Desmentindo a realidade com humor e poesia

 

Décio Torres Cruz 

O que o verbo “desmentir” tem a ver com poesia? Muita coisa! Desde a República, de Platão, e de Assim falava Zaratustra, de Nietzsche, os poetas são considerados mentirosos.

A palavra “desmentir” já causa em si estranhamento (o que constitui uma das funções poéticas), principalmente quando este verbo é usado inusitadamente como título de um livro de poemas. Torna-se mais curioso ainda por ser algo que implica um ato anterior. Qual terá sido a mentira do poeta neste livro ou em outro precedente que precisa ser desmentida? O que significa “desmentir”? Apagar uma mentira?

“Desmentir” tem vários significados dicionarizados: desdizer, declarar que as afirmações de alguém são falsas; afirmar o contrário do que se disse antes; contradizer(-se), refutar; não corresponder a, não condizer com, destoar de, divergir de; não agir em conformidade com algo. No Norte e Nordeste do Brasil, acrescenta-se um outro significado: desarticular(-se), desconjuntar(-se), fazer deslocar(-se) das juntas; luxar(-se).

O peso da palavra em tempos de incerteza

Atualmente, em tempo de fake news e mentiras compulsivas pronunciadas por chefes de nações (ou candidatos a) que plantam inverdades e, quando desmascarados, desmentem o que disseram antes e, em seguida, substituem a antiga mentira por uma nova, a realidade torna-se nada mais do que uma narrativa fictícia no estilo orwelliano, na qual uma mentira vai se sobrepondo a outra e vai se transformando em verdade. Neste ponto, a realidade supera a poesia e a ficção.

O prefixo des-, quando associado a substantivos, adjetivos e verbos, indica não somente um valor negativo (desumano), de oposição (desfazer), reforço ou aumento (desinquieto), mas também sugere uma afirmação: quem desdiz, desconversa ou desmente está afirmando algo (conversa, diz, mente) e mente novamente, pois o que foi feito ou dito antes prevalece, sendo impossível reverter.

E é exatamente esta ambiguidade que Antonio Carlos Secchin explora em sua poesia. No final de seu recente livro Desmentir (Patuá, 2026), ele estabelece uma relação da mentira com a poesia e o fazer poético:

Desmentir é uma palavra que desmente o próprio prefixo, pois nada garante que o desmentido seja portador da verdade; pode, ao contrário, representar uma nova mentira, simulando estabelecer a verdade. Assim vai a poesia, entre desdizeres e desmentires, sem porto seguro e navegando em neblina.

Diversidade temática e de estilos

Desafiando nosso raciocínio e nossa imaginação, o livro se abre a diferentes interpretações. Dividido em três partes (“Desmentir”, “Dez sonetos malcriados” e “Abecebicho”), o autor passeia por diversos estilos poéticos, nos apresentando uma poesia satírica, crítica e muito divertida. A primeira seção inclui 21 poemas e inicia com um brinde de um copo d’água cheio de sol e agradecimento à vida e aos setenta anos de descobertas e recomeços de uma “alma pássara” levada na mala e que se molha “na luz que a tarde assoviava”, cantando “à beira de um silêncio a pino”, passando “por perto de estar quase ali” e perdendo “o ponto de onde não parti[u]”.

O autor apresenta uma temática bastante diversificada e mescla temas clássicos com contemporâneos. “Poema para pandemia” nos recorda acontecimentos recentes da história brasileira e mundial quando decisões e atitudes políticas resultaram em consequências funestas para o povo de nosso país.

Intertextualidade: paródia, tradição e contemporaneidade

A intertextualidade aparece diversas vezes na obra. Temos uma paródia em “Poema tirado de uma notícia de poema” (em referência a Manuel Bandeira e seu “Poema tirado de uma notícia de jornal”) no qual Secchin brinca com a tradição modernista e com a característica de reciclagem multimídia da própria composição poética.

Em “As cinzas de um soneto”, de forma colaborativa e bastante criativa, Secchin reconstrói um “soneto censurado” de Felipe Fortuna que deixa em aberto as possibilidades de construção de um poema cujas palavras foram propositadamente eliminadas, restando apenas os seus finais com os resquícios de suas rimas. O poema simula um ato de censura à criação e, ao mesmo tempo, gera uma oportunidade para a imaginação e criação poética posterior. Secchin tenta recompor as cinzas das possíveis palavras que poderiam ter feito parte deste soneto, gerando um poema derivado do anterior, com as rimas sugeridas por Fortuna. Ele toma para si esta tarefa insinuada, deixando a devida referência ao criador com a transcrição literal do poema inicial ao lado do seu, como a querer demonstrar que a criação é sempre dependente de inspirações e ideias anteriores.

Há, neste livro, um confronto constante entre a contemporaneidade e a tradição literária, revelado em jogos textuais, intertextuais e interartes através de trocadilhos, referências e apropriações. Em “Sentimento drummundo”, a intertextualidade volta a figurar de forma dupla: no título que faz uma releitura do poema “Sentimento do mundo”, de Carlos Drummond de Andrade; e na ilustração que ladeia o poema: a impactante fotografia, de Éder Furtado, de um trabalhador rural, de mãos e rosto envelhecidos e calejados pela dura lida diária sob o sol, num processo de tradução semiótica como se cada um fosse a reescrita e reinterpretação do outro:

[…] Pouco importa a velhice:

a fome, na casa, na manhã,

se renova, a cada dia.

Meus dedos escavam o mundo

e eles pesam muito mais

do que o cabo de uma enxada.

Metalinguagem

Além da ironia e do predominante jogo com palavras, a metalinguagem sobre a composição poética também se torna tema recorrente em sua escrita. O árduo trabalho do escritor em frente ao papel em branco é abordado em “Mineração”.

