Quando uma tia se vai

Coluna de Márcio Calixto

 

Quando uma tia se vai

 

Ao longo dessa coluna, de alguma forma eu tenho promovido a vida. Tenho comemorado aniversários, escrevendo crônicas como presente de aniversário (como estou duro, escrever tem sido um bom e barato presente e a galera depois não me cobra aquela lembrancinha física, ufa). Estávamos prontos para o aniversário de Popô, como é a forma com a qual se apelidou Luiz, meu sogro, pai postiço de minha esposa, mas pai efetivo. Pai mesmo. Avô mesmo. Alguém para se direcionar uma crônica. Ainda não a fiz. Mas o farei. Os sentimentos estão nublados pela partida de Tia Lucilene.

Uma das irmãs mais novas de minha sogra, que tem mais 3 irmãos. São todos Lucimar, Lucilene, Luciano e Luciene. Um quarteto que lembra a questão da lucidez, do conhecimento, de ideal de luz. Um gosto particular de Dona Marlene, a progenitora da prole. Tia Lucilene, no entanto, decidiu-se que era fundamental experimentar um limite para conquistar uma possibilidade, daí o fez e conseguiu, mas o resultado não fora o esperado. Passaremos a viver um mundo sem Lucilene. Quando nos acostumamos com os nossos, não queremos que partam. Queremos, de alguma maneira, aproveitar ao máximo sua estada. É o que vivo hoje com meus pais, com meus filhos e esposa, com aqueles com quem conclamo o desejo primordial de proximidade. Tia Lucilene decidiu-se testar uma possibilidade e não há nada que possamos fazer nesse momento a não ser vir ao reino da aceitação.

Reino longo, com ventos desérticos, poucas flores. Há várzeas com áreas desfolhadas e algumas outras alagadas. Uma vegetação por vezes sinistra, por vezes acolhedora, um reino a se desbravar de vez em quando, quando tomados pelo desejo de saudade, pelo escafandro da lucidez, pelo intermédio das quedas, pelo tropeço da foto no celular, pela tentativa básica do entendimento, que nunca será pleno. Tia Lucilene decidiu se descobrir um novo limite e não há nada que possamos fazer por se descobrir outros.

Houve, inclusive, aquele momento em que oramos. Pedimos aos nossos deuses, orixás, que sejam feitas as suas vontades, que também parecem ambíguas, porque Tia Lucilene decidiu testar-se. E continua que nada podemos fazer. Eu orei, tu oraste, todos oraram. Por ela ter decidido se invalidar, houve o seu desejo.

Durante alguma brevidade de tempo, pensei nos momentos em que me via desejoso do mesmo. A julgar haver mais validade na inexistência do que viver esse processo aqui, pensei no hiato covarde dessa desistência. Deixaria toda uma gama de responsabilidades que seriam rifadas aos próximos. Isso se levando em consideração o que hoje há. Não é de agora que penso em tal, mas hoje só celebro a vida e quero escrever pensando em Lucilene viva, aqui, persistindo, vendo o sucesso estrondoso de sua filha Catarine, que tanto sorri a felicidade de sua escolha. Penso em Sofia, minha filha, que cresce nesse mundo a olhos vistos e não quero perder por nada. Vejo um Calixto com 99 anos. Outro com dois anos.  O meu outro Calixtinho com nove e desenhando muito. Um primo, também Calixto, que já é avô. Vive fora do Brasil e tem um canal no youtube. A filha de uma prima que hoje escreve artigos maravilhosos sobre manipulação narrativa na contemporaneidade. Juro, quero perder nada. Se um dia pensei em me partir, hoje me visto no inteiro dessas rachaduras, que tanto colecionamos pela vida.

Mesmo indo, quero Tia Lucilene na persistência da vida. Agora vai viver a eternidade de nossos pensamentos, de nossas saudades, na escritura desse texto. Essa crônica é para você, Lucilene. Preciso te dizer que escrevo à vida e que sempre estará viva em cada um de nós.

Um beijo e até a próxima.

 

MÁRCIO CALIXTO
Professor e Escritor

Márcio Calixto | Foto: Divulgação

 


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Author

Professor e escritor. Lançou em 2013 seu primeiro romance, A Árvore que Chora Milagres, pela editora Multifoco. Participou do grupo literário Bagatelas, responsável por uma revolução na internet na primeira década do século XXI, e das oficinas literárias de Antônio Torres na UERJ, com quem aprendeu a arte de “rabiscar papel”. Criou junto com amigos da faculdade o Trema Literatura. Tem como prática cotidiana escrever uma página e ler dez. Pai de 3 filhos, convicto carioca suburbano bibliófilo residente em Jacarepaguá. Um subúrbio de samba, blues e Heavy Metal. Foi primeiro do desenho e agora é das palavras, com as quais gosta de pintar histórias.