AC Retrô – Futebol de botão: de pai para filho, transcendendo gerações

Futebol de botão: de pai para filho, transcendendo gerações

 

Por Jorge Ventura

 

Engana-se quem pensa que o futebol de botão é coisa do passado. Mesmo nos dias atuais, em que a nova geração só quer saber de games, jogos por aplicativos e apostas virtuais, a prática desse esporte, conhecido oficialmente como futebol de mesa ou futmesa, ainda é mantida pelos pais e avós e ensinada a filhos e netos.

A tradição prevalece e, atualmente, há uma renovação de botonistas – jogadores ou praticantes – que participam de torneios e campeonatos promovidos e realizados por clubes e federações. A minha história com o futebol de botão começa por influência do meu pai, que sempre quis me ensinar e me incentivar a jogar. Confesso que, no início, não gostava muito, mas com razão: vivia perdendo as partidas para o meu pai, que era bastante habilidoso. Com apenas 8 anos de idade, eu tinha dificuldades de dominar o toque da palheta (usada para movimentar os botões) e ficava irritado quando falhava e perdia a jogada.  

Por pura pirraça, resolvi criar outro tipo de futebol: o jogado com bolas de gude. As menores serviam como bolas, as maiores, como jogadores. Cheguei a inventar regras: cada time contava com 4 jogadores e 1 goleiro (que, assim como as traves de plástico, era emprestado do time de botão do meu pai). Eu jogava comigo mesmo e narrava as partidas tentando imitar a voz dos famosos locutores esportivos da época, como se estivesse numa cabine de rádio do estádio do Maracanã. Os jogadores tinham nomes batizados por mim, e era um barato jogar.

Meu pai, ao contrário, reclamava muito comigo porque eu, menino alérgico, estava sempre agachado sobre o tapete da sala jogando o “gudebol”.  Um dia, ele saiu de casa mais cedo para trabalhar e deixou a mesa de botão aberta com os times à disposição. Era a grande chance! Queria treinar botão sem que ele soubesse. Queria me preparar para enfrentá-lo de “igual para igual”. 

Os botões do meu pai eram mágicos. Havia de vários tamanhos, cores e modelos, e feitos de materiais diferentes. Havia os de galalite (cuja matéria-prima era a caseína (proteína do leite), misturada com formaldeído, resultando em um artefato de bioplástico resistente), os de acrílico, os de coco, de osso ou marfim, os retirados de casacos velhos (que eram lixados, cuidadosamente, para deslizarem bem sobre as mesas), e até os excêntricos vidros de relógio (lentes de vidrilha) e tampas de frascos de remédios utilizados como botões. 

Após semanas e meses realizando, às escondidas, treinamentos exaustivos, fui ganhando habilidade e aprimorando a técnica. Pronto. Já estava preparado para enfrentar o meu pai. É claro que, no fundo, ele sabia que eu vinha treinando, mas disfarçava como se nada soubesse para não perder a graça de ser superado por mim. E, de fato, as vitórias surgiram e passei, então, a me dedicar com empenho e paixão ao esporte. Tornei-me campeão, diversas vezes, nos torneios de rua, com a participação de primos, amigos vizinhos e colegas de escola. Cheguei a ganhar medalhas e troféus – às vezes, a turma, sem condições de fazer uma vaquinha, improvisava esses troféus com restos de latão ou “pegava” medalhas antigas dos avós, referentes a outras modalidades esportivas.  

O futebol de botão, desde a sua origem, apresenta muitas regras oficiosas e oficiais. A garotada adorava jogar o “leva-leva”, ou seja, o jogador não tinha limites de toques e podia chutar de qualquer canto. Ou, se errasse o toque, dava a vez ao adversário. Essa regra “informal” dinamizava mais as jogadas. As palhetas podiam ser de acrílico maleável ou rígido, transparente ou não. Nessa época, nós usávamos também as fichinhas de ingresso nos ônibus como palhetas de botão. É claro que a maioria escondia essas fichinhas no bolso e não devolvia ao cobrador na hora de descer do ônibus com essa finalidade. As bolas eram chamadas de pastilhas por serem de plástico rígido e bem achatadas. Havia quem preferisse jogar com as bolas esféricas de feltro ou usar o dadinho de seis faces como bola. E dava muito certo.  