“Poema semi pomposo” estabelece um contraste entre a linguagem rebuscada e a língua do povo na descrição de um ato prosaico como a tentativa de compra de meio quilo de feijão. “Contagem regressiva” explora a visualidade dos poemas concretos e o processo de metrificação. De forma desconstrutora, “Lírica” transforma o apelo às musas por inspiração poética num pedido de satisfação sexual. “Visita noturna” estabelece uma relação entre poetas e fantasmas numa crítica à importância a eles atribuída (“Poetas e fantasmas têm algo em comum. / Ainda que falem até a exaustão / ninguém ouve o que eles dizem.”). E “Além” discorre sobre diferentes ideias acerca da composição e originalidade, refletindo teorias diversas de que a escrita sempre revela a mistura de tudo aquilo que o poeta leu, o que acontece com o poema após escrito, a ideia de que o poema não existe sem o leitor e o vaticínio de Roland Barthes sobre a morte do autor.

“Cair na real” tece uma crítica cáustica aos poetas medianos (em cuja classe o próprio autor se inclui), destruindo, com a dureza da realidade, manias de grandeza e sonhos de sobrevivência da obra e do autor após seu falecimento:

[…] Extraviou-se o teu sonho literário

sumiu no trem, não chegou à estação.

Esquecida no atalho mais contrário,

largaram tua escrita em contramão.

Sobreviver? Lamento, digo não.

Morreu a obra em que o autor se esconde.

De mim, de ti, no máximo dirão:

“Já ouvi falar. Não me pergunte onde”.

Os poemas “Pintor bêbado”, “Sobre uma flor” e “O censor, o vendedor, o cego” brincam com o estilo haicai em versos minimalistas. O primeiro descreve a embriaguez do ser nas cores que se mesclam: “Noite. Bebo. Pinto. / Tudo que na noite é negro / vai virando tinto”. O segundo brinca com as transmutações das cores na polissemia das palavras: “O orvalho está prosa: / começa vindo do azul / acaba em rosa.” O terceiro revela a polissemia da palavra “vendo”: “A mesma palavra / insistindo no sonho: / Vendo.”

A irreverência e o ecletismo do autor

Em seus “Dez sonetos malcriados”, Secchin continua com seu olhar cáustico e sarcástico sobre temas variados: erotismo, pedidos de prefácios e de voto para vaga acadêmica, referências a personagens literários, a presunção e a insolência de poetas que mal sabem escrever, amigos desaforados e inconvenientes, musas e falta de inspiração, poeta como mentiroso, as armadilhas engraçadas de corretores automáticos, e termina a seção com um recado para leitores críticos que resolvem ditar as regras do que os escritores deveriam ter escrito ou sobre o que os poemas deveriam tratar.

A última parte, como o título “Abecebicho” indica, é composto de trinta e duas quadras em redondilhas que tratam de nomes de animais em ordem alfabética. Mantém a mesma toada irônica que percorre todo o livro e se configura como parte do ecletismo e do estilo jocoso, livre e dinâmico do autor. Secchin conclui sua obra com um “Questionário Proust” com informações espirituosas sobre si próprio, enaltecendo a mesma estripulia com as palavras encontrada em seus poemas.

Poesia como um jogo de verdades e mentiras

Desmentir é uma chistosa aula sobre a composição poética. Embora trate de assuntos sérios e que demandam reflexão, o livro convida o leitor a enveredar por uma leitura bastante prazerosa. Secchin elege a brincadeira e a ironia para desconstruir a sisudez de temas eruditos abordados com bastante humor. Assim, ele nos mostra que a literatura, de modo geral, se constrói através de intertextualidades, referências, apropriações e releituras da tradição e do contemporâneo e que toda poesia se consolida como um divertido jogo com a linguagem na qual tudo se torna possível, até mesmo falar a verdade através da mentira e depois desmentir tudo aquilo que foi dito anteriormente, pois, como afirma no “Soneto mentiroso”:

Fala de poeta não merece crédito. […]

Pouca certeza é o máximo horizonte

no prazer de mentir sobre a mentira

e nada existe que ele não desmonte,

feito um farsante contra a própria lira.

Resta-lhe apenas com sinceridade

mentir, sobre o vazio da verdade.

Sobre o autor

Foto: Fernando Rabelo

Antonio Carlos Secchin é doutor em Letras e Professor Emérito da UFRJ. Poeta com dez livros publicados, em 2026 lançou Desmentir e Abichedário. Ensaísta, autor, entre outros, de João Cabral de ponta a ponta (2020) e Todos os ventos (2002), considerado o melhor livro de poesia do ano pela Biblioteca Nacional e pelo PEN Clube do Brasil. Organizou em 2008 a edição da poesia completa de Ferreira Gullar.

Proferiu cerca de 700 palestras em quase todos os estados do Brasil e no exterior. Em 2013, a editora da UFRJ publicou Secchin: uma vida em letras, livro com 88 artigos, ensaios e depoimentos dedicados à sua obra. Ganhou o Grande Prêmio Cidade do Rio de Janeiro da Academia Carioca de Letras em 2019. Eleito em 2004 para a Academia Brasileira de Letras, é o atual vice-presidente da instituição e membro correspondente da Academia de Letras da Bahia.

* Décio Torres Cruz é escritor, critico literário, tradutor e professor universitário, membro da Academia de Letras da Bahia, da Academia Contemporânea de Letras de São Paulo, da Academia de Letras e Artes do Rio de Janeiro e membro correspondente da Academia Petropolitana de Letras. Autor de Histórias roubadas (2026), Viagens e travessias (2025) e A poesia da matemática (2024), dentre outros

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