A premiada atriz e diretora Aymara Limma está no Rio para finalizar as filmagens do seu novo curta, ‘Isso não é amor’, que trata da violência contra a mulher

 

A premiada atriz e diretora Aymara Limma está no Rio para finalizar as filmagens do seu novo curta, ‘Isso não é amor’, que trata da violência contra a mulher. Com previsão de lançamento para 2026.

A carioca também está gravando a nova temporada de seu programa de entrevistas

A premiada cineasta brasileira Aymara Limma está na cidade do Rio para finalizar as filmagens do seu novo curta-metragem, que tem como tema central a violência contra a mulher. Com o título provisório “Isso não é amor”, a história tem como ponto de partida uma repórter brasileira de um jornal italiano, que faz a cobertura do drama de uma mulher que sofre abusos do companheiro. O roteiro e direção são assinados pela própria Aymara, que ainda interpreta a jornalista no filme.

“Há muitos anos desejo abordar a questão da violência contra a mulher, pois a considero de suma importância. Ao aprofundar minhas pesquisas sobre o tema, percebi que a violência verbal é frequentemente negligenciada. Observo que, em muitos casos, a toleramos, inclusive em ambientes de trabalho e, em especial, no âmbito doméstico. Talvez, em alguns contextos, haja a tendência de menosprezar o outro para sentir-se superior. Em minhas pesquisas, constatei que a violência verbal pode ser o prelúdio da violência física, e que ela possui um efeito devastador sobre a vítima. Observo inúmeros casos de mulheres que permanecem em relacionamentos abusivos, exatamente porque perdem a capacidade de reagir. Minha intenção é alertar sobre a violência verbal, que atinge todos os gêneros, embora meu foco principal seja a violência em relacionamentos, e também no âmbito profissional”, diz a carioca, que pretende lançar o filme ainda este ano.

‘Transformar, tocar e impulsionar mudanças para auxiliar o próximo’, frisa ela.

Aymara tem como missão criar projetos que promovam transformação.

“O tema abordado no filme, no entanto, tornou-se muito atual, e estamos discutindo-o amplamente neste momento. Sinto que o projeto funcionou como um catalisador, impulsionando um movimento que está em curso. Acredito que isso é muito importante. Essa, por assim dizer, é a inspiração que me motiva a fazer tudo: transformar, tocar e impulsionar mudanças para auxiliar o próximo”, avalia ela, que recentemente, foi jurada e curadora do Los Angeles Brazilian Film Festival (LABRFF), o maior festival de cinema brasileiro nos EUA.

Aymara traz em sua bagagem importantes premiações e indicações. Em 2014, o seu curta-metragem “Te Amo! Shabbat Shalom” foi vitorioso na categoria Melhor Curta-metragem por Júri Popular no Cinema at the Edge Independent Film Festival, em Santa Monica, Califórnia (EUA). E em 2015, o mesmo filme foi finalista entre os filmes Special Screenings do LABRFF, mas não levou o prêmio. Também foi selecionado para o Lucerne International Film Festival (LIFF), na Suíça. A comédia romântica conta a história de uma atriz que tenta conciliar sua carreira em Hollywood e as novas regras de sua conversão religiosa ao judaísmo. Aymara protagoniza e assina a direção, o roteiro e a produção do curta. Em 2016 ela lançou o curta-metragem “Incondicional”em que trata de alimentos alergênicosMais uma vez assinando o roteiro, a direção e produção e ainda atuando. O filme fez turnê pelo Brasil, com sessões em diversas salas de cinema do CCBB, e promoveu reações e relatos emocionantes das plateias.

 

1- O que foi determinante para você decidir transformar a violência contra a mulher — especialmente a violência verbal — no eixo central deste curta? Houve algum episódio, relato ou pesquisa que tenha sido decisivo nesse processo?
Meu objetivo sempre foi desenvolver projetos com impacto social, que promovam transformações e auxiliem o próximo. Sentia o desejo de criar um filme sobre violência contra a mulher. Queria produzir um filme que fosse impactante e inovador. 
Percebi, também, através de pesquisas, que a violência verbal atua como um gatilho, minando a autoestima e fragilizando a pessoa, muitas vezes sem que ela perceba. Infelizmente, o número de muitas mulheres vítimas de violência é alarmante: 840 milhões de mulheres no mundo já foram alvo de violência, segundo dados recentes divulgados pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Num período de 12 meses, 316 milhões de mulheres sofreram violência física ou sexual praticada pelo parceiro. Dentro desse número, meninas, adolescentes, a partir de 15 anos. 
 