Os goleiros, quando não eram de acrílico produzidos pelas manufaturas de brinquedos, eram feitos com caixas de fósforo recheadas de areia de praia ou terra de rua, pregos, pedaços de chumbo ou de ferro. Depois, envelopávamos com papel colorido e envolvíamos com fita crepe, durex ou fita isolante, sem que esquecêssemos de colar a estampa com o escudo do time preferido em destaque. Cada botão vinha com o número gravado em “letra 7” (fonte tipográfica) ou com a foto de um jogador de futebol recortado de algum álbum de figurinha. A criatividade era fantástica! Porque costumávamos batizar nossos botões com o mesmo nome dos jogadores do time para o qual torcíamos. No meu caso, como torço para o Fluminense, bastantes botões tinham o nome daqueles jogadores que formaram a famosa “Máquina Tricolor” dos anos 1970: Rivelino, Paulo César, Pintinho, Edinho, Carlos Alberto Torres, Doval, Gil, Dirceu etc. 

Primeira medalha de futebol de botão (1976), conquistada pelo colunista aos 14 anos.

Sobre a origem do futebol de botão, há polêmicas e fontes divergentes. Alguns pesquisadores afirmam que os espanhóis já praticavam essa modalidade de esporte usando botões de roupa, mas registros oficiais dão conta de que se trata de uma invenção brasileira, surgida na década de 1920. Há relatos históricos, entretanto, de que tudo se iniciou anos antes, no Pará, norte do país. Pelo sim, pelo não, à figura do pintor, ator, escritor e publicitário de Campinas, interior paulista, Geraldo Cardoso Décourt, se atribui o papel de ser o grande responsável por popularizar o futebol de botão. Ele chamava de “Celotex” o material usado para a fabricação das mesas e utilizava botões de camisa para a realização do jogo. Em 1930, Décourt lançou o primeiro livro de regras: Regras Officiaes do Foot-ball Celotex. 

Vale ressaltar que, com o passar dos anos, as regras foram mudando de acordo com a região do Brasil. Existem a de 1 toque, muito comum no Nordeste; a de 3 toques, que tem tradição no Rio de Janeiro e em Brasília; e a de 12 toques, formato oficial mais moderno e estratégico, adotada nas demais cidades e regiões, exigindo contagem rigorosa dos competidores, na hora de finalizar. Geralmente, uma partida de futmesa dura 20 minutos (10 minutos de cada tempo) com 5 minutos de intervalo e, muitas vezes, o dadinho de seis faces substitui o disco redondo, proporcionando mais dinamismo técnico e tático.

Se, antigamente, era visto como uma brincadeira de criança, o futebol de botão foi conquistando, cada vez mais, adeptos e não demorou muito para o esporte ser levado a sério e formar atletas infantis, jovens e adultos, todos participantes de competições organizadas. Tive certeza dessa verdadeira paixão que acompanhava gerações quando eu trabalhei na rádio Transamérica FM, entre 1987 e 1988, como redator publicitário. Com 25 anos de idade, organizei com os demais funcionários – locutores, jornalistas e programadores – um torneio bem bacana. Sagrei-me campeão, por saldo de gols, do I Torneio de Futebol de Botão da Transamérica FM, ao empatar na decisão com a amiga Jacqueline, que trabalhava comigo no departamento comercial da rádio. Essa iniciativa foi inesquecível e, até hoje, eu guardo a medalha de campeão com muito carinho. Infelizmente, ao longo do tempo, perdi alguns troféus, medalhas e diplomas, mas guardo na lembrança todas essas vitórias.

Nos anos 1990, conheci um grupo de botonistas liderado pelo saudoso Hamilton, um grande jogador, que promovia torneios em sua residência, em Jacarepaguá. Eu e Sérgio, meu concunhado na ocasião, participávamos desses encontros e construímos novas amizades. Além do anfitrião, conheci também outros grandes jogadores, como Adriano, Regis, Ferro, Breda, Antônio Henrique e Marcelo Martire – conhecido nesse meio como Banfield – em homenagem ao clube argentino. Marcelo, hoje colecionador e comerciante de botões, é federado e revela sua paixão pelo futmesa numa entrevista exclusiva à coluna AC Retrô.

Liga Tijucana , sediada na rua do Riachuelo, 373, Centro do Rio.

Instagram da Liga Tijucana, clique aqui.

O futebol de botão nos remete à infância, às coisas boas da nossa vida, mas eu prefiro chamar o esporte de futmesa pelo profissionalismo, pelas dificuldades do jogo. “Futebol de botão” é uma denominação que a gente guarda no coração. Eu comecei a jogar aos 5 e passei a colecionar botões aos 10 anos de idade. São 50 anos de dedicação a esse esporte. Sou federado pelo Grajaú Tênis Clube e faço parte da diretoria da Liga Tijucana,  portanto, posso afirmar que o futmesa nunca esteve mais vivo como neste momento. É praticado em diversos estados e, se não me engano, em agosto próximo, será realizado o campeonato brasileiro de equipes, em Curitiba, com a participação de várias agremiações e com mais de mil atletas inscritos.

