é reconectar-se com o que nos fez sorrir, sonhar e se emocionar. Fique ligado, porque essa viagem ao passado JÁ COMEÇOU! ✨

 

Author

Jorge Ventura é escritor, roteirista, editor, ator, jornalista e publicitário. Tem 13 livros publicados e participa de dezenas de coletâneas nacionais e estrangeiras. É presidente da APPERJ (Associação Profissional de Poetas no Estado do Rio de Janeiro), titular do Pen Clube do Brasil, membro da UBE – RJ (União Brasileira de Escritores) e um dos integrantes do grupo Poesia Simplesmente. Recebeu diversos prêmios, nacionais e internacionais, como autor e intérprete. Tem poemas vertidos para os idiomas inglês, francês, espanhol, italiano e grego. É também sócio-proprietário da Ventura Editora, CQI Editora e da Editora Iniciatta. Jorge é colunista do ArteCult, responsável pelo AC RETRÔ. E, agora vocês já sabem... Uma das maiores referências no Brasil sobre o universo Batman. Instagram @jorgeventura4758

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