A EXPERIÊNCIA DA PRESSA

IArte – Chris Herrmann

 

A EXPERIÊNCIA DA PRESSA

 

A pressa é inimiga da perfeição e dos livros. Livro com pressa sai errado, mas quando fazemos livros sem pressa? É uma raridade quase absoluta. Sempre estamos com pressa ou alguém nos apressa: Quando o livro vai ficapronto?”, “Quando vai lançar seu livro?”.

Atenção: só se lançam livros depois de estarem impressos antes não adianta marcar lançamento. Quando dizemos que um livro ficará pronto em novembro, não quer dizer que será lançado nesse mês, mas apenas que está “pronto para impressão”, o que não é exatamente a mesma coisa. E mesmo que esteja pronto para imprimir, até ser impresso, são outros quinhentos, porque, durante esse processo, ainda podem acontecer outros imprevistos.

As gráficas são os lugares estranhos onde esses imprevistos podem acontecer. Quando pensamos que já vimos tudo em termos de gráficas, descobrimos que não. Eu já vi de tudo e continuo me surpreendendo. A última experiência foi ver cola demais na lombada de um livro, a ponto de grudar as páginas bem junto ao vinco e deixar uma “capa” de cola tão espessa que parecia que a página fora arrancada dali.

Agora, me explique: cadê o produtor gráfico que não viu isso? Por que um livro exatamente igual a esse, feito na mesma gráfica, não teve esse problema? Das duas, uma: ou não foram feitos pela mesma pessoa, ou alguém virou a cola em cima.

A pressa estraga tudo e faz com que negligenciemos os detalhes. Em meu último livro, uma amiga descobriu dois erros, um gramatical e outro de digitação e revisão. Logo eu que não gosto de deixar passar nada. E por que passaram? Justamente pela pressa com que finalizei meu livrinho que, de tão pequeno, não merecia ter nenhum errinho, mas justamente os livros menores possuem uma maior concentração de erros por centímetro quadrado. Quanto mais papel, mais os erros se “espalham”.

Hoje, recebi um telefonema de uma autora me cobrando um prazo de entrega para seu livro. Eu já tinha explicado o atraso antes, mas ela, não satisfeita, quis ouvir a explicação de novo, e eu expliquei: a revisão não estava concluída, pois, ao reler o livro, pela segunda vez, após de ter passado pela revisora e a própria autora, descobri erros de revisão que “passaram” pelas duas e que a pressa em finalizar um livro com tanto texto fez com que esses erros ficassem “invisíveis”.

Esse é o maior equívoco de todos: ter pressa para terminar. O sono, o cansaço, a vista turva, o hábito com o texto, o tédio em ter de reler as mesmas palavras, tudo colabora para que nos apressemos e queiramos nos “livrar” do livro.

Se quisermos nos livrar dele, o livro se vingará de nós mantendo os erros ocultos, que negligenciamos ao revisar. Então, muita calma nessa hora: não ponha um ponto final na revisão antes de acabar, senão o erro continuará no livro, como os dois errinhos que eu, pela pressa que me impus, pelo prazo que estipulei fizeram com que toda a dedicação de meses a fio ao meu livro aguasse.

Por isso, digo a todos que publico: tenham paciência para terminar seu livro, não se adiantem, colocando o carro na frente dos bois, ou melhor, o lançamento antes da impressão do livro, ou a impressão antes do fim da revisão. A revisão é fundamental para que os erros sejam tirados, para que o livro se cure de nossa inadvertida desatenção. Desejo, a todos que publico, a calma que não tive, pois, pela experiência da pressa, sei que será a única coisa que o livro não irá perdoar.

 

Thereza Christina Rocque da Motta

Março de 2026

 

 

 

 

 

Colunista ArteCult e editora
da Ibis Libris Editora (@ibislibris)

 

 

 

 

 

 

 

Author

Thereza Christina Rocque da Motta (São Paulo, SP, 1957) é poeta, editora e tradutora. Foi Jurada de Tradução do Prêmio Jabuti, em 2018. Recebeu a Medalha Chiquinha Gonzaga da Câmara dos Vereadores, em agosto de 2021. Coordena a Ponte de Versos desde 2000, evento incluído no Calendário Oficial de Cidade do Rio de Janeiro, em 2024. Fundou a Ibis Libris no Rio de Janeiro, em 2000. Publicou Joio & trigo (1982), Capitu (2014), Lições de sábado (crônicas, 2015), Minha mão contém palavras que não escrevo (2017), O amor é um tempo selvagem, Lições de sábado Vol. 2 e A vida dos livros Vol. 2 (2018), Poesia Reunida 40 anos (1980-2020), Sheherazade: Novas lendas das 1001 noites e três já conhecidas (2022), entre outros. Traduziu, entre outros, Marley & Eu, de John Grogan (2006), A Dança dos Sonhos, de Michael Jackson (2011), 154 Sonetos, de William Shakespeare (2009), Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll e O Corvo, de Edgar Allan Poe (2020), Mais mortais que os homens, org. Graeme Davis (2021) e A última casa da Rua Needless, de Catriona Ward (2023), vencedor do British Fantasy Award, como Melhor Romance de Terror de 2022.

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