Existe uma “Democracia de esquerda” e outra “de direita”? PARTE III

Existe uma “Democracia de esquerda” e outra “de direita”? – parte III

A Geografia posicional das percepções existenciais-ideológicas

Foto: Divulgação

                                                                                                                                                        O pobre não é pobre, é um empobrecido pelo sistema.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                               Leonardo Boff                                                                                                                                                                                                                         Filósofo e teólogo brasileiro

O que é ser “de esquerda” e o que é ser “de direita”? A origem dessa tipologia dicotômica está, como já é bastante sabido, nas assembléias políticas da Revolução Francesa de 1789, quando, durante as sessões da Assembleia Nacional Constituinte, quem se sentava “à esquerda” do Rei Luiz XVI (que acabou guilhotinado, junto com sua família), eram os reformistas e os revolucionários e a nascente burguesia (um tanto revolucionária em seus primórdios; em seus primórdios!), e quem queria conservar o sistema de poder das elites eclesiais, da nobreza e dos barões latifundiários se sentava “à direita” do Rei.

Dando um “salto” histórico, esta tipologia ganhou nova tração no mundo pós-final da “Guerra Fria”, período histórico que perdurou do termo da II Guerra Mundial, em 1945, até a implosão da ex-União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), em 1991, quando o mudo se dividiu, basicamente, entre capitalistas, cujo pólo maior eram os Estados Unidos da América (EUA), e comunistas, tendo a ex-União Soviética como líder. Havia, também, os chamados “países não alinhados”, que eram nações que, mesmo se inclinando para um lado ou para outro, em maior ou menor medida, não seguiam, à risca, os ditames de nenhum dos dois pólos de poder. Nesta conclusão do ensaio, não tentarei responder o que é ser “de direita”, posto que meu foco é a esquerda, ou melhor, as esquerdas e, embora haja pontos em comum, a direita têm ideias diferentes e mesmo opostas, na maior parte das vezes, à esquerda, então, ao tentar definir o que é ser “de esquerda”, a querida leitora e o prezado leitor já terá certo contraponto ao que é ser “de direita”. Vamos lá.

Na literatura social e política, e a maioria das pessoas concorda com a ideia, não de todo desprovida de razão, ser “de esquerda” é buscar maior equilíbrio social, notadamente no tocante às questões econômicas e à redução das desigualdades várias existentes, além de outras defesas, como a do meio ambiente e de causas minoritárias, em número ou em poder político, como as lutas anti-racismo ou feministas. Historicamente esta percepção faz sentido. Em geral, essas conquistas, para a maior parte daqueles que se dizem “de esquerda” vêm a partir de intensa luta dos movimentos sociais, em associação com uma atuação forte do Estado, tanto na economia quanto na promoção dos chamados Direitos Humanos (mais abrangentes e de cunho universal, como a igualdade de gênero, por exemplo e na garantir dos Direitos Civis (menos abrangentes; são garantias específicas ao cidadão de cada sociedade, como exemplificado no caso da Lei Maria da Penha, no Brasil, que protege as mulheres contra agressões físicas e psicológicas). Na economia, o pressuposto dessa vertente do pensamento “de esquerda” é a intervenção estatal para regular o mercado (capitalista), distribuindo renda e evitando abusos do poder econômico. Até certo é isso mesmo o que acontece, e também o que deve acontecer, e até por isso, o Estado é tão combatido pelas elites capitalistas, notadamente a conservadora e, mais ainda, a reacionária e autoritária.

Vale, aqui, brevemente, ao menos a lembrança de autores como o Historiador francês Fernand Braudel (1902-1985) que mostrou a improcedência de ligar as práticas capitalistas à própria existência do mercado, posto o fato de que, em seus estudos sobre o antigo mundo mediterrâneo, Braudel comprovou que o que chamamos de “mercado” é uma instância social prévia ao capitalismo e que, aqui é uma conclusão minha, existirá bem depois do fim do capitalismo, enquanto sistema social de produção dominante. Um erro histórico das esquerdas, deste ponto de vista, foi ter aceitado a transformação de capitalismo e mercado como sinônimos, demonizando ambos, tanto quanto nunca deveríamos ter aceitado que o Estado a tudo responde – como, aliás, já o comprovou um dos maiores entusiastas do mercado capitalista, que foi Karl Marx (1818-1883), muito embora a admiração deste autor, que gostava das ideias de Adam Smith (1723-1790) e de David Ricardo (1772-1823), ambos teóricos dos primórdios do capitalismo, ao dizer que sim, o Estado deveria acabar, assim que sua fase superior emergisse, o comunismo, após o livre e amplo desenvolvimento do modo de produção capitalista.

