A VOLTA DO ARLEQUIM: novo romance de Jorge Sá Earp aborda a paixão incontrolável e nos entrega uma literatura LGBTQUIAP+ potente

 

As epígrafes do novo romance de Jorge Sá Earp, “A volta do arlequim” (Ed. 7Letras, 2025), são uma prévia do que vem pela frente: paixão forte. Curiosamente, duas delas – do filósofo pré-socrático Demócrito (460 a 370 a.C.) – se contradizem, como costuma acontecer quando a razão dá lugar às emoções.

Norberto retorna ao Rio de Janeiro após morar muitos anos na Europa. Ele é casado com a italiana Valentina e eles têm filhos gêmeos não-idênticos. Antes mesmo de abrir as caixas da mudança, ele vai à praça onde costumava brincar e relembra os amigos de outrora. O que terá acontecido com eles? Esse início, que dá ideia de um romance memorialista, logo muda quando o protagonista conhece Irineu Bustamante, senhor literato que se abre para uma nova amizade, e reencontra Cristiano, companheiro de infância, pai de Diogo. O rapaz desperta sentimentos em Norberto e faz emergir lembranças que nunca deixaram de arder em silêncio.

A partir daí, a motivação do título do romance se torna clara: “A volta do arlequim” mostra as máscaras que cada um veste para sobreviver às pressões da família, da sociedade e do próprio sentir. Como o personagem da comédia italiana, o narrador se desdobra em papéis múltiplos – filho, amigo, amante, marido, estrangeiro –, buscando no vaivém dessas identidades uma forma de recompor sua história.

 

AC ENTREVISTA. Um arlequim carioca e apaixonado.

Jorge vive um momento especialmente bom na carreira porque seu livro anterior, “O veranista” (contos, 7Letras, 2024) é finalista do Prêmio Candango de Literatura. Ele
já ganhou o Prêmio Nestlé, quando Jorge Amado era um dos jurados. Parabéns!

Confira a entrevista com Sá Earp :

Você passou grande parte da vida morando em outros países antes de voltar a viver no
Brasil. O protagonista de “A volta do arlequim” tem trajetória semelhante. O livro tem
componentes autobiográficos?

R: Em parte, sim. O fato de Norberto ter vivido na Bélgica e na Itália coincide com a
minha vida: também morei nesses países. O próprio retorno dele ao Rio se assemelha à
minha volta à cidade natal. No entanto, as experiências do Norberto no exterior são
diferentes das minhas.

 

Capa do livro “A volta do arlequim”. Foto: Divulgação.

 

O personagem do jurisconsulto é a deixa para trazer deliciosas referências sobre filmes,
músicas e obras de arte, o que enriquece muito a leitura. Como surgiu este personagem?

R: Esse personagem surgiu da lembrança de um escritor que conheci. Acho que sempre
tenho que criar um personagem ou um ambiente em que a arte esteja presente. É o meu
elemento. Necessito dele para navegar mais à vontade.

O livro tem bastante humor. Impossível não rir das desventuras de Norberto atrás de seu
“anjo”, sua obsessão. Isso foi planejado ou surgiu naturalmente?

R: Já percebi que esse é um dado recorrente na minha literatura: a perseguição ao
“anjo”, a busca da Beleza, onde quer que ela se encontre.

O fato de Norberto ser casado e pai de dois meninos – e ele ama sua mulher – chama
atenção para a vida dupla de alguns homens que não tem coragem de assumir sua
bissexualidade. Acredita que no século XXI isso mudou? Está mais fácil “sair do
armário”?

R: No século XXI os costumes avançaram muito, é verdade, diversos preconceitos
caíram, pelo menos nos grandes centros urbanos. Em outras áreas, entretanto, há muito
atraso de mentalidade. Mas acho que muitos bissexuais ainda se escondem seja por
medo de verem seus casamentos destruídos, seja por temor da condenação de suas
inclinações por parte da sociedade.

O livro traz também um retrato vívido do Rio de Janeiro com todas as suas
contradições: desigualdade social, racismo velado, tráfico e consumo de drogas. Apesar
disso, depois de morar em tantos lugares, você escolheu esta cidade para viver. Por quê?

R: O Rio de Janeiro pulsa nas minhas veias como meu próprio sangue. Não poderia
viver em outra cidade. Há muitas referências culturais, históricas e biográficas para mim
aqui.

Você tem mais de vinte livros publicados, o volume de contos “O veranista” saiu ano
passado e um de seus contos teve página dupla no Jornal Rascunho. Quais são seus
próximos passos?

R: “O veranista” ficou entre os dez finalistas do Prêmio Candango, concedido pela
Secretaria de Cultura de Brasília, o que me deixou muito contente. A cerimônia de
entrega será no dia 31 de outubro. Torço os dedos para ganhar, é claro, mas ficar entre
os dez finalistas já é um prêmio.

 

SOBRE JORGE SÁ EARP

Jorge Sá Earp. Foto: Divulgação.

Jorge Sá Earp nasceu no Rio de Janeiro, em 1955. Cursou Letras na PUC-Rio. Como diplomata, serviu na Polônia, Holanda, Gabão, Bélgica, Itália, Romênia, Equador e Costa Rica. Contista e romancista, é autor de “Ponto de fuga” (romance, 1995, vencedor do prêmio Nestlé de Literatura quando Jorge Amado era jurado), “A praça do mercado” (2018), “As amarras” (2020), “O veranista” (2024), entre outros.

O escritor vem se consolidando como uma voz literária LGBTQUIAP+ potente e permanente. Seu livro anterior “O veranista” (contos, 7Letras), mereceu página inteira no Jornal Rascunho. Ele agora retorna com a história de um homem casado e pai de filhos, que volta à cidade natal e se apaixona pelo filho de um amigo de infância.

 

 

 

 

 

 

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