
Coluna de Márcio Calixto
O Suspiro Perturbador
Estacionei a moto.
Estava pilotando a Pedestre Premium, que é a forma como chamamos nossa motinha elétrica, pelas ruas da Zona Sudoeste, nas intermediações de Jacarepaguá, quando me deparei com uma pilha de livros abandonados. Bibliófilo que sou, aproximei-me e dei uma boa olhada no material. Capa Vermelha. Encadernação perfeita. Antiga. Era uma relíquia. Estava diante de toda uma coleção da Barsa. Eram livros e mais livros, enfileirados no lixo, perfilados como se tivessem saído há pouco de alguma biblioteca desavisada. Alguém teve a última decência de os manter em ordem.
A Pedestre Premium tem um bauzinho. Pensei em pegar aquele material todinho e levá-lo para casa, para se unir aos vários livros e enciclopédias que eu já tenho. Seria mais uma, que eu poderia dar destino a alguém que se predispusesse a adotá-los, a tirá-los daquele vexame final ao esquecimento. Porém, não há. Há uma convergência a um minimalismo oblíquo e perverso em função do tamanho dos lares que as pessoas fizeram questão de tirar os livros de dentro de casa. Lembro quando fiz a abertura de um evento para uma escola em que ora trabalhava e citei a troca da biblioteca dos lares, no início do século XXI, por racks onde se dispunham as televisões cada vez maiores em telas e menores em volume. Poderia metaforizar o volume da tevê do passado, quando elas ainda tinham tubos, com as atuais tevês, cada vez mais fininhas, como exemplo de conteúdo que foi sendo perdido. A tevê, no entanto, nunca foi grande sinônimo de conteúdo, mas de perversão da cultura à subserviência financeira. Chegando à década de 30, as tevês perdem seu protagonismo para smartphones e tablets.
Aquela coleção da Barsa não caberia completa no bauzinho. Eu teria de fazer algumas viagens para poder dar conta de tudo. Para piorar, estava longe de casa. Poderia ocorrer a chance de ir e voltar e o serviço de coleta dar cabo do que estava por ali. Fiquei olhando para ela como se olhasse uma família mendigando atenção. Como se houvesse, entre os desvalidos, crianças, com seus olhares tenros e suplicantes, que devassam qualquer alma que sabe ser alma, que absorve no acalanto do pedido infantil a indecência do capitalismo vil e sujo, que segrega, que escancara nossa vilania, que descarta, que mata uma coleção da Barsa.
Vi por esses dias um camarada ensinando o filho a usar o dicionário. A ideia dele, bem simples e ao mesmo tempo genial, estava em fazer o filho não apenas conseguir a resposta por esse pai atento, mas a de fazer esse filho buscar o significado de uma palavra não no google, mas no livro, no pai dos burros, que já nem sei se tem tantos filhos assim. O pai dos burros está esquecido em algum asilo, sem netos, sem gente que o reconheça mais. Ele amarga uma derrota absurda e se vê deteriorando em algum canto, sem ser aberto ou explorado. Suas folhas colam e esfarelam. O livro morre.
Não demorou muito a minha curiosidade foi notada por alguns que passavam. Observaram também aquela coleção completa, insuperavelmente organizada em uma montanha de lixo. A beleza abjeta transversa em um lixo com muitas moscas espelhava a degradação intelectual de um mundo que joga fora suas Barsas. Uma moça me pergunta se penso em pegar. Digo que não, não tenho mais espaço em casa. Ela responde com as mesmas palavras.
Foi, então, que chegou o caminhão de lixo. Os homens, donos de uma pressa que intimida esse gordo que agora flutua sobre uma motinha elétrica pela preguiça de andar, ensejam suas danças de arremesso e atendimento a metas. No entanto, um deles deixa de correr, caminha, dá passos mais lentos e para. Olha os livros. Um outro chega e faz o mesmo. Aqueles homens vestidos de macacão laranja observam com alguma ternura os livros. Um deles suspira. Um suspiro perturbador. Seu olhar se assemelha ao que imaginei ao ver uma criança desvalida. “Me ajuda aqui”, ele diz ao companheiro. Aos poucos, eles pegam os livros e enfileiram na lateral da caçamba que deglute lixo com vigor. Na lateral da caçamba se descobre uma prateleira, que acredito já terem usado em alguma outra oportunidade. Vejo aquela organização, ao mesmo tempo em que observo a caçamba ressignificada, e penso no senso de esperança. Só penso.
Ali ainda havia uma Barsa abandonada.
Terminado o serviço, o homem que colheu e acolheu os livros assobia, alto, um tom agudo e imponente, o caminhão acelera, sem se preocupar com os livros empilhados. Escuto à distância algumas palavras:
-
Dessa vez vou levar pra biblioteca lá da favela, as crianças vão gostar.
A voz estava distante. Espero mesmo que tenha sido isso que eu escutei.
MÁRCIO CALIXTO
Professor e Escritor

Márcio Calixto | Foto: Divulgação

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