Corrida maluca: Personagens icônicos e suas máquinas maravilhosas
Uma viagem nostálgica pelo universo de Corrida Maluca, relembrando os personagens inesquecíveis e as máquinas que fizeram história nas telas
Por Jorge Ventura
Esta é a quarta vez que dedico um artigo para falar do universo de Hanna-Barbera. Mas confesso que era essa a minha intenção de destacar algumas produções que, a meu ver, se tornaram antológicas, como exemplo, Jonny Quest, Os Flintstones, Os Jetsons, Scooby-Doo e… Corrida maluca! Sim, a Corrida maluca. Um desenho animado que nos apresentou um desfile de personagens icônicos, todos pilotos encantadores de carros fantásticos, divertidos, coloridos, possantes e surrealistas que disputavam corridas mais surrealistas ainda. Cada piloto tinha uma personalidade marcante, assim como os seus carros correspondentes, batizados de acordo com as características mecânicas e estéticas específicas.
Para reavivar a memória dos meus leitores, deixo aqui a lista completa. Será que alguém esqueceu? Vamos lá! Por incrível que pareça, a contagem dos 11 motores começa justamente com o carro do único vilão do desenho, o carismático, trapaceiro e atrapalhado piloto Dick Vigarista, que, acompanhado do seu cão parceiro Mutley (na grafia original, Muttley), dirigia o carro de número 00 – A Máquina do Mal; o carro 1, chamado de Carro de Pedra, era guiado pelos Irmãos Rocha; o Carro 2 era o Cupê Mal-Assombrado, tendo, à frente do volante, os Irmãos Pavor (Dupla Sinistra); o carro 3, do engenhoso professor Aéreo, era o Carro Cheio de Truques / Carro Conversível (ou Carro de Mil e Uma Utilidades); o carro 4 (ou seria um avião de combate?), batizado de Lata Voadora / Máquina Voadora (ou Carro da Primeira Guerra), pertencia ao Barão Vermelho; o carro de número 5 mais parecia um salão de beleza, era o Carro-Compacto (ou Carrinho pra Frente) da estilosa Penélope Charmosa; o carro 6, mais bélico, impossível, era o Carro-Tanque do Sargento Bombarda e Soldado Meekley; o carro de número 7 – como dizem os jovens de hoje – era sinistro: o Carro à Prova de Balas, um calhambeque estilo anos 1920 da Quadrilha de Morte; o oitavo carro veio direto do campo, a Carroça a Vapor, do Tio Tomás e do Urso Chorão; o carro 9 era do bonitão e galanteador, que vivia dando em cima da Penélope, o Peter Perfeito, que ficava a bordo do seu Carrão Aerodinâmico (ou Carro de Linhas Arrojadas) e, por fim, o carro de número 10 que era lenha pura, o Carro-Tronco, do Rufus Lenhador e do seu amigo castor Dentes-de-Serra.
- Corrida Maluca – Divulgação
- Corrida Maluca – Divulgação
- Corrida Maluca – Divulgação
- Corrida Maluca – Divulgação
- Corrida Maluca – Divulgação
- Corrida Maluca – Divulgação
- Corrida Maluca – Divulgação
Corrida maluca continua sendo aquele desenho animado que nós guardamos no coração. Quanto mais o tempo passa, mais sentimos saudade. O(a) leitor(a) não vai acreditar, mas eu torcia muuuito para a vitória do vilão Dick Vigarista e do sacana e cínico cão debochado Mutley. Primeiro, porque eu considerava o carro dele o mais bonito e o mais veloz em relação aos demais concorrentes. Amava também aquele chapelão bacana, os óculos de corredor apoiados na aba do chapelão e aquele roupão, tipo sobretudo, superelegante. Para mim, ele era o mais engraçado de todos, apesar de categorizá-lo de um “adorável efedepê”. Tenho certeza de que, se ele não perdesse tempo em querer trapacear, enganar ou prejudicar os demais corredores e apenas focasse na corrida, sairia campeão em várias oportunidades. Mas aí é que estava a grande mensagem por trás do entretenimento e da diversão. A vida é uma eterna competição, e nós, seres humanos, somos corredores entre os nossos próprios “semelhantes”. Temos, portanto, de estar preparados para enfrentar todo tipo de disputa: a cobiça, a inveja, o ego, a vaidade, a deslealdade, a truculência…
Bem, isso é papo para Freud. Voltarei a falar sobre esse megassucesso de Hanna-Barbera. Corrida maluca estreou em 14 de setembro de 1968 pela rede CBS, nos Estados Unidos. Foram apenas 34 episódios produzidos até janeiro de 1969, narrando as incríveis peripécias das 11 máquinas mirabolantes, de competidores excêntricos que visavam ao título de “volante mais biruta do mundo”. No Brasil, estreou em 1969, sendo exibido pela TV Tupi. A partir dos anos 1970 e 1980, foi reprisado por diversas emissoras, como TV Globo, TV Bandeirantes, TV Manchete, SBT e canais fechados. A série Corrida Maluca chegou a ser lançada em DVD, em 13 de março de 2014, no mercado brasileiro, nas versões legendada e dublada. Um ano antes, veja que interessante, mais precisamente em 17 de abril de 2013, a fabricante de automóveis Peugeot – por meio de uma campanha publicitária criada pela agência Young & Rubicam – produziu um comercial de TV, filmado na cidade espanhola de Valência, inserindo os personagens da Corrida em um universo real. O vídeo desse comercial se tornou um sucesso instantâneo no YouTube, somando mais do que 2 milhões de acessos.
