AC RETRÔ – Shazan, Xerife & Cia – A dupla que não está no gibi ficou na memória da TV

Shazan, Xerife & Cia. – Imagem melhorada por IA

Uma viagem pelas lembranças de uma geração que acompanhou as aventuras de Shazan e Xerife e sonhou em dar uma voltinha na famosa camicleta 

Por Jorge Ventura

 

Quando um personagem, protagonista ou não, ganha mais destaque do que a própria obra na qual está inserido, ocorre um natural e inevitável redimensionamento de sua importância na trama, o que, geralmente, resulta em continuidades ou adaptações. Em alguns casos, passa a ser o foco central da história a ponto de dar nome à obra em substituição ao título original. 

O Corcunda de Notre Dame, por exemplo, se transformou, ao longo de várias reedições do romance, além das versões para filmes e animações, no personagem-título de Victor Hugo, no lugar de Notre-Dame de Paris.

O Chapeleiro Louco (ou Maluco, conforme a tradução), um dos personagens-destaque do livro Alice no País das Maravilhas, saltou das páginas encantadas de Lewis Carrol e seguiu viagem para outras versões, servindo, inclusive, de inspiração na cultura pop para o vilão do universo Batman. 

No entanto, isso não acontece apenas nos clássicos da literatura e do cinema. Às vezes, na teledramaturgia, as releituras e reinvenções de personagens fazem um enorme sucesso. No Brasil, tivemos tipos e personagens tão marcantes que ganharam uma espécie de audiência particular devido ao carisma e à popularidade da persona.  Podemos citar Odorico Paraguaçu, protagonista da telenovela adaptada da peça teatral Odorico, o Bem-Amado, de Dias Gomes. A obra, em sua versão televisiva, reuniu um elenco de primeira grandeza, mas foi a magistral interpretação do ator Paulo Gracindo, na pele do prefeito Odorico, que mais chamou a atenção dos telespectadores. 

O Bem Amado – Seriado – Foto: Acervo/Globo

O Bem-Amado foi um grande marco na TV brasileira porque foi a primeira telenovela a ser transmitida em cores, de 22 de janeiro a 3 de outubro de 1973, somando 178 capítulos. Apesar da figura do prefeito demagogo e corrupto, que exagerava em seus discursos apelativos e verborrágicos, o personagem caiu nas graças do público, que o via como uma cópia fiel e bem-humorada dos coronéis e dos políticos das cidades do interior. Pois bem. O Bem-Amado se transformou em série na própria TV Globo, sendo exibida de 22 de abril de 1980 a 9 de novembro e 1984, totalizando 96 episódios em 5 temporadas.  

Mário Fofoca – Luis Gustavo em Elas por Elas – Foto: Globo

Mário Fofoca, personagem cômico criado pelo teledramaturgo Cassiano Gabus Mendes para Elas por Elas, transmitida em 1982, só iria aparecer nos primeiros capítulos da telenovela e morrer logo no começo da trama. Porém, o carisma do personagem, aliado ao talento do ator Luís Gustavo, fez com que ele se tornasse a sensação da história. Mário Fofoca era um detetive desajeitado, caricato, que se vestia de forma extravagante (um terno xadrez e uma gravata chamativa) e tinha vários tiques nervosos. Entre uma trapalhada e outra, Mário dava palpites errados, mas acabava, ao final, descobrindo a verdade e resolvendo os casos. Sua performance foi tão bem recebida pelo público que Mário Fofoca ganhou, no ano seguinte, uma série (Mário Fofoca) e um filme (As Aventuras de Mário Fofoca). O personagem retornou no remake da telenovela Ti Ti Ti, em 2010, dessa vez, escrita por Maria Adelaide Amaral. Ao trazer o detetive cômico de volta à telinha, a autora prestou uma homenagem a Cassiano Gabus Mendes, criador da versão original. Antes, em 1996, Mário Fofoca havia ressurgido em um episódio do humorístico Sai de Baixo, no qual o ator Luís Gustavo teve a oportunidade de viver dois personagens, o Vavá e o detetive trapalhão. Em 2023, no reboot de Elas por Elas, o ator Lázaro Ramos foi convocado para interpretar o personagem no lugar de Luís Gustavo.

