
Crédito: Josane Pasiani – Artista Plástica – Girassóis
A alegria é um ato permanente de vida revolucionária
“É melhor ser alegre que ser triste
Alegria é a melhor coisa que existe
É assim como a luz no coração”
(Trecho da música Samba da bênção[1])
Começo minha reflexão deste mês a partir de um filósofo que pensou muito a horizontalidade, o corpo e a arte. Já que estamos em mês de festividades carnavalescas, por que não falar da alegria, então?
O filósofo de hoje atrai em torno de si muita polêmica e também muita genialidade: Friedrich Wilhelm Nietzsche, filósofo alemão, que viveu apenas 55 anos[2]. Filho de um pastor e uma dona de casa, foi desde criança apaixonado por música – desde as que cantava no coral da igreja até as grandes óperas de Wagner, seu grande ídolo. Mas, segundo Sue Prideaux, autora da biografia Eu sou dinamite: a vida de Friedrich Nietzsche[3], nosso filósofo era um jovem “suarento, nada atlético, desajeitado, inteligente acima da média, Nietzsche não era unanimemente popular.” (P. 35). Por outro lado, sua condição de saúde frágil (física e psiquicamente) sempre se impôs para ele, conforme relata a autora: “atormentado por limitações físicas e prognósticos sombrios, Nietzsche se aproveitava de cada momento produtivo.” (P. 41). E produziu muito, tanto na filologia, quanto na Filosofia, nosso filósofo percorreu um amplo terreno do conhecimento. Traduziu clássicos gregos, além de estudar contemporâneos seus, como Schopenhauer. Mais tarde tornou-se professor da Universidade de Leipzig. Mas toda essa sua dedicação lhe dava “o dom de trazer à vida assuntos ressecados” (P. 49), como afirma Prideaux.
Nietzsche é um filósofo de muitas metáforas. É o filósofo ‘do martelo’, o que rompe com toda tradição – em sua filosofia desaparecem o a priori e o a posteriori, como lemos num trecho de Gaia ciência, Livro III, seção 270: “torne-se quem você é.”. Essa frase diz muito de seu pensamento, bem como de sua obra que é fascinante, cercada de um certo mistério, e encantadora.
Voltemos à alegria da música.
Na obra Assim falava Zaratustra: livro para toda gente e para ninguém [4], escrita em quatro partes entre os anos de 1883-1885, temos um texto permeado de metáforas e reflexões que exigem uma leitura atenta, porque Zaratustra, personagem central fala e reflete sobre dilemas ético-morais que nos atravessam. Nesta obra, Nietzsche vai também abordar dois conceitos fundamentais de sua filosofia: o super-homem e o eterno retorno, que poderei abordar em outro momento. Para hoje, tomemos a seguinte fala:
“A vida é uma carga pesada; mas não vos mostreis tão contristados. Todos somos jumentos carregados.
Que parecença temos com o cálice de rosa que treme porque a oprime uma gota de orvalho?
É verdade: amamos a vida não porque estejamos habituados à vida, mas ao amor.
Há sempre o seu quê de loucura no amor; mas também há sempre o seu quê de razão na loucura.
E eu, que estou bem com a vida, creio que para saber de felicidade não há como as borboletas e as bolhas de sabão, e o que se lhes assemelhe entre os homens.
Ver revolutear essas almas aladas e loucas, encantadoras e buliçosas, é o que arranca a Zaratustra lágrimas e canções. Eu só poderia crer num Deus que soubesse dançar.
[…]Eu aprendi a andar; por conseguinte corro. Eu aprendi a voar; por conseguinte não quero que me empurrem para mudar de sítio.” (P. 49)
Como falei mais acima, nosso filósofo faz uso de muitas metáforas. E aqui, no trecho em destaque (“Eu só poderia crer num Deus que soubesse dançar”), temos o elemento da dança, que envolve corpo, presença e movimento. É também um tempo presente, aqui e agora, no plano da horizontalidade. O sagrado divino é o que está para além desta materialidade. E o verbo que ele usa está conjugado no futuro do pretérito. Nietzsche sendo Nietzsche. Mas a música aqui tem esse poder, como nos fala a biógrafa: “para Schopenhauer, a música era a única arte capaz de revelar a verdade sobre a natureza do ser em si.” (P. 55).