Paralelamente, comecei a receber relatos, cada vez mais frequentes, de mulheres que compartilhavam suas experiências com seus parceiros. Na Itália, por exemplo, uma colega de trabalho me confidenciou detalhes sobre o relacionamento com o ex-marido. Recordo, ainda, da história de uma amiga que sofria violência verbal, algo que eu, apesar de oferecer conselhos, não conseguia fazê-la enxergar.  Outros relatos se seguiram. Um episódio marcante na Itália: o assassinato de uma jovem, Giulia Cecchettin, pelo ex-namorado, ocorrido duas semanas antes de sua formatura e de forma brutal, gerou grande comoção na Itália, e uma expressiva manifestação. 
Esse conjunto de situações me afetou profundamente, pesquisei e a partir disso, a ideia de um curta-metragem sobre a violência verbal surgiu com força total.
 
2- Em “Isso não é amor”, você assume também a atuação. Como foi equilibrar, no set, o olhar da diretora com a vivência emocional da personagem que você interpreta?
Exercer as funções de diretora, atriz e roteirista em um mesmo projeto apresenta grandes desafios devido à complexidade inerente a cada uma dessas responsabilidades. Em filmes com forte apelo emocional, como este, a dificuldade se intensifica. Eu considero que a urgência em abordar o tema motivou a decisão de reunir a diretora e a atriz para trabalharem em um personagem de grande impacto. A necessidade de abordar a temática, os recentes acontecimentos, o crescente número de casos de feminicídio e as mudanças legislativas em andamento são as razões que me convenceram de que este era o momento oportuno. A sensação era de uma obrigação, de dar voz a essa questão. Apesar das dificuldades, decidi me entregar de corpo e alma ao projeto, enfrentando o desafio de atuar e dirigir simultaneamente. A imersão emocional na personagem, que exige uma grande carga emocional, somada às responsabilidades técnicas, torna o processo extremamente desafiador.
 
3- A escolha de uma jornalista como fio condutor da narrativa traz camadas simbólicas importantes. O que essa personagem representa para você no enfrentamento do silêncio e da naturalização da violência?
A pergunta apresentada é instigante. Inicialmente, ao abordar o caso da jornalista, personagem central, concentrei-me em aspectos técnicos. A complexidade emocional da personagem exigia uma abordagem cuidadosa, e sentia a urgência de colaborar com a diretora e a atriz para concretizar o filme o mais rápido possível. Minha primeira linha de raciocínio foi a direção, buscando as soluções mais eficazes.
Contudo, ao mesmo tempo, minha experiência como entrevistadora, através do meu programa, “Cine Arte Variety”, exibido semanalmente pelo canal VRT Channel, me levou a considerar a perspectiva da jornalista. Foi então que percebi o cerne da questão. A experiência da personagem revelava uma faceta fascinante, algo que fui descobrindo progressivamente. Refleti sobre como, em situações de violência, seja no trabalho ou em relacionamentos, frequentemente nos falta a clareza sobre o que estamos vivenciando. A dificuldade em reconhecer e de reagir ao abuso ou à agressão é comum.
No caso da jornalista, essa dinâmica se torna ainda mais profunda. Espera-se que alguém com sua profissão, com a responsabilidade de analisar e relatar os fatos, possua uma clareza excepcional. No entanto, o ponto central que me atraiu foi justamente a constatação de que, mesmo para pessoas fortes e conscientes, a experiência pessoal pode obscurecer a percepção.
Acredito que essa seja a essência do filme: a importância da personagem, a profundidade da narrativa e as questões que ela suscita. O objetivo é promover a clareza e alertar sobre essa condição. Essa foi minha intenção ao trabalhar no filme, e aprofundei minha compreensão do tema durante o processo de escrita do roteiro, após a decisão de abordar a história. Foi uma experiência fascinante.
 