 

Contudo, ser “de esquerda” é apenas defender o Estado como gerente melhorado do sistema capitalista? Não, não é. Na rinha política, é usual falarmos sobre a existência de “pobres de direita”. Esse ornitorrinco político existe? Sim, existe. Deveria existir? Por si mesma, essa ideia não é de todo desprovida de possibilidade semântica e política. O problema está um tanto deslocado; o problema está no fato de que, com todo direito existencial de serem “de direita”, pessoas que não são ricas, pobres ou da classe média (média média, média alta e média baixa) não se apercebem do quão exploradas são no seu dia a dia e não se dão conta de que o mundo não é “natural e imutavelmente” injusto, sendo o mundo humano deste modo porque assim o fizemos e o mantemos. Além disso, o sentimento de empatia e não de indiferença, em relação ao outro, que nunca foi lá muito grande, parece estar em coma, na UTI do hospital das bondades humanas. Como disse o filósofo brasileiro Leonardo Boff, ninguém simplesmente é pobre, é empobrecido pelos sistemas sociais, ao longo da História o que, na Modernidade Histórica, significa dizer, pelo Capitalismo. Por esta razão, penso que “pobre de direita” é, no geral e conceitualmente, uma contradição conceitual e um nonsense político-ideológico.

Uma pergunta recorrente, e possível, a partir daqui, é: então, o que é o Estado, em um sistema de organização social de esquerda? E, mais importante, independente do Estado, outra vez mais, o que é ser “de esquerda”?

Segundo a bióloga e neurocientista brasileira Suzana Herculano-Houzel, uma ferramenta é mais do que um instrumento para interagir com um objeto; uma ferramenta é um artefato que traz embutido em si, a significância maior de interação com os objetos, para alcançar uma segunda ação. Exemplo da bióloga: um martelo não é feito, em princípio, para bater numa parede (1ª ação), mas para pregar um prego nesta parede (2ª ação). Uma ferramenta não é algo etéreo ou um capricho humano, é a expressão concreta de que é possível, simbólica e materialmente falando, intervir em uma realidade, transformando-a, social, filosófica, cultural, política, histórica, sociológica e geograficamente.

Uma das ferramentas políticas e filosóficas mais poderosas é a que atende pelo nome de “Ideologia” – hoje em dia, infelizmente, uma palavra muito desgastada, mas sem dúvida, um bom artefato simbólico-cultural humano, fundamental para a vida em sociedade e esta é uma realidade só negada pelos que desejam conformidade de pensamento e de ações (tudo ditado e realizado sob sua supervisão, claro). O filósofo argentino Eliseo Verón (1935-2014) afirmava, em uma definição com a qual concordo plenamente, que uma ideologia não é, apenas (embora também o seja) um repertório de conteúdos operacionais (concretos e simbólicos), senão, também, mas sobretudo, uma espécie de gramática filosófica e política para o engendramento universal de (novos) sentidos sociais.

A palavra “apologético” vem do grego antigo e significa “defesa, resposta formal, justificativa, prova de veracidade”. Farei a minha apologia, como acréscimo a tudo o que trouxe até aqui, como argumento sobre o sistema democrático e sobre as esquerdas – prefiro escrever no plural por conta da variedade de percepções, mesmo dentre deste campo político-ideológico. Não desejo, de modo algum, lançar mão de argumentos por demais apologéticos, mas sim, há princípios e valores que defendo, com firmeza, mas com convicção. Como dizia o médico comunista argentino e figura fundamental na Revolução Cubana, Ernesto “Che” Guevara de La Serna (1928-1967), há que endurecer, mas perder a ternura, jamais.

Estado, não como unidade federativa, mas como poder público, é um ente jurídico-político que, institucionalmente, segue uma lei maior, a Constituição, para regular a vida social em todos os seus aspectos, de modo laico e universal, organizando as relações entre os cidadãos, os grupos sociais, as empresas e os órgãos públicos. Um “Estado de Esquerda” é aquele que cumpre esta função, não apenas garantindo direitos e deveres para os grupos privilegiados, com capital e poder político, mas para todos os cidadãos, nem digo de modo igualitário (seria ideal), mas razoavelmente equilibrado, o que faz com que todos, ou a maior parte, tenha uma vida digna. O Estado que não garante um mínimo de vida satisfatória para todos, ou para maior parte de seus cidadãos, não é um Estado Democrático de Direito.

Isto posto, fecho este ensaio com uma resposta sobre o que é ser “de esquerda” e por me ufano desta minha filiação político-ideológica. Ser de esquerda é lutar pelo equilíbrio de poder político e econômico no seio das sociedades; é sobrepor o bem comum ao bem particular, naquilo que é essencial para o bem viver; é propor e dar apoio às políticas públicas que sejam universais. Ser de esquerda é amar a vida humana, qualquer vida, e não apenas a vida de seus familiares e meia dúzia de amigos e aliados.

Ser de esquerda é considerar que há certos bens simbólicos, certos valores culturais e certo princípios vitais, que podemos chamar de “humanos” que são coletivos, ou seja, que todos têm direito a eles para viver de modo digno, confortável e seguro e que não podem ser privilégio de uns poucos abastados, pela genética ou por terem se locupletado indevidamente do erário público e, pior, de outras pessoas e grupos sociais, para monopolizarem as boas criações humanas que dão segurança e estabilidade para a e na vida; que ofertam conforto e prazer. Isso é um direito de todo ser humano no planeta e não apenas um privilégio de quem é mais rico. Lutar por essas questões é ser progressista, tenha a ideologia que tiver, porém, como disse anteriormente, como a maioria dos progressistas está no campo político-ideológico da esquerda, lutar por essas questões é ser “de esquerda”.