O que talvez o leitor não saiba, e aqui vai uma novidade para muitos, é que a Corrida Maluca (Wacky Races) saiu de outra corrida, ou melhor dizendo, o desenho foi inspirado em um filme cômico norte-americano, intitulado A corrida do século (The Great Race), do produtor e diretor Blake Edwards – também responsável por Bonequinha de luxo, A Pantera cor-de-rosa e Victor ou Vitória? – lançado em 1965, portanto, três anos antes da série animada.

Cartaz do filme A Corrida do Século
E sendo o leitmotiv para a criação e o conceito do argumento da produção HB, não fica difícil imaginar que os tipos mais marcantes de Corrida Maluca foram extraídos do filme. O ator Jack Lemmon – que, por sinal, deu um show de interpretação, fazendo dois papéis na aventura – era o trapaceiro e maldoso Professor Fate, ao lado do seu assistente copiloto, o hilário ator Peter Falk (que, mais tarde, ficaria conhecido por interpretar o detetive Columbo, no seriado homônimo), na pele de Maximillian Meen (Max).
A atriz Natalie Wood viveu a bela, elegante, charmosa e feminista jornalista, a corredora Maggie Dubois, que usava roupas de tom rosa. Certamente, ela serviu de modelo para a criação de Penélope Charmosa, enquanto o galã e mocinho do filme, Toni Curtis, fez O Grande Leslie, o talentoso piloto, que influenciou diretamente na criação de Peter Perfeito.
Mas o(a) leitor(a) deve se perguntar: se o personagem Professor Fate, de Jack Lemmon, foi inspiração para o surgimento de Dick Vigarista, então foi do personagem Max, de Peter Falk, que nasceu o cão Mutley? Não, não teve nada a ver. Porque, na verdade, Black Edwards, ao dirigir Lemmon e Falk, queria homenagear outra dupla famosa do cinema: os comediantes O Gordo (Oliver Hardy) e O Magro (Stan Laurel). E a ideia funcionou. Lemmon e Falk atuaram em cenas engraçadíssimas, dignas de comédia pastelão. Como o Professor Fate e seu auxiliar Max, eles inventavam planos diabólicos para sabotar as apresentações do Grande Leslie (Curtis), mas acabavam se envolvendo em situações complicadas, perigosas e atrapalhadas, com direito a expressões faciais caricatas, a explosões, a quedas de bicicletas voadoras e de zepelins improvisados sobre galinheiros e currais, e até a guerra de bolos na cara. A trilha sonora de A corrida do século, que esteve sob a batuta do maestro Henry Mancini, contou com o tema instrumental “Push the button, Max”, uma marcha lenta e melancólica para pontuar as cenas de humor da dupla de antagonistas. Com efeito, a homenagem ao O Gordo e O Magro era algo evidente devido à cumplicidade existente entre o Professor Fate e Max.
No elenco principal do filme, havia ainda Ross Martin (como um segundo vilão no enredo, Rolfe Von Stuppe), Keenan Wynn (como Hezekiah), Arthur O´Connel (como Henry Goodbody), Vivian Vance (como Hester Goodbody) e Dorothy Provine (como Lily Olay). A corrida do século, que teve como centro da trama a corrida de automóveis realizada no início do século XX, entre Nova Iorque e Paris, recebeu, em 1966, a estatueta do Oscar na categoria de Melhor Edição de Som, sendo indicado também nas categorias de Melhor Fotografia, Melhor Montagem, Melhor Som e Melhor Canção. Esse longa, dirigido por Blake Edwards, foi indicado também para o Globo de Ouro, de 1966, nas categorias de Melhor Filme Musical/Comédia, Melhor Ator de Cinema Musical (ator Jack Lemmon), Melhor Trilha Sonora e Melhor Canção Original de Cinema.
