A força de uma grande onda no Sesc Copacabana

Foto: Divulgação

Na semana em que uma notícia horrorosa da região Sul do Brasil estarrece o país, unindo brasileiros em meio à polarização política e também na indignação contra a violência aos animais, tive a oportunidade de levar ao meu coração um olhar belíssimo dessa mesma região. Agradeço imensamente por isso.

No Sesc Copacabana está em cartaz o espetáculo “Sozinho com Romeu e Julieta”, da Ave Lola – Espaço de Criação.

Fernanda Montenegro estava na plateia e disse, diante das damas do teatro brasileiro Analu Prestes e Marieta Severo:

“Nós da classe reconhecemos que um ator como você não se encontra fácil por aí.”

Aproveitando a oportunidade, perguntei ao pai dos monólogos, Júlio Adrião, que estava na estreia, referência de excelência no teatro solo, e ele respondeu:

“Louvável. É muito difícil fazer tudo o que ele fez.”

Confesso que saí de casa sabendo que seria bom, talvez impactante. Conversei com o colega Gilberto Bartholo, que me disse:

“Assisti ao ensaio há quase um ano, certamente será bom.”

Bingo, Gilberto.

Mas não era apenas expectativa. Em 2023, assisti à Ave Lola no mesmo Sesc com “Cão Vazio”, espetáculo que me levou a cenas inesquecíveis. Portanto, eu já sabia que não seria diferente.

 

Sinopse

Um ator (Evandro Santiago) está sozinho em um ateliê esquecido de um teatro fechado por razões políticas. Ali, entre bonecos, manequins e figurinos abandonados, decide reviver as cenas do último espetáculo que ensaiava antes da interrupção: o clássico “Romeu e Julieta”, de Shakespeare.

“Sozinho com Romeu e Julieta nasceu do desejo de olhar para esse clássico a partir do ofício do ator e da potência infinita do teatro como jogo. Circular com esse trabalho e chegar ao Rio de Janeiro reafirma a força do teatro de grupo e a importância de manter vivos os espaços de encontro com o público”, conta a diretora Ana Rosa Genari Tezza.

 

A experiência

Confesso que não sei por onde começar, porque tudo alcança uma espécie de perfeição. Fico imaginando quantos ensaios foram necessários para abraçar essa excelência. Durante quase duas horas, ninguém consegue tirar os olhos do palco. Como um ímã, uma hipnose: cada cena, cada som, cada feixe de luz nos prende.

Beto Bruel e Rodrigo Z criam uma iluminação elegante, como uma bailarina sobre linóleo. A luz entra cena após cena, dialogando com o ator — expressiva e ao mesmo tempo leve como pena. Uma precisão de gênio. Tons diferentes que deleitam os olhos. Inesquecível.

Ao fundo, uma janela nos leva ao passado, a outra época, uma iluminação fosca que não atravessava a iluminação que brilharia no palco. A peça começa no escuro, revelada por uma vela: ali já percebemos que o fazer teatral seria coroado pela glória.

Os figurinos, delicados como pétalas de rosa ou a sutileza de uma violeta, eles nos levam ao mundo de uma menina que se apaixona por quem não podia. Transformam-se também em cenário: sutis, gentis e imaculados. Eduardo Giacomini assina essa beleza. Beleza essa que levava o artista a dançar valsas enquanto segurava os tecidos ao corpo, nos levando a cenas que flutuavam, um desbunde!

 

A direção e o território

Quando a diretora diz pertencer à periferia do Paraná, meu coração ferve. É tudo tão sentido, tão significativo. A descentralização das oportunidades é real: jovens da periferia do Rio estão no Chile por meio de edital, a Cia Cerne. Ver a Ave Lola e a Cia Cerne em lugares como esses faz meu coração arder de esperança.
Rosa, que seus botões floresçam, é o meu desejo. Porque sua obra merece estar pelo mundo, mostrando a força do Brasil no teatro.