Kika (Clarice Piovesan) e Xuxu (Stênio Garcia) – Foto: Nelson Di Rago/Globo

Entretanto, nem todo spin-off dá certo. Podemos mencionar a série Kika & Xuxu, com os atores Clarice Piovesan e Stênio Garcia – na época, casados na vida real –, adaptada de um quadro de humor do programa Planeta dos Homens (de 1976 a 1982), da TV Globo. Eles fizeram muito sucesso no programa. A série, porém, dirigida a um público infantojuvenil, não alcançou bons índices de audiência, ficando no ar apenas quatro meses, sendo cancelada em julho de 1978, com 29 episódios. Kika (Clarice) e Xuxu (Stênio) – na verdade, esses nomes eram os apelidos deles quando se tratavam intimamente – formavam um casal que se completava pelas personalidades diferentes de cada qual. Ela era uma mulher sensualíssima e apaixonadíssima pelo marido Xuxu, que virava e mexia, aparecia sempre com uma camisolinha sexy, ostentando seu belo corpo, e que se insinuava ao pedir alguma coisa a ele, com o bordão: “– Xuxu, apaga… a luz!”. E Xuxu, o marido pacato, vivia a priorizar as coisas mais triviais, como consertar uma torneira, um chuveiro ou lavar o carro, para satisfazer as vontades da mulher. O elenco da série variava de acordo com o episódio da semana. E as histórias eram ambientadas em épocas diversas e em universos reais e irreais, como a Era Vitoriana, a Idade da Pedra, o espaço lunar, além de satirizarem personagens da literatura universal, como Sherlock Holmes, do escritor Sir Arthur Conan Doyle.  

Neste artigo, especialmente, eu jogo luz no primeiro spin-off da teledramaturgia brasileira que foi o seriado Shazan, Xerife & Cia., originado da telenovela escrita por Walther Negrão, O Primeiro Amor (exibida entre 1972 e 1973 e transmitida pela TV Globo).  O mais curioso é que essa telenovela ficou marcada pela morte repentina do ator Sérgio Cardoso, que interpretava o professor Luciano Lima, protagonista que fazia um par romântico com a governanta Paula, personagem interpretada pela atriz Rosamaria Murtinho. Sérgio Cardoso, um nome expoente no teatro, cinema e TV, foi vítima de ataque cardíaco a apenas 28 capítulos antes do desfecho da trama. O ator Leonardo Villar o substituiu no papel do professor Luciano.

Os personagens Shazan – apelido de Hércules, interpretado por Paulo José – e Xerife – apelido de Jetárcere, interpretado por Flávio Migliaccio – eram os coadjuvantes mais carismáticos de O Primeiro Amor. No enredo, eles eram amigos de infância e trabalhavam juntos numa oficina de bicicletas, na cidade fictícia de Nova Esperança. Shazan era filho de Seu Quim (Sadi Cabral) e de dona Júlia (Elza Gomes). Xerife era irmão de Astúria (Zezé Macedo). Ambos formavam uma dupla de mecânicos inventores, bem trapalhões, que criavam objetos e peças estranhos, tendo como a maior invenção a famosa camicleta – um veículo híbrido e totalmente customizado, cujo nome caracterizava a mistura de caminhão e bicicleta, e que servia de casa e oficina ambulante para a alegria da criançada.

Shazan, Xerife & Cia.