4- Você fala sobre a violência verbal como um gatilho muitas vezes invisível. Que sinais você espera que o público passe a reconhecer após assistir ao filme?

A pergunta apresentada é de suma importância. Acredito que ela seja o cerne deste filme. Minha esperança é que a obra consiga transmitir essa mensagem ao público, levando os espectadores a refletir sobre o tema. O objetivo é que o filme cause impacto, provocando a reflexão sobre as sutilezas da violência verbal, seja no ambiente de trabalho, entre amigos, ou no âmbito familiar, incluindo as relações entre pais e filhos. A intenção é abordar a violência verbal dentro de um relacionamento, servindo como um alerta.

O filme também explora a violência verbal no contexto profissional, buscando alertar sobre seus efeitos. Desejo que o público seja instigado a questionar o comportamento alheio: “Qual a motivação por trás dessa agressão? O que essa pessoa busca ao me tratar dessa maneira?”. Acredito que a provocação desses questionamentos, reforçada pelo título “Isso não é amor”, contribua para uma reflexão profunda sobre a natureza da situação vivenciada.Ao refletir sobre essa questão, espero que o público desenvolva uma maior consciência da situação em que se encontra, buscando transformá-la e aprimorá-la. Almejo que a reflexão promova a autoproteção, o autorrespeito e o amor-próprio, elementos essenciais para estabelecer uma barreira contra a violência. Acredito que, ao identificar o sofrimento, somos capazes de nos proteger. Minha expectativa é que o filme incentive as pessoas a refletir e a transformar qualquer situação adversa que possam estar vivenciando.

 
5- Seu trabalho costuma dialogar com transformação e consciência social. Que tipo de impacto — íntimo ou coletivo — você espera provocar com este curta?
Sim, o impacto. Esperamos sempre gerar um impacto significativo, não é? Desejamos abordar as questões de forma a provocar reflexão no público. Dirigi há alguns anos o filme “Incondicional”, que tratava da alergia alimentar de maneira aprofundada. Creio que o filme teve um impacto considerável. Foi uma experiência muito enriquecedora, e pretendo replicá-la com “Isso Não É Amor”, viajando pelo Brasil para promover palestras e debates sobre a violência verbal, a violência contra a mulher e o amor-próprio. Acredito que este filme terá um alcance expressivo, gerando grande mobilização, mas também espero que toque profundamente o íntimo das pessoas, talvez de maneira mais sutil e leve. Se o filme conseguir despertar alguma consciência, considero que já terá cumprido seu propósito, pavimentando o caminho para o conhecimento e a autoproteção. A violência verbal, como revelam diversas pesquisas, muitas vezes precede a violência física. Quando uma pessoa sofre violência física de um parceiro, por exemplo, ela consegue identificar essa agressão, pois possui a evidência física do ocorrido. A violência verbal, por outro lado, corrói internamente, minando a força e sugando a energia. Creio que, se o filme despertar uma reflexão, por menor que seja, ele já terá cumprido sua função.
6- Filmando no Rio de Janeiro, sua cidade de origem, este projeto ganha um significado especial? De que forma o território e o momento atual influenciam a potência da obra?
É notável como o filme, inicialmente concebido para ser rodado na Itália, em Milão e Veneza, revela-se profundamente impactante. A escolha da Itália, um país com marcantes questões de machismo e violência contra a mulher, tanto física quanto verbal, influenciou diretamente o processo criativo. Ao assumir a direção, atuar e assinar o roteiro, percebi a necessidade de incorporar outra personagem, o que me levou a realizar uma homenagem no Rio de Janeiro. Essa mudança é significativa em diversos aspectos, pois trago comigo uma nova perspectiva, uma visão diferente de um país e de sua cultura. É interessante observar a influência dessa experiência no Brasil, onde o machismo, a negligência e a violência se manifestam de maneira tão contundente. Acredito que a violência verbal seja um ponto crucial a ser abordado. É emocionante finalizar este filme no Rio de Janeiro, em minha terra natal, e poder discutir um tema tão relevante, que considero um alerta para toda a sociedade brasileira, em todos os seus níveis. Especialmente após as dificuldades enfrentadas durante a pandemia e diante dos desafios atuais do país, incluindo o crescente número de feminicídios, sinto que este filme chega de forma muito forte e significativa. Espero que ele possa auxiliar muitas pessoas.