A direção é precisa: sonoplastia que duela com o corpo do ator, entradas de luz, marcações rigorosas. Ana Rosa Genari Tezza é, sem medo de errar, uma das grandes diretoras do teatro brasileiro, são poucas, mas não apenas por este trabalho, mas por tudo o que faz, por arriscar, por estar longe e tão perto do humano ao mesmo tempo. Ave Lola! Que milagre é Rosa! delicada em um jardim espinhoso que é o Brasil quanto a posições ierarquicas de nossas profissões.

A cena onde Romeu e Julieta se amam, por exemplo, é tão visceral, sem que a vulgaridade se apropriasse do impoluto. Um momento ardente, mas que a direção soube trazer com respeito, nos queimando por dentro, sem corar o rosto, tudo tão respeitoso, mas sem perder a sensualidade, e tudo isso com um ator e uma objeto que era a cabeça de julieta. Ave Lola!

 

Música, máscaras e matéria teatral

Jaime e Breno trazem a música como hidrogênio e hélio: luz primordial, matéria de estrela. Brilham. Juntos, alcançam a perícia de Apolo, deus da música. Tive a impressão de ver um cavalo branco atravessar as cenas ao lado do deus grego — tamanha a beleza dos sons que nos atravessavam.

Eduardo Santos, criador dos bonecos, objetos e máscaras, oferece um banho de simplicidade e maturidade. Nada desmonta a beleza; tudo revela verdade. Um tapete vermelho parece descer de um castelo de ouro para seu trabalho.

O texto é Shakespeare, com adaptação de Barbara Heliodora, guardiã do dramaturgo no Brasil.

Evandro Santiago: entre o milagre e o teatro

E vamos ao artista.

Reconhecemo-nos. Eu já o havia visto em Cão Vadio, dançando com um boneco estranho e profundamente poético. Agora, ele volta aos meus olhos com a urgência de me fazer ver Shakespeare ao meu lado, para dizer ao ouvido do dramaturgo inglês:

— Viu? Eu te disse!

E imagino Shakespeare me respondendo, atônito:

— “I would never have imagined seeing my work reach this level, in the mouth of this boy who reminds me so much of Molière.” (Eu nunca imaginaria ver minha obra chegar a esse nível, na boca desse menino que mais me parece Molière).

Detalhe, não sei por que vi Evandro assim através de fotos antigas do artista de teatro frances; o visagismo me levou a esse lugar de artista clássico, atravessado pelo tempo. Bigode e peruca, talvez…

Eu o responderia, sem tirar os olhos de Evandro ao dramaturgo, tomada por orgulho e vaidade:

— Acorda, Shakespeare. Aqui é o Brasil. Estamos on my baby!

E Bárbara Heliodora, ao meu outro lado, diria, segura e cirúrgica como sempre:

— Acertaram em cheio.

Afinal, em certo momento, o artista acende a luz e diz algo parecido à plateia:

“Que bom vocês estarem aqui, os fantasmas do teatro.”

E ali entendi: nós éramos os fantasmas. E ele, o vivo, mais vivo que nunca.

Evandro entra em cena com o corpo oferecido ao teatro, como oferenda aos deuses. Cada som atravessa seu corpo. A marcação é de engenheiro e de poeta ao mesmo tempo. Ele entra como um cavalo, punhos fechados, pulsando com a sonoplastia. Eu me perguntava: “Estou vendo isso, meu Deus?”

E o teatro, ali, acontecendo, degustando o poder cênico do ator. Não é técnica apenas: é potência.

Evandro é um trem-bala que atravessa o espectador. Depois disso, o céu é pouco.

O meta-teatro surge quando, sentado, com uma mão que segura um cigarro, abre um livro e o lê. Uma dádiva para quem estuda teatro e criatividade.

Todos os objetos nas mãos do Evandro criam vida, cabeças, vestidos, capas, tudo tinha movimento, pareciam não depender dele, uma perícia inquestionável.