Shazan tinha seu nome grafado com “n” no final, em vez de “m”, que seria o correto, pois, nas HQs, refere-se à inicial do deus Mercúrio. Ele vestia um macacão de mecânico, tipo jardineira, e era embalado pelo tema musical composto pelo duo Antonio Carlos e Jocafi, reverenciado nos versos da canção: Ei, Shazam! Herói de revista em quadrinhos… Ei, Shazam! Valete de espadas do amor/ Ei, Ei! / Ei, Shazam, aprendi a sorrir com você/ Nada sei, o que sei foi você que ensinou/ Escapei por milagre, você me ajudou/ Do perigo você me salvou/ Ei, Shazam, meu herói é você/ Ei, Shazam, é que a vida lhe fez professor/ Com você é que o mundo precisa aprender/ As matérias que todos deviam saber/ Pois você tem diploma de amor/ Ei, Shazam, meu herói é você… 

Já o personagem Xerife usava uma toca de meia na cabeça e não conseguia pronunciar direito o apelido do amigo. Às vezes, ele o chamava de “Sazá”, noutras, de “Sazan”, entre tantas tentativas malsucedidas. A canção Perambulando, outro tema composto pelo duo Antonio Carlos e Jocafi, na trilha sonora original da telenovela, gravada pelos Golden Boys, era associada a ele: Perambulando, peram, perambulando… 

Todos esses ingredientes compunham a receita de sucesso junto ao público infantojuvenil. Crianças da minha geração torciam para eles como dois heróis de verdade. Houve, inclusive, um episódio em que a dupla enfrentou a turma de alunos rebeldes, desajustados e baderneiros, liderada pelo motoqueiro Rafa (interpretado por Marcos Paulo), que tumultuava o ambiente escolar e incomodava os outros estudantes.

Shazan e Xerife se tornaram tão populares que, ao ganharam o seriado Shazan, Xerife & Cia, passaram a conquistar um público ainda maior, sempre a bordo da camicleta – veículo exótico projetado pelo cenógrafo Stoessel Candido da Silva e incrementado com algumas ideias do próprios atores Paulo José e Flávio Migliaccio, como a de um chuveiro e um sino acoplados, e a de uma foto de Santos Dumont, no fundo da cabine de direção, numa homenagem ao famoso inventor brasileiro. 

Shazan, Xerife & Cia.

Segundo fontes de pesquisa, o seriado foi exibido em duas fases: a primeira, no período de 26 de outubro de 1972 a 29 de março de 1973, em 23 episódios semanais, todas as quintas-feiras, após a transmissão das telenovelas Selva de Pedra e Cavalo de Aço; a segunda, no período de 9 de abril a 28 de dezembro de 1973, em cerca de 189 episódios diários, no horário das 18h, no lugar da telenovela A Patota. De 31 de dezembro de 1973 a 1 de março de 1974, o seriado foi reprisado até ser sucedido, na grade de programação da TV Globo, pela sessão Faixa Nobre. 

Os episódios de Shazan, Xerife e Cia. eram marcados por aventuras ora divertidas, ora detetivescas, pontuadas por ação e entretenimento, levando-se em conta que a função dramática era baseada nas confusões em que os protagonistas se envolviam nos lugares por onde passavam. Dinheiro perigoso, A pedra maldita, S.O.S. Rádio Jururu, Perigo sob a lona e A bicicleta voadora foram episódios que fizeram parte da fase diária. Aliás, os mecânicos inventores tinham como objetivo – ideia fixa – encontrar uma peça mágica para a construção de uma bicicleta voadora, conforme era mostrado em desenho animado logo na abertura do programa. 

O escritor Walther Negrão, em 1998, comemorou os 25 anos dos dois personagens principais, convidando Paulo José e Flávio Migliaccio para reviverem Shazan e Xerife na telenovela Era uma vez…, de sua autoria. E, em 2022, a cinemateca de Curitiba lançou uma edição ampliada do livro Camicleta – Manual dos Proprietários, de Saulo Adami, uma obra indispensável, com fotos raríssimas e depoimentos exclusivos, sobre os bastidores do seriado.

