À ESPERA DO LIVRO

IArte – Chris Herrmann

 

À ESPERA DO LIVRO

 

Um livro, ainda que tardio! Quanto tempo se pode esperar por um livro? Hoje, recebi um original, que o autor fez acompanhar por um bilhete de próprio punho, onde ele confessou: “Vamos ver se desencanta”.

O que faz um livro demorar tanto? Dar a sensação de que encruou? De que nunca será publicado? O livro, mudo que é, jamais vai dizer, nem revelar nada. Temos de ter a paciência de Jó, sendo testado por Deus. E toda a sabedoria bíblica para cruzar todos os desertos e aguentar todas as tentações, até realizá-lo.

Há aqueles que desistem no meio do caminho. Mas há os que nunca arrefecem. A estes, rendo minhas homenagens, pois é preciso ter muita obstinação e coragem para se chegar ao final da jornada.

Um livro, ainda que tardio! Um livro que se desencante e nos encante ao se publicar.

Tenho um projeto que está encantado, justamente, sobre livrarias, repositórios de livros à espera de seu dono. Um ambiente sagrado, que todos entram com respeito. Não há livraria que não nos faça estremecer, por mais antiga e poeirenta que seja.

Já tentei obter patrocínio, dar corda no meu intento, e fico só pela metade, incompleto. Falta algo, e esse algo estou começando a desconfiar o que seja, mas não vou contar para não estragar a surpresa.

Ao editor e ao livreiro, o livro. E em pensar que algo tão complexo surja apenas da imaginação.

Eis meu propósito: descobrir o caminho que o livro deverá percorrer para vir a lume, para deixar de ser sombra sobre mim. É preciso, mais que preciso, que eu descubra por onde ele deve passar. Se não for por um trajeto, deverá ser por outro, mas seja qual for, não posso ter preguiça, não posso desanimar.

Tudo que faço é isto: livros. Penso neles noite e dia. E quem não os pensa? Como este autor, desencantado, que me pede que desencante seu livro – um livro tão bom, tão bem escrito, meu Deus, não pode ficar na gaveta.

Nascemos para isso: para dizer ao futuro ao que viemos.

 

Thereza Christina Rocque da Motta

Março de 2026

 

 

 

 

 

Colunista ArteCult e editora
da Ibis Libris Editora (@ibislibris)

 

 

 

 

com Chris Herrmann

 

com Márcio Calixto

 


com Ana Lúcia Gosling

 

com César Manzolillo


com Tanussi Cardoso

com Rose Araújo

 

com Thereza Christina Rocque da Motta

 

 

 

 

Author

Thereza Christina Rocque da Motta (São Paulo, SP, 1957) é poeta, editora e tradutora. Foi Jurada de Tradução do Prêmio Jabuti, em 2018. Recebeu a Medalha Chiquinha Gonzaga da Câmara dos Vereadores, em agosto de 2021. Coordena a Ponte de Versos desde 2000, evento incluído no Calendário Oficial de Cidade do Rio de Janeiro, em 2024. Fundou a Ibis Libris no Rio de Janeiro, em 2000. Publicou Joio & trigo (1982), Capitu (2014), Lições de sábado (crônicas, 2015), Minha mão contém palavras que não escrevo (2017), O amor é um tempo selvagem, Lições de sábado Vol. 2 e A vida dos livros Vol. 2 (2018), Poesia Reunida 40 anos (1980-2020), Sheherazade: Novas lendas das 1001 noites e três já conhecidas (2022), entre outros. Traduziu, entre outros, Marley & Eu, de John Grogan (2006), A Dança dos Sonhos, de Michael Jackson (2011), 154 Sonetos, de William Shakespeare (2009), Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll e O Corvo, de Edgar Allan Poe (2020), Mais mortais que os homens, org. Graeme Davis (2021) e A última casa da Rua Needless, de Catriona Ward (2023), vencedor do British Fantasy Award, como Melhor Romance de Terror de 2022.

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