À frente de programa de TV, novas entrevistas em São Paulo e no Rio

Durante todo o ano, Aymara se divide entre o Rio de Janeiro, EUA e Veneza (Itália), fazendo entrevistas com personalidades da cultura e do entretenimento para o seu programa “Cine Arte Variety”, que vai ao ar, no Brasil, toda quarta-feira, às 22h, e toda sexta-feira, às 23h, pelo VRT Channel. Para a nova temporada, tem feito entrevistas, em estúdio, em São Paulo, e no Rio, mas, por enquanto, o que vem por aí é segredo.

As atrizes Fernanda Torres, Bárbara Paz, os diretores René Sampaio, Christiane Jatahy; os atores Lucas Till, protagonista da série americana “MacGyver”; os diretores Pitof Comar (“Mulher-gato”, da Warner Bros.), Halder Gomes, Mariano Marcus Baldini, Eduardo Albergaria e Plinio Profeta; e os renomados atores Italianos Pierfrancesco Favino e Toni Servillo são alguns dos grandes nomes do cinema nacional e internacional que já deram entrevista exclusiva para a carioca.

 

Sobre Aymara Limma: o filme de sucesso ‘Cidade dos anjos’, carreira na TV e exposições de pinturas e fotografias

Aymara Limma ou Brazilian Firecracker, como ficou conhecida em Los Angeles pela sua paixão e energia nos palcos, é uma atriz carioca, apaixonada pelas artes. Internacionalmente, atuou no longa “Cidade dos Anjos”, com Nicolas Cage e Meg Ryan, em 1998. No Brasil, em 2003, atuou na peça “As Aventuras de Tom Sawyer”, que venceu em quatro categorias o Prêmio Maria Clara Machado. Indicada ao Prêmio Quality Gold 2018, como profissional do ano, a atriz iniciou a carreira na TV em 1989, na minissérie “Capitães de Areia”, dirigida por Walter Lima Jr, na Bandeirantes. Em sua formação, teve aulas no Tablado e com os renomados mestres em Hollywood, na Beverly Hills Playhouse, Milton KatselasJeffrey Tambor. E na Itália fez mestrado em Fine Arts in Filmmaking, na renomada universidade de Veneza Ca’ Foscari.

Em 2015, Aymara inaugurou a sua primeira exposição multimídia solo no “Iate Clube do Rio de Janeiro”, no Brasil, com pinturas, fotos e vídeos que retratam o amor. A exposição “Open Your Heart” foi composta por 42 telas – muitas das pinturas feitas com areia – e dez fotografias, além de um vídeo de aproximadamente 18 minutos. Uma mostra beneficente que teve parte de suas vendas destinada ao Pró-Criança Cardíaca, uma instituição médica sem fins lucrativos. E devido ao sucesso foi prorrogada por mais uma temporada.

Em Veneza, nos anos de 2022 e 2023, Aymara também apostou no lado de fotógrafa. Ela fez sucesso com a sua exposição de fotografias de gaivotas “I am, Io sono, eu sou”, que foi destaque no badalado “Barch-in”, o cinema drive-in a bordo de um barco no Arsenal de Veneza, na Bacia do Arsenal, o antigo estaleiro da Sereníssima, em 2022; e depois, em 2023 no salão principal da Locanda Barbarigo Hotel, localizada na região de San Marco. A mostra teve citação na imprensa local, como La Piazzaweb, Arte.it, Cinemaitaliano.info, La Stampa e Adcgroup.it.

 

Fotos: Aymara Limma 2024 by Fiorenzo De Luca

 

 

 

Author

Redação do Portal ArteCult.com Expediente: de Seg a Sex - Horário Comercial. e-mail para Divulgação Artística: divulgacao@artecult.com. Fundador e Editor Geral: Rapha Gomide.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *