
A mesa branca de plástico confortava o enfeite artesanal ajeitado pela mãe da criança nas noites mal dormidas. Tudo pela festa de dois anos do filho tão sonhado e tão arisco quando com fome. Dá comida pra essa criança, gritava a mãe para o abobalhado pai do menino. Em cerca de uma hora a mesa seria arma de uma agressão, mas antes é importante entender o caminho da festa.
O combinado entre o casal de pais de Bernardo era o de a mãe tratar sobre decoração e buffet enquanto o pai cuidaria da contratação de serviço de animação e outros profissionais envolvidos na festa. Os convidados começaram a chegar meia hora após o horário marcado no convite. O tema era de heróis populares no cinema nos últimos anos.
Dias antes, na sede da empresa de engenharia onde o pai da criança trabalhava, um pensamento rebateu nas paredes da cabeça: chamo ou não os dois sócios que não se entendiam? Pediu conselho a um colega, o que casaria em poucas semanas e também passava pela mesma dúvida. No fim, chamou. O que não compreendeu foi a recepcionista posicionar os dois junto do casal de noivos na mesma mesa, a tal mesa de plástico.
Ao avistar a cena, o pai tentou contornar o ocorrido. No entanto, interrompido por congratulações da nova esposa do tio, por dois esbarrões de crianças que brincavam de pique, pelo garçom apreensivo servindo refrigerante com pouco gás, refrescos muito doces e água sem gás, não conseguiu intervir. Os sócios discutiam sobre a situação econômica do país. Um, notadamente progressista, rebatia com ironia e argumentos intranquilos o que o outro, conservador, inferia como verdades absolutas. O casal de noivos havia fugido para algum banheiro para a realização de uma aventura que daria errado por terem sido pegos por três crianças que gritaram assustadas. Em vinte anos o casal, ainda juntos, contaria essa história com vergonha e culpa. Já as crianças, já adultas, levariam às terapias e às atitudes em relacionamentos sem saberem que muitas coisas se formaram em traumas.
Antes de cortar o bolo e de a canção de parabéns ser tocada e cantada. Ao mesmo tempo a equipe da festa entendeu como um sinal de que era a hora de começar a animação e uma mulher fantasiada de enfermeira entrou no salão. A dentadura de um homem mais velho pula em direção às crianças que tinham cara de curiosidade e incompreensão. O senhor tropeça e bate na cintura de outro senhor, ainda mais velho, cuja calça escorre pelas pernas. A enfermeira tira a primeira peça de roupa e só aí se dá conta de que erraram o dia: a despedida de solteiro era no dia seguinte.
Os sócios subiram o tom do debate. Um deles se levantou aos palavrões, tomou a mesa de plástico e arremessou em direção ao sócio com quem alimentava as más palavras. Os adultos se tornam infantis diante de crianças que se tornaram maduras assistindo tudo. A mãe de Bernardo, junto de outras mulheres e alguns pais gritou “crianças, fechem os olhos”. Os constrangimentos foram contados por essa mulher no ano seguinte, divorciada, no primeiro encontro com um homem que conheceu no elevador do prédio em que passou a morar. Foi a primeira vez que ela contou com leveza a situação traumática. O homem riu e só depois perguntou o motivo de ninguém além do filho dela ter nome na história que contou. A mulher deu um leve olhar perolado como quem diz para que ele inventasse qualquer motivo, como quem tivesse que deixar no ar se aquilo tudo de fato aconteceu ou se foi pura e adocicada fantasia como defesa de um cotidiano cada vez mais cru. A mesa em que estavam acomodados era branca, dessa vez de madeira e seria assim possivelmente por muitos anos.










