
Quase cinco décadas após a publicação de A Hora da Estrela, a trajetória de Macabéa ganha uma nova leitura nos palcos de Hollywood. Entre os dias 25 de julho e 1º de agosto, a atriz Bruna Fachetti e o diretor Alex Tietre estreiam, em Los Angeles, “The Hour of the Star”, adaptação oficial do último romance de Clarice Lispector. Radicados nos Estados Unidos, os artistas enxergam na obra uma ponte entre a literatura brasileira e temas universais como pertencimento, invisibilidade e imigração. Nesta entrevista exclusiva ao ArteCult, eles falam sobre os desafios da adaptação, o momento de redescoberta de Clarice no exterior e o desejo de fortalecer a presença da cultura brasileira no cenário internacional.
Como nasceu a ideia de adaptar A Hora da Estrela para os palcos de Hollywood?
Bruna Fachetti: A ideia surgiu da vontade de apresentar uma obra profundamente brasileira para um público internacional de forma viável, e que dialogasse também com minha essência e identidade artística. Clarice vive um momento muito especial fora do Brasil, sendo descoberta por novos leitores, especialmente jovens, e percebemos que havia uma oportunidade de transformar essa literatura em uma experiência teatral. A história da Macabéa fala sobre pertencimento, invisibilidade e o desejo de ser visto — temas que dialogam com qualquer pessoa, em qualquer lugar, principalmente Los Angeles, a cidade dos Anjos e dos grandes sonhos. Macabea sonhava em ser artista de cinema como a Marylin Monroe.
Alex Tietre: Também existia um desejo antigo de construir uma ponte cultural entre Brasil e Estados Unidos. Não queríamos apenas montar uma peça em Los Angeles, mas levar um olhar brasileiro sobre essa obra e sobre a nossa maneira de fazer teatro.
Por que Hollywood parece um cenário tão simbólico para contar a história de Macabéa?
Alex Tietre: Hollywood é conhecida como a cidade das estrelas, dos sonhos e das oportunidades. Mas também é um lugar para onde milhares de pessoas chegam tentando recomeçar a vida. Existe um paralelo muito forte entre essa realidade e a jornada da Macabéa, que deixa sua terra em busca de um futuro melhor. Isso torna a história ainda mais atual.
Bruna Fachetti: Los Angeles reúne pessoas do mundo inteiro que carregam expectativas, medos e sonhos. De certa forma, todos buscam a própria “hora da estrela” e muitos vivem sem voz ou não se dão conta das condições indignas em que vivem. Essa conexão faz com que o público americano compreenda a história de uma maneira muito íntima, mesmo sem conhecer profundamente o contexto brasileiro.
Bruna, interpretar sozinha todos os personagens de um romance tão complexo certamente é um grande desafio. Como foi esse processo?

Bruna Fachetti – crédito Todd Tyler
Bruna Fachetti: Está sendo um desafio muito gostoso. Nós já temos o filme, que é uma obra-prima, mas o teatro é uma nova linguagem, e que permite muito esse lugar da imaginação. Nós estamos sendo fiéis a história e além da direção do Alex também estou contando com a preparação da Marjo-Riikka, que é uma das maiores preparadoras de elenco e fundadora do Chekhov Studio International, tudo isso pra trazer a vida estas personagens de maneiras distintas, humanas, teatral, interessante e fiel.
A montagem preserva a identidade brasileira da obra ou busca aproximá-la do teatro americano?
Alex Tietre: Nossa intenção nunca foi adaptar Clarice para caber em um modelo americano de encenação. Pelo contrário. Queremos apresentar ao público uma linguagem que nasce da nossa identidade artística. A simplicidade da cena, a poesia, a valorização do ator e as referências sutis à cultura nordestina permanecem presentes porque fazem parte da essência da obra.
Bruna Fachetti: A universalidade da história não depende de retirar sua brasilidade. A força de Clarice está justamente na capacidade de transformar algo profundamente brasileiro em uma experiência humana compartilhada.
Clarice Lispector vive hoje um momento de grande repercussão internacional, especialmente entre os jovens. O que explica esse fenômeno?

Alex Tietre – crédito Pino Gomes
Bruna Fachetti: Acho que a nova geração está muito interessada em histórias que falam sobre identidade, solidão, ansiedade e busca por sentido. Clarice escreveu sobre tudo isso décadas atrás e de uma maneira muito única. É emocionante ver adolescentes e jovens americanos recomendando seus livros nas redes sociais ou comentando suas frases em clubes de leitura.
Alex Tietre: As redes sociais ajudaram a ampliar esse alcance, mas acredito que o principal motivo seja a força da obra. Clarice continua contemporânea porque escreve sobre questões que nunca deixam de existir.
Além da literatura, o espetáculo também apresenta um pouco da forma brasileira de fazer teatro. O que vocês esperam que o público leve dessa experiência?
Alex Tietre: Gostaria que o público saísse do teatro conhecendo não apenas Clarice Lispector, mas também uma maneira diferente de contar histórias. O teatro brasileiro possui uma sensibilidade muito própria, baseada na presença do ator, na criatividade, na imaginação e na construção poética da cena.
Bruna Fachetti: Espero que as pessoas saiam tocadas pela história da Macabéa e pelos tempos de morango e, ao mesmo tempo, curiosas para conhecer mais da cultura brasileira. Se o espetáculo despertar o interesse por outros autores, artistas e produções do Brasil, já teremos cumprido uma parte muito importante da nossa missão.
Depois da estreia em Los Angeles, quais são os próximos passos para “The Hour of the Star”?
Bruna Fachetti: Nosso desejo é que essa seja apenas a primeira etapa de uma trajetória mais longa. Estamos trabalhando para levar o espetáculo a outras cidades dos Estados Unidos e também sonhamos com uma temporada no Brasil.
Alex Tietre: Acreditamos que esse projeto pode continuar abrindo portas para a literatura e para o teatro brasileiros no exterior. É uma oportunidade de mostrar que nossas histórias têm alcance internacional e dialogam com públicos muito diversos.
JU PRESTES