Alegria autêntica que se embala num ritmo musical e é o que tanto se observa nesta época do ano. O Brasil concentra as maiores festas populares do mundo – religiosas ou não. Só para citar, temos a monumental e centenária festa de Nossa Senhora de Nazaré, que ocorre desde 1793, em Belém, no Pará e é patrimônio cultural da humanidade da UNESCO. Vemos homens e mulheres embalados na aletria da música e na devoção da fé. Temos também o maior réveillon do mundo, em Copacabana[5]. Temos o maior Carnaval, com festas populares de norte a sul, durante quase uma semana (oficialmente…). Em nenhum país do mundo vemos uma festa popular com esta dimensão. E temos também no meio do ano as festas juninas, concentradas em maior parte nos estados do Nordeste brasileiro, onde durante quase um mês (oficialmente…), desde Santo Antônio (dia 13) a São Pedro (29), a música, gastronomia da região e a cultura popular nos elevam a alma.
Somos assim esta nação contornada por músicas, ritmos e pela alegria autêntica de sua gente. Da Festa do Boi em Parintins, aos tambores do Maranhão, passando pelo Maracatu pernambucano, pelo afoxé da Bahia até os tamborins do samba carioca. Somos assim esta grande atração mundial – e quando falo isso me emociono e ao mesmo tempo me orgulho.
A alegria é própria do homem, é ‘alimento’ da alma. A alegria não é concessão. É condição inata. Portamos esta característica. Mas muitas vezes nosso espírito se acanha e se retrai (se entristece) diante dos maus afetos. É parte do aprendizado e da ruminação, para usar um termo de Nietzsche, que também nos fala bastante do ‘midi’, o meio, o meio-dia, o centro, o aqui e agora: voltemo-nos para isto! Com alegria e dança, porque “eu só poderia crer num Deus que soubesse dançar”.
E por que ser alegre é um ato revolucionário? Porque é duro manter o espírito alegre com tantos reveses e tantas crises que se nos apresentam. Mas ao mesmo tempo e por outro lado não podemos prescindir desta nossa virtude. Não, mesmo! Zaratustra diz que “o homem é um rio turvo. É preciso ser um mar para, sem se toldar, receber um rio turvo.” (P. 23).
E não nos esqueçamos: a alegria não é uma concessão. É própria do homem. É condição. A alegria é/está e ponto. Não percamos isto de nosso horizonte, pois a alegria é um ato permanente de vida revolucionária.
E agora, deixo como como dica (pra ouvir agora mesmo) uma música para se ouvir, cantar e dançar sobre alegria e gente feliz. Gente feliz[6], de Vanessa da Mata:
“Gente feliz não se incomoda com pouco
Eu acho que a felicidade não vem só
Os meus amigos eu escolho
São sócios da alegria que eu gosto de levar
Gente feliz não se incomoda com os outros
Cada um tem sua maneira de existir
Se cuide para não ficar amargurado
Não seja o tipo que reclama e fica sentado
Não procure mais
Gente que te faz sofrer
Pra que o auto abuso
Dar o rosto a bater”
Sigamos, com alegria, porque é parte de nossa condição. E para encerrar, cito trecho da obra Fernão Capelo Gaivota[7], que diz muito sobre este tema e nossa liberdade: “Aprendeu a voar e não se arrependeu pelo preço pago. Fernão Gaivota descobriu que o tédio, o medo e a raiva são as razões pelas quais é tão curta a vida das gaivotas, e, com suas limitações longe de seus pensamentos, viveu, na verdade, uma longa vida.” (P. 28).
Um abraço fraternal e até o próximo artigo na ArteCult.
[1] Compositores: Baden Powell / Marcelo Peixoto / Vinicius De Moraes
Letra de Samba Da Benção © Sony/ATV Music Publishing LLC, Universal Music Publishing Group
[2] Nasceu em 15 de outubro de 1844 e morreu em 25 de agosto de 1900.
[3] PRIDEAUX, Sue. Eu sou dinamite: a vida de Friedrich Nietzsche. Tradução Cláudio Carina – São Paulo: Planeta do Brasil, 2019.
[4] NIETSZCHE, Friedrich Wilhelm. Assim falava Zaratustra: livro para toda gente e para ninguém. Tradução José Mendes de Souza – Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2012.
[5] Título dado pelo Guiness Book em dezembro de 2025, reconhecendo a festa como a maior do mundo.
[6] Compositores: Baiana / Mauricio De Britto Freire Pacheco / Mauricio Pacheco / Roosevelt Ribeiro De Carvalho / Vanessa Sigiane Da Mata Ferreira
Letra de Gente feliz © Sony/ATV Music Publishing LLC, Universal Music Publishing Group
[7] BACH, Richard. Fernão Capelo Gaivota. Tradução de Ruy Jungmann – Rio de Janeiro: Record, 2005.
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