
A toupeira e a incerteza: o caminho é ir.
“Qual é o assunto em que mais você pensa?
Qual a verdade em que mais você sente?
Qual a mentira em que mais acredita?
Qual é o nome que você mais grita?
Qual é a força que mais te enfraquece?
Qual é a fome que mais te alimenta?
Qual é o prato que mais te apetece?
Qual é o mapa que mais te orienta?”
(Qual o assunto que mais lhe interessa)
Uma homenagem a Edgar Morin
O artigo de hoje é uma homenagem que faço ao filósofo, sociólogo e antropólogo francês Edgar Morin, nascido em 8 de julho de 1921 e que nos deixou no último dia 29 de maio. Em 104 anos de vida, nosso pensador foi testemunha de um século turbulento, violento e agitado. Mas também, por outro lado, de descobertas e inovações técnico-científicas profundamente revolucionárias para nossa história. O filósofo deixou uma herança imensa de temas e reflexões em mais de 100 obras publicadas. Hoje escolho falar sobre incertezas e crises, assuntos que tanto marcaram a trilha do pensamento de Morin. Este artigo é também uma revisita à minha memória literária afetiva do autor, com novas e diferentes interpretações para os tempos atuais, com tanta disponibilidade de ferramentas e recursos tecnológicos e também da ‘avalanche’ sem fim de estímulos a que somos continuamente expostos. Vamos falar de incertezas e ter a consciência da complexidade em que vivemos. Eis a proposta de hoje.
O problema que apresento gravita em torno disto: por que é necessário manter o senso crítico ativo diante das circunstâncias históricas de crises e incertezas? Mas falar de acaso, do imponderável e da dúvida pode soar quase uma ‘heresia’ diante do modelo mental, político-econômico e epistemológico que conhecemos. Porém, não nos enganemos: a incerteza está tão presente em nossos dias quanto seu oposto. Desde nossos antepassados caçadores-coletores vivemos, enquanto espécie, profundas transformações e o que o filósofo nos fala em Como viver em tempo de crise?, texto do livro publicado em 2010 é que vivemos uma época acelerada e multifacetada em inovações e mudanças:
“a maior contribuição do século XX no terreno do conhecimento foi a noção dos limites de nosso conhecimento. A incerteza é onde nos movemos, não só na ação, mas também no conhecimento. A condição humana, assim, é marcada por duas grandes incertezas: a incerteza cognitiva e a incerteza histórica. Quando entram em ação as interações e interferências, não é possível ter certeza absoluta. A incerteza cognitiva é resumida nesta frase de um biólogo: ‘para saber tudo o que acontece em um corpo seria necessário matá-lo, e então o que nele acontece deixa de acontecer.’ É preciso aceitar pensar com certa incerteza. A incerteza histórica está ligada ao caráter caótico da história humana. Não podemos ignorar a grande revelação do século XX: nosso futuro não é teleguiado pelo progresso histórico.” (P. 15-6)
Posto isto, no mínimo, é preciso pensarmos que não fomos ‘preparados’ (ou ‘treinados’), para lidar com a velocidade e multiplicidade de transformações que estamos experimentando. O sujeito da performance contemporâneo, para usar um termo de Chul Han, busca ter ‘garantias’ e ‘certezas’, mas quanto de sofrimento psíquico e emocional não arrastamos em sua busca? Buscamos ‘uma vida longa e saudável’, ‘um bom emprego’, ‘uma boa casa’ etc., Mas Morin é taxativo neste aspecto: “o futuro nunca é certo.” (P. 22).
Nosso filósofo também recorre a outro filósofo contemporâneo seu, Blaise Pascal, do século XVII (1623 –1662), que viveu apenas 39 anos, mas que pensou sobre essa complexidade e também viveu época de crises e transformações. Em comum, entre os dois, há, além da nacionalidade, o estímulo ao pensamento crítico, ou como diz Morin: “é preciso ter a mente aberta para o incerto. […] É preciso estar aberto para o incerto, para o inesperado.” (P. 25). Um pouco antes, na obra, ele diz ainda que “Pascal tinha o senso da ambiguidade, para ele, o ser humano traz em si o melhor e o pior.” (P. 10).
Neste sentido, em seus Pensamentos, Pascal articula-se com Morin, afirmando que:
“É um grande mal, portanto, ficar na dúvida, mas é pelo menos um dever indispensável procurar a verdade quando se está nessa dúvida; e, assim, quem duvida e não procurar é ao mesmo tempo bem infeliz e bem injusto; e se, além disso, está tranquilo e satisfeito, se disso se vangloria, e disso tira vaidade, e se nesse estado encontra motivo para alegria, não tenho palavras para qualificar tão extravagante criatura.” (Pensamento # 194, P. 90)
Nosso filósofo-matemático nos estimula a sermos inquietos, críticos e curiosos, pois assim tem sido desde as mais remotas épocas e culturas. Por outro lado, ele afirma que somos seres perecíveis, falíveis, frágeis e ambíguos – não damos a devida atenção ao que importa e perdemos tempo e anos de vida com coisas que não dependem de nós:
[…]“Nada é tão importante para o homem como o seu estado; nada lhe é tão temível como a eternidade; não é natural, portanto, que haja homens indiferentes à perda de seu ser e ao risco de uma eternidade de misérias. Eles são bem diferentes a respeito de todas as outras coisas: temem até as mais leves, preveem-nas, sentem-nas; e esse mesmo homem que passa tantos dias e noites raivoso e desesperado pela perda de um cargo, ou por qualquer imaginária ofensa à sua honra, esse mesmo homem sabe que vai perder tudo com a morte, e se mantém tranquilo e sem emoção. É uma coisa monstruosa ver num mesmo coração, e ao mesmo tempo, essa sensibilidade pelas menores coisas e essa estranha insensibilidade pelas maiores. É um encantamento incompreensível, uma apatia sobrenatural, sinal de uma força todo-poderosa que o causa. (Pensamento # 194, P. 91)
Pois é indiscutível que a duração desta vida é efêmera, que o estado de morte, qualquer que seja, é eterno, e que, assim, todas as nossas ações e pensamentos devem tomar caminhos bem diferentes conforme o estado dessa eternidade, de maneira que se torna impossível tentar alguma coisa com sentido e juízo senão regulando-a em vista desse ponto que deve ser o nosso último objetivo.” (Pensamento # 195, P. 93).