De tão icônicos os personagens do desenho animado Corrida Maluca, alguns protagonizaram outras produções de Hanna-Barbera – spin-offs – como o caso de Penélope Charmosa e a Quadrilha de Morte, que estrelaram em Os Apuros de Penélope (1969), cuja trama era a perseguição do maquiavélico Tião Gavião à mocinha Penélope. Entretanto, ela era sempre salva pelos seus defensores gângsteres que compunham a Quadrilha de Morte. Dick Vigarista e Mutley, outros personagens que originaram outras animações, fizeram parte da Esquadrilha Abutre (1969). A missão deles era pegar o pombo-correio, mensageiro de planos secretos do exército inimigo, de modo a impedir o êxito da comunicação rival. O cão Mutley chegou até a ganhar um sósia na produção de Rabugento, o cão detetive (1976). O personagem tinha os mesmos traços e a mesma risada debochada do Mutley da Corrida Maluca, porém era de cor azul, usava um sobretudo e dirigia um carro lata-velha. Sua criação foi inspirada no detetive Columbo, interpretado por Peter Falk, e, por isso, sempre resolvia os casos com muita ironia. Nesse desenho, Rabugento recebia ordens do Chefe Sinuca, personagem inspirado em outro detetive famoso da TV, o Kojak, interpretado pelo ator Telly Savalas.
O design dos Irmãos Rocha, que dirigiam o Carro de Pedra – bem ao estilo da séria animada Os Flintstones – foi reutilizado no ano de 1977 para o personagem Capitão Caverna, em Capitão Caverna e As Panterinhas (Captain Caveman and the Teen Angels), outra produção de Hanna-Barbera, parodiando o seriado televisivo As Panteras. E para efeito de mais uma curiosidade, Os Irmãos Rocha foram os que mais venceram as provas da Corrida maluca, com 264 pontos (três vezes em primeiro lugar, oito vezes em segundo, e três, em terceiro), seguidos de Rufus Lenhador, com 243 pontos (três vezes em primeiro lugar, seis em segundo, e quatro, em terceiro) e a Quadrilha de Morte, com 220 pontos (quatro vezes em primeiro lugar, cinco vezes em segundo, e duas vezes em terceiro lugar).
Ah, tempos bom! Quem se lembra?
SOBRE JORGE VENTURA

Jorge Ventura é escritor, roteirista, editor, ator, jornalista e publicitário. Tem 13 livros publicados e participa de dezenas de coletâneas nacionais e estrangeiras. É presidente da APPERJ (Associação Profissional de Poetas no Estado do Rio de Janeiro), titular do Pen Clube do Brasil, membro da UBE – RJ (União Brasileira de Escritores) e um dos integrantes do grupo Poesia Simplesmente. Recebeu diversos prêmios, nacionais e internacionais, como autor e intérprete. Tem poemas vertidos para os idiomas inglês, francês, espanhol, italiano e grego. É também sócio-proprietário da Ventura Editora, CQI Editora e da Editora Iniciatta. Jorge é colunista do ArteCult, responsável pelo AC RETRÔ.
E, agora vocês já sabem… Uma das maiores referências no Brasil sobre o universo Batman.
Instagram
@jorgeventura4758

SOBRE O AC RETRÔ
Prepare-se para embarcar em uma viagem no tempo! O AC RETRÔ é um espaço dedicado à nostalgia, à memorabilia, ao colecionismo, relembrando também aquelas propagandas icônicas da TV, telenovelas, anúncios inesquecíveis das revistas e jornais, programas que marcaram época e filmes que nos transportam diretamente para tempos dourados! ️
Aqui, cada post será um convite para reviver memórias, despertar emoções e compartilhar as lembranças que moldaram gerações.
Se você sente saudade de jingles que não saíam da cabeça, comerciais que viraram clássicos, seriados que marcaram a infância ou até mesmo daquele filme que você alugava na videolocadora todo fim de semana, então o AC RETRÔ será o seu novo ponto de encontro. Afinal, recordar é mais do que viver: é reconectar-se com o que nos fez sorrir, sonhar e se emocionar. Fique ligado, porque essa viagem ao passado JÁ COMEÇOU! ✨





















Jorge querido, você não imagina o quanto eu amava assistir a corrida maluca! Era muito engraçado e divertido. Você trouxe um pedaço da minha infância
Obrigada!
Chris
“Corrida Maluca”! Quantas incursões eu fiz nesse universo, lá na minha infância?! Claro que não há uma resposta exata à essa pergunta retórica. Mas é fato que a diversão nessa fase da minha vida era e foi essenccial para a formação daquela criança. Me apaixonei por muitas personagens icônicas. Entre mocinhos e mocinhas o meu universo imaginário foi povoado de paixões platônicas. Parabéns, Jorge Ventura, pela coluna! O seu trabalho jornalístico, aqui, mostra como a pesquisa minuciosa promove uma arquitetura rica de informações que nos transporta à diversão da infância que permanece latente em cada um de nós ❤️