O saber humano é um bem coletivo e universal, é uma construção histórica e geográfica da humanidade que não pertence a ninguém, especificamente, pertence a todos nós, de todas as gerações, de todas as culturas, etnias, religiões, gêneros e sociedades e não pode ficar, outra vez mais, para frisar, reservado a quem tem condições de pagar por (muito) boas escolas, por bons planos de saúdde. Todos têm direito a ficar vivos e não apenas quem pode pagar por um bom hospital. O conhecimento humano, a segurança, um transporte seguro, viver em locais de moradia com acesso à água tratada e saneamento e arborizado… tudo isso, e mais algumas coisas, são direitos básicos da vida humana e nada disse deveria ser apropriado pelo grande capital para a obtenção de lucros. Lucros sobre a vida? Lucros extraídos do suor de quem trabalha e mal recebe migalhas? Não, não é justo.

Esses fatores de boa vida são, têm que ser, de todos os seres vivos no planeta e quem pode garantir esta universalização não é um mercado capitalista que visa ao lucro, mas o Estado e, em um futuro distante, admito, mas espero sinceramente, tais fatores virão a ser garantidos por uma auto-gestão e auto-organização das sociedades. Eis a boa Anarquia em ação. Outras coisas são da ordem do privado. Quem quer velejar em um veleiro de luxo, que não é absolutamente, e nem de longe, essencial para o bem viver, que trabalhe e compre um veleiro, isso não precisa ser garantido, pois é algo supérfluo. Coisas como essas não são essenciais à vida, estes são bens particulares e quem quiser e puder que os compre. Todos podem viver sem ter um helicóptero, mas nem todos podem viver se não conseguir por na mesa, no mínimo, três refeições diárias – e que sejam boas, em termos nutricionais, também de pouco adianta comer apenas feijão com farinha (ou terra!) três vezes ao dia.

Quais sentidos sociais alguém que é “de esquerda” elabora/defende/dissemina/constrói/reconstrói? Qual o sentido em alguém ser “de esquerda”? As respostas são várias e variadas, tantas quantas cabeças houver pensando nesta questão e sentindo a pulsão freudiana, podemos assim classificá-la, de uma vida mais dinâmica e harmônica. Mas… bem… vamos lá, agora, brevemente.

Além de tudo o que expus e argumentei até aqui, quem é de esquerda sente orgulho desta opção voluntária pela boa vida, como diriam os gregos antigos, porém, entende que uma vida, no geral, só pode ser boa se o for para toda vida no planeta, aqui, incluindo vegetais e animais, além de nós mesmos, animais que se acham racionais, mas vêm comprovando, dia a dia, que talvez não sejam tão racionais quanto pensamos. Ser de esquerda é um, por assim dizer, “estado de espírito” mágico que vê na cooperação e não na mera competição (embora não a exclua de tudo e de todos), o fulcro para o desenvolvimento social em todos os seus aspectos e para todos os cidadãos e não apenas para os já privilegiados e a essência da motivação que nos leva a, conhecendo o caminho para o bem viver coletivo, percorrê-lo. Ser de esquerda é perceber que o outro não é um papel celofane nem um saco de batatas ao meu dispor, mas alguém que sente, que chora, que ri, que ama, com come, que precisa se deslocar, que tem desejos e aspirações… enfim, que é alguém como eu mesmo, embora diferente e que essa diversidade é linda, desejável e incentivável. Ser de esquerda é uma corrente de sentimento e de pensamento social e político que me orgulha e pela qual, cerro fileiras!

Por esses todos esses sentimentos e razões, ser de esquerda é, no meu entender, e para tentar sintetizar em uma única frase, ser, na melhor acepção da palavra, um ser humano, na maior medida do possível, gentil, fraterno, ético, honesto e solidário. E aqui, incluindo os demais progressistas, fora das esquerdas, aos quais aludi no início deste ensaio, ao meu juízo, o mais, é paisagem de crise climática.

 

Carlos Fernando Galvão,
Geógrafo, Doutor em Ciências Sociais e Pós Doutor em Geografia Humana


cfgalvao@terra.com.br

@cfgalvao54

Author

Carlos Fernando Gomes Galvão de Queirós é carioca, Bacharel e Licenciado em Geografia (UFF), Especialista em Gestão Escolar (UFJF), Mestre em Ciência da Informação (UFRJ/CNPq), Doutor em Ciências Sociais (UERJ) e Pós Doutor em Geografia Humana (UFF). Autor de mais de 160 artigos, entre textos científicos e jornalísticos, tendo escrito para periódicos como O Globo, Jornal do Brasil, Folha de São Paulo e Le Monde Diplomatique Brasil, também foi colaborador do Portal Acadêmico da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp) entre 2015 e 2018. Atualmente, escreve com alguma regularidade no Portal ArteCult. É autor, igualmente, de 14 livros.

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