Ele encarna padre, Romeu, Julieta, ama, pai — tudo no mesmo corpo, com vozes distintas, sem confusão, mas arrebatador. Uma proeza técnica raríssima.

Fernanda Montenegro está certa: não se encontra um artista assim em qualquer esquina. Para chegar ali, Evandro deve ter se deixado amassar como barro, para que nossos olhos o reconheçam como obra essencial.

Entre o milagre e o teatro, está Evandro.

Mesmo diante da dor recente no Sul, ele se torna um jubileu de carne e osso, defendendo seu território com alma, arrancando de nós admiração e rendição.

Evandro transformou uma revisitação de Romeu e Julieta em uma ode robusta ao teatro. Seu nome é tão forte quanto um vento de 408 km/h.

Um presente que nos leva a entender que o homem pode nos presentear com sua devoção as artes cênicas.

Mais uma vez obrigada a Js Pontes, Ave Lola, Sesc Copacabana, Evandro e Ministério da Cultura que patrocinou a montagem desse prodigioso espetáculo.

 

Confira trecho do espetáculo 

 

FICHA TÉCNICA

Autor: William Shakespeare
Tradução: Bárbara Heliodora
Direção: Ana Rosa Genari Tezza
Elenco: Evandro Santiago
Assistente de Direção: Ane Adade
Direção Musical e Composição de Arranjos: Arthur Jaime e Breno Monte Serrat
Músicos: Arthur Jaime e Breno Monte Serrat
Coreografia e Preparação Corporal: Ane Adade
Iluminação: Beto Bruel e Rodrigo Ziolkowski
Cenário: Daniel Pinha
Figurino: Eduardo Giacomini
Montagem e Operação de Luz: Alexandre Leonardo Luft
Ilustrações e Projeto Gráfico: Gabriel Rschbieter
Fotografias: André Tezza
Direção de Comunicação: Larissa de Lima
Assistente de Comunicação: Cesar Matheus
Produção: Alyssa Riccieri, Carlos Becker, Mattheus Boeck
Direção Executiva: Entre Mundos Produções Artísticas
Direção de Produção: Dara van Doorn, Elza Forte da Silva Carneiro, Laura Tezza
Assessoria de Imprensa: JSPontes Comunicação – João Pontes e Stella Stephany

 

SERVIÇO

QUANDO: DE 29 de JANEIRO à 08 de FEVEREIRO.

ONDE: Mezanino do Sesc Copacabana
R. Domingos Ferreira, 160, Copacabana / RJ. Tel: (21) 3180-5226

HORÁRIOS: quinta a domingo às 20h30 / INGRESSOS: R$30, R$15 (meia), R$10 (credencial plena) e gratuito (PCG) em www.ingresso.com ou na bilheteria de terça a sexta das 9h às 20h; sab, dom e feriados das 14h às 20h

CAPACIDADE: 100 espectadores

DURAÇÃO: 1h40 / GÊNERO: drama

CLASSIFICAÇÃO INDICATIVA: 14 anos

ACESSIBILIDADE: sim / TEMPORADA: até 08 de fevereiro

 

Paty Lopes (@arteriaingressos). Foto: Divulgação.

 

 

Author

Dramaturga, com textos contemplados em editais do governo do estado do Rio de Janeiro, Teatro Prudential e literatura no Sesi Firjan/RJ. Autora do texto Maria Bonita e a Peleja com o Sol apresentado na Funarj e Luz e Fogo, no edital da prefeitura para o projeto Paixão de Ler. Contemplada no edital de literatura Sesi Fiesp/Avenida Paulista, onde conta a História de Maria Felipa par Crianças em 2024. Curadora e idealizadora da Exposição Radio Negro em 2022 no MIS - Museu de Imagem e Som, duas passagens pelo Teatro Municipal do Rio de Janeiro, com montagem teatral e de dança. Contemplada com o projeto "A Menina Dança" para o público infantil para o SESC e Funarte (Retomada Cultural/2024). Formadora de plateia e incentivadora cultural da cidade.

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