Fim do Ensino Médio

Coluna de Márcio Calixto

 

FIM DO ENSINO MÉDIO

Foto: Divulgação

Sofia formou-se. Era final de 2025, minha mais velha conquistou o diploma de Ensino Médio. Depois de ter passado dois anos como minha aluna, ela se livra não só da escola como de mim também. Em sua colação, eu coloquei a medalha em seu pescoço. Claro que não me contive.

Queria que ela fosse logo minha aluna. Ela custava a me chamar de professor, algo que eu exigia dela, mas em vão. Sempre que escrevo sobre Sofia, digo que ela cresce, eu não. Há aqui, obviamente, dois pontos: uma de sua estatura física. Ela realmente está crescendo, tornando-se uma mulher singular e perspicaz; já eu, não tenho como crescer, apesar da silhueta em expansão. O segundo, o que resplandece a questão, o fato de ela crescer na vida, querendo-a desbravar, enquanto persisto pai de uma menina. Quando eu coloquei a medalha nela, dei a ela a autorização para voar.

Acredito que seja mesmo esse nosso papel principal, o de deixar que voem. É o que tenho falado a muitos deles, que me procuram nesse período da vida, que se apresentam como adultos em início de descoberta de vida adulta. Não tem como não resgatar a mim mesmo nesse processo. Um imberbe. Na faculdade, já trabalhando. Um rascunho do homem que sou hoje. 30 anos depois, pai de uma menina formada no Ensino Médio e que já se encontra na faculdade, fazendo Biomedicina. Cresco um parágrafo de informação, mas não cresço meus ensejos como pai de uma mulher. Ela voa, eu pouso saudades. O que faço com esse pai que sobra, ainda pai de menina? Eu drummondizo, como sempre.

Sento-me no chão, diante dessa flor e a acaricio. Nasceu, mas é uma flor, dessa vez, uma linda flor, que furou o passado, a desesperança, a preocupação e gera novas possibilidades, a ela, claro, não a mim, um eterno pai de menina.

MÁRCIO CALIXTO
Professor e Escritor

Márcio Calixto | Foto: Divulgação

 


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Author

Professor e escritor. Lançou em 2013 seu primeiro romance, A Árvore que Chora Milagres, pela editora Multifoco. Participou do grupo literário Bagatelas, responsável por uma revolução na internet na primeira década do século XXI, e das oficinas literárias de Antônio Torres na UERJ, com quem aprendeu a arte de “rabiscar papel”. Criou junto com amigos da faculdade o Trema Literatura. Tem como prática cotidiana escrever uma página e ler dez. Pai de 3 filhos, convicto carioca suburbano bibliófilo residente em Jacarepaguá. Um subúrbio de samba, blues e Heavy Metal. Foi primeiro do desenho e agora é das palavras, com as quais gosta de pintar histórias.

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