Existe uma “Democracia de esquerda” e outra “de direita”? – parte I
A Geografia das percepções existenciais

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A gente não pode impedir o mundo de ser mau, mas temos que tentar. Frase da série “Yellowstone”
Aporofobia é um conceito elaborado pela filósofa espanhola Adela Cortina para descrever a aversão aos pobres; a palavra vem do grego antigo “a-poros = sem recursos” e vale para pessoas, grupos e instituições. Pobres podem ser, mais ou menos conscientemente de esquerda ou de direita ou, pelo menos, podem, por suas posições ou, ainda melhor, por suas ações, ser classificados como próximos a este ou àquele campo político. Rico, palavra cuja origem remonta ao gótico antigo (língua falada por povos germânicos, como os Godos e Visigodos), vem de “reiks” e quer dizer “poderoso; forte”.
Uma pessoa rica também pode ser de esquerda ou de direita, embora aqui, neste grupamento social, os que são, efetivamente, de esquerda, sejam amplamente minoritários. Deste modo já começamos a perceber que a ideia, tão disseminada por todo século XX e recorrente neste século XXI, qual seja, a de que, quem segue uma ideologia de esquerda tem que ser pobre e quem segue a direita é, obrigatoriamente, alguém de posses, é, no mínimo, parcial. Essa ideia é, também, ilusória, porque serviu, como serve, para mascarar o que propomos nós, progressistas de esquerda (socialistas, comunistas e anarquistas), de centro, de centro direita, de centro esquerda (social-democratas) e de direita e de centro direita (liberais não conservadores, liberais na economia). O que propõe esse povo todo, tão ideologicamente diferente?
Ao contrário do que reza o senso comum, há progressistas em todos os campos políticos (embora haja mais nas esquerdas) e por esta razão, podemos, nos entender quanto às percepções e propostas comuns e, ainda assim, respeitarmos nossas diferenças. Apenas os extremistas, os alienados, os mal intencionados e os que se locupletam com o caos não admitem esta ideia. A estes últimos, interessa manter acirradas divisões e uma espécie de “guerra civil permanente”. A nós, progressistas (Anarquista, no meu caso), interessa a construção de uma sociedade justa, fraterna, respeitosa e só uma Democracia verdadeira e não apenas de fachada ou que se reduza a (apenas) realizar eleições, importantes, mas insuficientes para que um país seja tido como “democrático”, pode conseguir isso.
Rápida, mas importante ressalva: Anarquia (pacífica), do grego antigo “a-arkhé”, etimologicamente, quer dizer “sem chefe, sem líder”. É, isto posto, um sistema de organização social de auto-gestão da riqueza e do poder, não é uma sociedade onde impera a bagunça, o caos e onde vence o mais forte, como nossos detratores insistem em dizer, distorcendo, maldosamente, o que somos. Essa desordem sistêmtica chama-se “anomia”, do grego antigo “a-nomos” = sem lei), embora também possa ser chamado de “capitalismo (selvagem)” ou, mais modernamente, “neoliberalismo”.
Retomando o raciocínio, se há pontos em comum entre progressistas e conservadores (porém, não reacionários, e os há, e devem ser respeitados em sua vontade e ponto de vista que, se não for imposta a quem deles discorda, é tão legítima quanto a nossa, das esquerdas) não há porque não considerarmos que podemos conseguir, após intensos, não obstante, respeitosos e fraternos diálogos e trocas de ideias, estabelecermos acordos para um convívio social saudável e pacífico. Nos costumes, por exemplo, socialistas e liberais, se compuserem o espectro progressista, poderão lutar, juntos, pelo respeito à diversidade sexual e no trabalho. Comunistas e conservadores, poderão estabelecer um convívio que os leve a acordar que a proteção ao meio ambiente e a defesa nacional são valores a serem preservados. Ainda que difiram nos métodos, e diferem, o objetivo em comum e pode levar a saudáveis acordos procedimentais, no mínimo. Na prática, difícil, porque a maioria, de um lado e outro, não raro, desafortunadamente, não só não se esforça para o estabelecimento de acordos, como ainda sabota aqueles que tentar fazer isso. Difícil um acordo entre esses grupos eu sei, mas… sim, eu acredito nisso. E sempre que isso não for possível, temos ódio, violência e conflitos vários; no limite, temos a guerra, pura e simplesmente. Sou da paz. E você?
