A arte de colecionar e cuidar da criança que existe dentro de nós
Por Jorge Ventura
Nada melhor do que começar o mês de outubro – Mês das Crianças – escrevendo sobre um assunto relacionado, na maioria das vezes, à nossa infância. Eu me refiro a uma prática que, no início, se torna hábito e que, mais tarde, inevitavelmente, se torna arte: a arte de colecionar.
Muito já se leu e se escreveu sobre a história do colecionismo no Brasil e no mundo. Convém sublinhar, portanto, prezado(a) leitor(a), que, neste artigo, devo destacar o trabalho daquele que faz do colecionismo uma história de vida a ser contada.
Mesmo para os não aficionados, sabe-se que, desde os anos 1980, o colecionista (ou, popularmente, colecionador) vem assumindo um papel de suma importância na preservação da memória artístico-cultural do país.
Ainda que distante do merecido reconhecimento, como nos EUA e na Europa – onde se encontram catálogos especializados, álbuns, cadernos, fichários, guias, além de amplos espaços destinados à exposição de peças e artigos raros, como feiras, museus e salões de convenções – o colecionista brasileiro, cada vez mais, vem tomando o seu lugar.
Vale lembrar que, ao se ouvir o verbo colecionar, associa-se logo ao ofício de montar e estudar coleções, temos, por exemplo, como tradicionais: selo (filatelia), arte (telas, esculturas, figurinos, mobílias, louças, vitrais e prataria), moedas (numismática), filmes, vídeos em diversos formatos, vinis, CDs, chaveiros, brasões, copos, latas, garrafas, cartões telefônicos (telecartofilia), materiais esportivos, promocionais e antiguidades gráficas (cartazes, pôsteres, rótulos, jornais, livros, revistas, postais, revistas em quadrinhos etc.
Porém, para festejar o Mês das Crianças, gostaria de destacar aqui um segmento muito forte, que é o de brinquedos e jogos antigos, itens que, historicamente, exercem fascínio não apenas sobre as crianças como também sobre os adultos. Segundo os pedagogos, além da função lúdica, os brinquedos e os jogos podem ser usados no desenvolvimento e na educação da criança, estimulando sua capacidade de raciocínio e auxiliando, em casos de tratamento (ludoterapia), aquelas com problemas emocionais ou que apresentam distúrbios de comportamento ou baixo rendimento escolar.
E por que será que os brinquedos ainda despertam o interesse dos marmanjos? Carência afetiva? Infância perdida? Muita gente pensa que o fato de o adulto colecionar “brinquedinhos” – como se referem os irônicos ao item colecionável – é porque o colecionista “não teve infância” ou os pais não tinham boas condições financeiras para presentearem a criança com o brinquedo desejado. Pois digo o contrário: na maioria das vezes, a infância foi tão boa que o adulto deseja preservá-la na memória e no seu íntimo.
Por fazer parte deste rol de colecionistas, ouso responder em nome deles: justamente por cultivarmos o amor a um passado feliz e termos vivido uma infância maravilhosa é que buscamos resgatar e/ou conservar a criança que existe dentro de nós. O curioso, nesse meio, é que alguns colecionistas passam também a comercializar itens, tornando-se comerciantes que fomentam amizades e ampliam o círculo de relacionamento para compra, venda e troca de colecionáveis.
A minha história como colecionador começa na infância, quando eu guardava os brinquedos preferidos num baú de madeira, sem a menor ideia do sentido que aquilo faria quando eu crescesse. Juntava robôs já enferrujados pelo tempo, indiozinhos e cavalinhos de Forte Apache (quase sempre em mau estado de conservação), soldadinhos de chumbo, Topo Gigio, brindes promo, naves espaciais, os heróis Marvel da Atma, bolas de gude e times de botão. Na adolescência, perdi uma boa parte dessa coleção porque minha mãe resolveu dar muitos itens ao filho da empregada doméstica, sem que eu soubesse.
Anos depois, no finalzinho dos idos 1980, com a reprise da série Batman da TV, com Adam West e Burt Ward, e a estreia nos cinemas de Batman – O filme, de Tim Burton, com Michael Keaton e Jack Nicholson, aconteceu a segunda e avassaladora batmania – o mesmo fenômeno cultural ocorrido em 1966, que alavancou um consumo desenfreado de produtos licenciados com a marca Batman. Como sempre fui um batfã de carteirinha, percebi que eu já possuía em minha coleção muitos itens ligados ao herói. Então, foi bastante fácil para mim aproveitar a onda da nova batmania e decidir por colecionar tudo que fosse relacionado ao Homem-Morcego. Na década de 1990, cheguei a ser considerado um dos cinco maiores colecionistas de Batman no Brasil.
Confira parte da minha coleção!