Como já sabido, a camicleta, de aspecto circense, era a sensação da garotada, e todo mundo queria, pelo menos uma vez, pegar uma carona nesse veículo mirabolante. Pois eu vou contar um segredinho de infância. Eu já tive a oportunidade de entrar na camicleta, mas, na época, infelizmente, não havia nenhum celular para registrar a foto. Como isso aconteceu? Dentro do fusquinha do meu pai, a caminho do Professorado Campestre Clube, do qual ele era sócio remido, cruzamos com a camicleta entre a estrada Rio Grande e Pau da Fome, em Jacarepaguá. Não sei dizer quem era o motorista que a conduzia – talvez um funcionário da emissora que fazia parte da produção do seriado –, mas eu pedi a ele para me deixar entrar na camicleta, e a permissão foi concedida. Nessa ocasião, a Globo ainda não dispunha do Projac e utilizava muito as áreas rurais e os terrenos descampados da região de Jacarepaguá para montagem de cenários e gravações de telenovelas e minisséries.   

Ah, tempo bom! Quem se lembra?

 

SOBRE JORGE VENTURA

Jorge Ventura é escritor, roteirista, editor, ator, jornalista e publicitário. Tem 14 livros publicados e participa de dezenas de coletâneas nacionais e estrangeiras. É presidente da APPERJ (Associação Profissional de Poetas no Estado do Rio de Janeiro), titular do Pen Clube do Brasil, membro da UBE – RJ (União Brasileira de Escritores) e um dos integrantes do grupo Poesia Simplesmente. Recebeu diversos prêmios, nacionais e internacionais, como autor e intérprete. Tem poemas vertidos para os idiomas inglês, francês, espanhol, italiano e grego. É também sócio-proprietário da Ventura Editora, CQI Editora e da Editora Iniciatta. Jorge é colunista do ArteCult, responsável pelo AC RETRÔ.
E, agora vocês já sabem… Uma das maiores referências no Brasil sobre o universo Batman.

Instagram @jorgeventura4758

SOBRE O AC RETRÔ

Prepare-se para embarcar em uma viagem no tempo! O AC RETRÔ é um espaço dedicado à nostalgia, à memorabilia, ao colecionismo, relembrando também aquelas propagandas icônicas da TV, telenovelas, anúncios inesquecíveis das revistas e jornais, programas que marcaram época e filmes que nos transportam diretamente para tempos dourados! ️

Aqui, cada post será um convite para reviver memórias, despertar emoções e compartilhar as lembranças que moldaram gerações.

Se você sente saudade de jingles que não saíam da cabeça, comerciais que viraram clássicos, seriados que marcaram a infância ou até mesmo daquele filme que você alugava na videolocadora todo fim de semana, então o AC RETRÔ será o seu novo ponto de encontro. Afinal, recordar é mais do que viver: é reconectar-se com o que nos fez sorrir, sonhar e se emocionar. Fique ligado, porque essa viagem ao passado JÁ COMEÇOU! ✨

 

Author

Jorge Ventura é escritor, roteirista, editor, ator, jornalista e publicitário. Tem 14 livros publicados e participa de dezenas de coletâneas nacionais e estrangeiras. É presidente da APPERJ (Associação Profissional de Poetas no Estado do Rio de Janeiro), titular do Pen Clube do Brasil, membro da UBE – RJ (União Brasileira de Escritores) e um dos integrantes do grupo Poesia Simplesmente. Recebeu diversos prêmios, nacionais e internacionais, como autor e intérprete. Tem poemas vertidos para os idiomas inglês, francês, espanhol, italiano e grego. É também sócio-proprietário da Ventura Editora, CQI Editora e da Editora Iniciatta. Jorge é colunista do ArteCult, responsável pelo AC RETRÔ. E, agora vocês já sabem... Uma das maiores referências no Brasil sobre o universo Batman. Instagram @jorgeventura4758

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