Tudo considerado até aqui, retomo a indagação que intitula este breve ensaio: “existe uma Democracia de esquerda” e uma “de direita”? Em primeiro lugar, vamos para a etimologia da palavra. Democracia vem do grego antigo, como é mais do que conhecido “demos é povo; kratos é governo”, então, Democracia é o governo do povo (e não apenas do povo dono de bancos, de fazendas e de grandes empresas). E não há, nesta origem, diferenciação de ideologia, conceito, aliás, da Modernidade, do século XVIII para cá e não da época de Péricles, regente de Atenas entre 461 a.C. e 429 a.C., onde tudo começou. Em segundo lugar, se me fiz convincente em meus argumentos até aqui, uma Democracia real, estrutural e legítima pressupõe a co-existência de todas as ideologias, de todos os credos, de todas as culturas e de todos os povos o que, no campo da política, implica em dizer que Democracia é um conceito que abarca esquerda, centro esquerda, centro direita e direita. Notem, apenas, que não inclui os extremos, porque estes partem do pressup osto da intolerância com o outro, o que não é democrático, e esta é, talvez, a única intolerância que devemos admitir: contra a própria intolerância. O intolerante é inimigo da paz, da harmonia, do diálogo e dos acordos. A Democracia é frágil para se proteger dos intolerantes, por isso é a luta é permanente.
Assim, não existe uma “Democracia de esquerda” e outra, “de direita”. Existe apenas Democracia e quem a ameaçar, quem se puser no campo da intolerância ao outro, ao diverso, tal como nos disse (parodiando) o Filósofo anarquista francês Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865), é um usurpador e eu o declaro meu inimigo. O intolerante, que muitos conhecem, também, como reacionário, é nosso inimigo, não o toleremos e o combatamos, sempre. Os demais, progressistas de esquerda, de centro esquerda, de direita e de centro direita, além dos conservadores (de novo, que não sejam reacionários e intolerantes) que sejam bem vindos na construção de uma sociedade livre, justa, fraterna, respeitosa e, por isso mesmo, democrática.
A querida leitora e o prezado leitor podem estar se perguntando algo como “mas afinal, o que é ser de esquerda neste mundo da intolerância e do ódio em que estamos vivendo?”. Bem, sem ter a pretensão a ter a resposta universal e definitiva, na sequência deste ensaio, vou oferecer a vocês, a minha resposta, na esperança de podermos, fraternamente, dialogar. Não de doutriná-los ou de tentar lhes impor o que sinto e penso, mas de, mostrando a minha percepção de mundo e de sociedade e filosofia de vida, que sim, como expus anteriormente, é progressista, de esquerda e anarquista. A ideia é, pois, levá-los a refletir sobre a sua percepção de mundo e de sociedade e filosofia de vida, mostrando, quem sabe não dou sorte, novos caminhos ou, ao menos, novas formas de pensar ideias e práticas já conhecidas. Não quero convencê-los de que tenho a verdade absoluta dos fatos, mas sim, desejo trocar ideias, com carinho e respeito mútuo (o que pode acontecer mesmo que, aqui e ali, os interlocutores tenhamos discordâncias mais incisivas e algumas altercações, porque isso é natural em um debate – apenas não podemos deixar que o debate descambe para discussão).
Como ensinou a frase em epígrafe, o mundo não é mau ou bom, nós somos um ou outro. Qual você prefere ser? Outro mundo é possível se nós formos outros! Vamos conversar?
Carlos Fernando Galvão,
Geógrafo, Doutor em Ciências Sociais e Pós Doutor em Geografia Humana
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