Fui influenciado pelo meu irmão mais velho, que já tinha 15 anos quando começou a jogar. Ele guardava o time de botão nas carteiras de cigarro e acabei, depois, ficando com os botões dele. Apesar de eu ser também um comerciante, com os botões antigos eu não jogo e nem os vendo por serem peças históricas de 50, 60 anos atrás. Em relação a essas feras citadas por você (Hamilton, Adriano e cia.), eu só tenho a agradecer por ter aprendido muito com eles e, infelizmente, hoje, muitos não estão mais conosco neste plano terreno.

O futebol de mesa, para mim, é poesia pura. Quando você toca o botão, faz uma bela jogada, levanta a bola ou toca pro lado ou quando faz um gol de corte. Quando você atira, e a bola passa entre o goleiro e a trave, indo direto para o fundo da rede feita de filó. Ou, até mesmo, quando o seu goleiro faz uma defesa sensacional. A magia que acontece na mesa é a mesma magia que acontece nos campos de futebol. Os jogadores lá são artistas, e nós também somos. As pessoas que apreciam e os atletas que praticam o futmesa sabem do que estou dizendo e ajudam a compor essa poesia lúdica e imagética.  Por isso é que eu digo: nossos botões são nosso material de jogo e precisamos sempre um material de qualidade. Não à toa que os grandes clubes de futebol nos reconhecem como seus representantes. Assim como sou federado do Grajaú, há atletas federados do Flamengo, do Fluminense, do Vasco, do Botafogo, do Palmeiras, do Corínthians, entre outros. 

O amigo Marcelo “Banfield” ainda dá a dica para quem é do Rio e quer começar a praticar o futebol de mesa. Os interessados podem procurar os clubes que fazem parte da Fefumerj (Federação de Futebol de Mesa do Estado Rio de Janeiro). É só acessar o site oficial: www.fefumerj.com.br  para saber de mais informações. 

 

Vez em quando, tenho vontade de voltar a ser botonista. Não sei se federado de algum clube, mas preservo na memória esse esporte que tanto ilustra minha infância.   

Ah, tempos bom! Quem se lembra?

*  Todas as imagens (fotos e vídeos) respeitam os seus respectivos direitos autorais e são utilizados aqui apenas para efeito de pesquisa e resenha jornalística.

 

SOBRE JORGE VENTURA

Jorge Ventura é escritor, roteirista, editor, ator, jornalista e publicitário. Tem 13 livros publicados e participa de dezenas de coletâneas nacionais e estrangeiras. É presidente da APPERJ (Associação Profissional de Poetas no Estado do Rio de Janeiro), titular do Pen Clube do Brasil, membro da UBE – RJ (União Brasileira de Escritores) e um dos integrantes do grupo Poesia Simplesmente. Recebeu diversos prêmios, nacionais e internacionais, como autor e intérprete. Tem poemas vertidos para os idiomas inglês, francês, espanhol, italiano e grego. É também sócio-proprietário da Ventura Editora, CQI Editora e da Editora Iniciatta. Jorge é colunista do ArteCult, responsável pelo AC RETRÔ.
E, agora vocês já sabem… Uma das maiores referências no Brasil sobre o universo Batman.

Instagram @jorgeventura4758

SOBRE O AC RETRÔ

Prepare-se para embarcar em uma viagem no tempo! O AC RETRÔ é um espaço dedicado à nostalgia, à memorabilia, ao colecionismo, relembrando também aquelas propagandas icônicas da TV, telenovelas, anúncios inesquecíveis das revistas e jornais, programas que marcaram época e filmes que nos transportam diretamente para tempos dourados! ️

Aqui, cada post será um convite para reviver memórias, despertar emoções e compartilhar as lembranças que moldaram gerações.

Se você sente saudade de jingles que não saíam da cabeça, comerciais que viraram clássicos, seriados que marcaram a infância ou até mesmo daquele filme que você alugava na videolocadora todo fim de semana, então o AC RETRÔ será o seu novo ponto de encontro. Afinal, recordar é mais do que viver: é reconectar-se com o que nos fez sorrir, sonhar e se emocionar. Fique ligado, porque essa viagem ao passado JÁ COMEÇOU! ✨

 

Author

Jornalista por paixão. Música, Novelas, Cinema e Entrevistas. Designer de Moda que não liga para tendência. Apaixonada por música e cinema. Colunista, critica de cinema e da vida dos outros também. Tudo em dobro por favor, inclusive café, pizza e cerveja.

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