É preciso dizer, antes de continuar a escrever este artigo, que a um colecionista não basta somente juntar itens, é preciso estudar cada item, sua origem, ano de fabricação, saber de curiosidades a respeito do item e de sua importância histórica no mercado. Um verdadeiro colecionista necessita de um grau valioso de dedicação e pesquisa.
Atualmente, mantenho minha coleção de maneira discreta e venho atuando mais como comerciante de brinquedos antigos. Nessa longa trajetória, lá se vão 30 e poucos anos de colecionismo. Construí muitas amizades, mas, infelizmente, perdi também muitos amigos colecionistas, como o caso de Márcio Escoteiro, Robson Brasil e Leandro Couto do Nascimento, conhecidos batmaníacos, que faleceram e deixaram um grande legado na arte de colecionar.
Todo ano, tenho como compromisso firmado a minha participação em encontros com colecionistas pelo Brasil. Em maio último, por exemplo, estive reunido, em São Paulo, com amigos que partilham da mesma arte de colecionar: Marcelo Patti, Carlos Alberto Yázigi e Ronaldo Arêa Leão.
O(a) leitor(a) poderá acompanhar neste artigo a entrevista gravada em vídeo, que realizei com eles, no La Boulange, no bairro de Vila Mariana. A minha intenção é iniciar uma série de entrevistas com dezenas de outros colecionistas, de diversos segmentos, e publicá-las, oportunamente, na coluna AC Retrô.
Marcelo Patti (Instagram: @marcelo.patti27 e site: www.pattytoys.com.br), o primeiro entrevistado, eu o conheci em 1998, na Feira de Antiguidades do MASP, enquanto conversava com outro comerciante, Sérgio Campos. Na ocasião, fui apresentado a Patti, e, pelo que sei, até hoje, nunca pisou em terras que não fossem prósperas. Sua conduta sempre foi correta, e seu nome transformou-se em uma referência.
Nascido no interior paulista, na cidade de Taquaritinga, pertencente a uma família de ascendentes italianos, Patti é formado em matemática, ex-professor, tendo largado o magistério para lançar-se à sorte no comércio de brinquedos antigos, encontrou, ainda que inconscientemente, o caminho do meio, o equilíbrio. Equilíbrio composto de atitude, razão e emoção, tríade de vida aliada à coragem e ao coração, cujas raízes em comum significam quase a mesma coisa. Sereno e bastante educado, tem o dom de agregar pessoas e, até mesmo, de aglutinar os pensamentos mais díspares em função de algo maior: a paixão por brinquedos. Este “menino-sonhador” chegou à Galeria Itapetininga de Brinquedos Antigos, no centro de São Paulo, em dezembro de 2001, convidado por Roberto Gregori. Àquela época, o ponto era divulgado pelo seu fundador, Gilberto Campos, grande especialista no assunto e considerado um dos pioneiros no ramo.
O tempo passou, e Patti conseguiu, com sua simplicidade e perseverança, ampliar os horizontes, contribuindo para que o local se tornasse um point de sucesso. Todos os que participaram do início da Galeria, direta ou indiretamente, deixaram escrita uma linda história. Ele está para completar 64 anos de idade e já tem 36 anos de colecionismo. Por influência do seu pai, que colecionava selos, começou com filatelia e, com o tempo, passou a se dedicar ao mundo encantado do circo e dos palhaços famosos.
Confira parte da coleção de Patti!
Carlos Alberto Yázigi, o segundo entrevistado, é engenheiro mecânico, tem 62 anos e reside no Jardim Paulista, em São Paulo. Desde a infância, é colecionista e acumulou selos e moedas nacionais e internacionais, além de chaveiros e pacotes de cigarros estrangeiros. Entre os itens de coleção, hoje, além dos aparelhos antigos de som e vídeo, calculadoras, computadores, relógios, máquinas fotográficas e ferramentas, tem preferência por colecionar as máquinas de pinball (fliperamas). Em seu acervo, possui três máquinas importadas (Williams e Sega) e cerca de quinze nacionais (Taito).
Confira parte da coleção de Yágizi!
Ronaldo Arêa Leão, o terceiro a compor o trio de convidados para esta entrevista exclusiva, é piauiense de Teresina, tendo iniciado sua coleção por influência da cultura pop, dos clássicos desenhos animados e das séries televisivas dos anos 1970. Hoje, sua coleção se concentra em personagens icônicos, principalmente os de Hanna-Barbera, os de games (universo Mário), futebol de botão (especialmente, os times feitos sob encomenda), além dos minicraques e cards de futebol. Para Ronaldo, o colecionismo é uma cultura a ser preservada, pois revela uma dimensão psicológica do homem desde os tempos antigos:
“Colecionar para conhecer. Eis a chave-mestra do colecionismo”.
Coneça parte da coleção de Ronaldo:
Assim como eu, Patti, Yázigi e Arêa Leão, temos consciência de que a arte de colecionar é mais que um passatempo, é a possibilidade de retornarmos à melhor fase de nossa vida: a infância.
Dedicatória:


Que tal voltar um pouco mais nesse túnel do tempo? Veja a ENTREVISTA com essas feras no Café La Boulange em São Paulo!
Ah, tempos bons! Quem se lembra?
* Todas as imagens (fotos e vídeos) respeitam os seus respectivos direitos autorais e são utilizados aqui apenas para efeito de pesquisa e resenha jornalística.

SOBRE JORGE VENTURA

Jorge Ventura é escritor, roteirista, editor, ator, jornalista e publicitário. Tem 13 livros publicados e participa de dezenas de coletâneas nacionais e estrangeiras. É presidente da APPERJ (Associação Profissional de Poetas no Estado do Rio de Janeiro), titular do Pen Clube do Brasil, membro da UBE – RJ (União Brasileira de Escritores) e um dos integrantes do grupo Poesia Simplesmente. Recebeu diversos prêmios, nacionais e internacionais, como autor e intérprete. Tem poemas vertidos para os idiomas inglês, francês, espanhol, italiano e grego. É também sócio-proprietário da Ventura Editora, CQI Editora e da Editora Iniciatta. Jorge é colunista do ArteCult, responsável pelo AC RETRÔ.
E, agora vocês já sabem… Uma das maiores referências no Brasil sobre o universo Batman.
Instagram
@jorgeventura4758

SOBRE O AC RETRÔ
Prepare-se para embarcar em uma viagem no tempo! O AC RETRÔ é um espaço dedicado à nostalgia, à memorabilia, ao colecionismo, relembrando também aquelas propagandas icônicas da TV, telenovelas, anúncios inesquecíveis das revistas e jornais, programas que marcaram época e filmes que nos transportam diretamente para tempos dourados! ️
Aqui, cada post será um convite para reviver memórias, despertar emoções e compartilhar as lembranças que moldaram gerações.
Se você sente saudade de jingles que não saíam da cabeça, comerciais que viraram clássicos, seriados que marcaram a infância ou até mesmo daquele filme que você alugava na videolocadora todo fim de semana, então o AC RETRÔ será o seu novo ponto de encontro. Afinal, recordar é mais do que viver: é reconectar-se com o que nos fez sorrir, sonhar e se emocionar. Fique ligado, porque essa viagem ao passado JÁ COMEÇOU! ✨








































O que dizer desse artigo? O texto nos provoca, nos faz refletir sobre a importância das memórias e dos objetos que nos trazem alegria. Jorge Ventura, você tem o dom de transformar experiências da infância em arte! Parabéns!!!
Querida Rose, muito obrigado pelo retorno. Você acaba de conhecer mais uma das minhas facetas, a de colecionador de brinquedos antigos…rs
Mais que isso: um memorialista, tendo a infância como inspiração de vida.