Morin complementa e ‘atualiza’ o ponto de vista pascalino, falando sobre a “ecologia da ação”:
“Mas se preparar para esse mundo incerto não significa resignar-se. É preciso, pelo contrário, empenhar-se em bem pensar, elaborar estratégias, fazer apostas em plena consciência. Bem pensar significa tratar de contextualizar e globalizar nossos conhecimentos, como vimos, e também estar consciente da ecologia da ação. […] Os efeitos da ação dependem não só das intenções do ator, mas também das condições próprias do meio em que se desenrola.” (P. 24).
Ou seja, a história, a historicidade e tudo o mais que advém da ação dessas “forças subterrâneas: “repensemos a metáfora de Hegel, sobre a velha toupeira que cava suas galerias subterrâneas e, um belo dia, volta à superfície.” (P. 25).
As inovações e invenções técnicas que tivemos ao longo da história, desde nossos mais distantes antepassados foram temporalmente esparsadas, com hiatos bastante oportunos para que as gerações sucessoras pudessem ‘digerir’ e ‘ruminar’ os efeitos irreversíveis das descobertas herdadas. Como exemplo a prensa de Gutemberg no século XVI ou mesmo o telégrafo no final do século XVIII. E não há como se afastar deste olhar retrospectivo da história para uma reflexão sobre as incertezas, tema central deste artigo – desde antes de Pascal, até Morin e seguindo.
Porém, como afirma Pascal, “entre nós e o inferno, ou o céu, há apenas a vida, a coisa mais frágil do mundo.” (Pensamento # 213, P. 96). É preciso, pois, pensar mesmo esta nossa condição de absoluta fragilidade diante do imponderável. Somos essa ‘poeirinha cósmica’, como afirma o estoico Marco Aurélio. Tudo nasce e morre – das galáxias às vidas. Porém temos em nós a vida e a capacidade de pensar e agir e diante de nós o outro, com toda sua complexidade. Neste ponto, Morin nos diz, já ao final da obra:
“Creio que a complexidade favorece a ação, pois dá a medida dos verdadeiros riscos e das verdadeiras oportunidades. A ecologia da ação significa isto: no momento em que a empreendemos, ela nos escapa e pode transformar-se em seu contrário. […] É preciso fazer como Pascal, uma aposta, e mudar de direção se necessário. […] Como as consequências de uma ação são incertas, a aposta ética, longe de abrir mão da ação por medo das consequências, assume essa incerteza, reconhece os riscos, elabora uma estratégia. A aposta é a integração da incerteza na esperança. […] A incerteza estimula porque convoca a aposta e a estratégia. Não se deve, é verdade, avançar de maneira pulsional e irrefletida, mas é preciso agir. Aposta e estratégia, e adiante!”. (P. 26-7).
Tempus complexus. A força que certas palavras têm em nosso cotidiano. A frase anterior, lida rapidamente, pode sugerir um sentido – o do senso comum. Mas se formos ao dicionário e buscarmos uma investigação, iremos nos deparar com o que a frase diz mesmo, bem diferente do que ‘se deduz inicialmente’. Tempo (tempus, nominativo masculino singular) da tessitura (complexus, genitivo masculino singular) ou tempo da conexão, tempo da peleja. Isto é pois o que o nosso tempo conjuga: é ambíguo e por isso requer nosso esforço de pensar e seguir. Adiante! como nos convoca Morin. E adiante mesmo, porque não há outro caminho, a não ser ir. Seguir com nossas incertezas, complexidades, mas também com nossa condição de agir, de amar e de ser autêntico, como bem nos ensina o filósofo que permanece vivo, com suas ideias tremulando como flâmulas. Pois, na busca de estabilidade, vamos ‘estacionando’ diante de nós condicionantes concessivos como o ‘um dia…’, ‘quando isso acontecer…’, ‘se isto…aquilo…’, mas a vida segue seu curso, portando em seu interior infinitas incertezas
Cada um de nós, habitantes deste mundo complexo e cheio de incertezas, pode à nossa maneira (re)pensar e (re)configurar o modo de agir, consigo e com os outros. O pensamento crítico, como vimos, nunca foi sem sentido e nos dias atuais, de acúmulo desmedido e da busca por ‘certezas’, este pensamento crítico é uma verdadeira preciosidade.
E assim seguimos no mar da história…agitado.
E para fechar meu artigo de hoje, deixo o trecho da canção de João Bosco, E então, que quereis…?, que fala principalmente das incertezas que nos cercam (como se estivéssemos num barco em um mar revolto):
“Nestes últimos vinte anos
Nada de novo há
No rugir das tempestades
Não estamos alegres,
É certo,
Mas também por que razão
Haveríamos de ficar tristes?
O mar da história
É agitado.
As ameaças
E as guerras
Havemos de atravessá-las.
Rompê-las ao meio,
Cortando-as
Como uma quilha corta
As ondas”
Um abraço fraternal e até o próximo artigo na ArteCult.
ZAL










