Os desenhos desanimados que animavam

Por Jorge Ventura

 

Em 1966, foram produzidas duas adaptações das histórias em quadrinhos para exibição na TV que animavam uma legião de fãs: a icônica cult-série Batman do Adam West – uma versão live-action que transpôs para a telinha o estilo e a linguagem das HQS, incluindo as explosões onomatopeicas nas cenas de luta da dupla dinâmica – e os desenhos dos Super-Heróis Marvel: Capitão América, Homem de Ferro, Namor – o príncipe submarino, Thor – o deus de trovão, e o incrível Hulk.

No caso da Marvel Comics, que estava com dificuldades financeiras, a empresa necessitava encontrar uma solução para popularizar os seus personagens e se salvar da falência. O roteirista e empreendedor Stan Lee, no entanto, via com bons olhos a oportunidade de criar uma série de animação que fosse fiel aos quadrinhos, como fez o produtor Bill Dozier, do seriado Batman de 66.

Apesar da Marvel Comics não reunir recursos para investir em animações sofisticadas, Stan Lee quis pegar carona no sucesso do Homem-Morcego de Adam West e tentar difundir, pela TV, sua linha de super-heróis. Esta era a ideia: levar os quadrinhos para a telinha.

Conhecidos como “desenhos desanimados” em razão da limitação dos movimentos dos personagens, as ações não apresentavam ritmo, porém, mantinham a magia dos quadrinhos e os traços originais, como se lêssemos um gibi eletrônico. O baixo orçamento da produção obrigou os criadores a utilizarem o processo da xerografia (imagens extraídas das próprias revistas) como matriz para as células de animação.

Isso fazia com que os personagens somente mexessem os olhos, a boca – na hora de falar ou expressar alguma interjeição – os braços e as pernas. Às vezes, entre uma cena e outra, o movimento de um salto ou de um golpe chamava a atenção do espectador, mas tudo era muito rudimentar. Nós, entretanto, adorávamos assistir àqueles episódios “quase estáticos”, porém cheios de zooms, panorâmicas e onomatopeias que acentuavam os combates dos heróis.

Produzida pelos estúdios da Grantray Lawrence Animation (coordenada por Grant Simmons e Ray Patterson, em parceria com a Krantz Films), a animação “desanimada” reproduzia o trabalho de grandes quadrinistas (roteiristas e desenhistas), como Stan Lee, Jack Kirby, Don Heck e Steve Ditko. Um ponto interessante que atraía a audiência infantil era o tema de abertura de cada desenho. Havia uma musiquinha de fácil memorização, com letra rimada, que realçava os feitos, a origem ou as características de cada herói.

A estreia, no Brasil, aconteceu em 1967, por meio de uma grandiosa campanha de lançamento, promovida pela Shell, que desencadeou uma das parcerias comerciais mais bem-sucedidas, envolvendo ações de marketing, o surgimento de produtos licenciados e a incursão da editora EBAL (Brasil-América) no universo Marvel. Era o começo da Marvelmania.

A Rio Som (RJ) foi a primeira empresa a dublar os desenhos desanimados. Mesmo com as duas novas dublagens feitas, décadas depois, pelas extintas Herbert Richers (RJ) e Marshmallow (SP), a memória vocal que marcou gerações foi a da pioneira, cujo narrador das histórias era ninguém menos do que o famoso e saudoso Léo Batista – o locutor de “voz marcante – que apresentava na TV os programas esportivos.

Léo empostava sua voz nas chamadas de abertura e nas cenas de ação, que ganhavam mais dinamismo. Sua interpretação envolvente era também valorizada pelo trabalho dos tradutores que, naqueles anos, caprichavam no lirismo e no rico vocabulário dos textos. Eu me lembro de frases como “a depressão desvanece”, “a mão enluvada do Capitão América”, “olhos malevolentes brilham apenas de inveja” e “uma atmosfera de tristeza invade a fabulosa cidade de Atlantis…”.

As musiquinhas-temas (hinos dos super-heróis) também ganharam uma versão brasileira nos estúdios da Rio Som. As composições americanas, assinadas por Jack Urbont, receberam letras em português por Ábdon Torres, que buscou utilizar gírias da época, com o objetivo de aproximar crianças e jovens por meio de uma linguagem moderna e popular. Era para todo mundo cantar. Infelizmente, o autor da coluna AC Retrô cantava tudo errado por ser ainda criança e por não entender direito o que ouvia. Quer um exemplo? Eu cantava o hino do Homem de Ferro dessa forma: Tony Stark “vira” onda… que é cientista espacial… mas também é… Homem de Ferro! Elétrico! Atômico! Genial! Dura armadura, Homem de Ferro! É “lenda” pura… Homem de Ferro!

Agora vamos à letra correta:

Tony Stark/ tira onda/ que é cientista espacial/ Mas também é/ Homem de Ferro/ Elétrico, atômico, genial/ Dura armadura/ Homem de Ferro/ É lenha pura/ Homem de Ferro!

E o pior é que eu falava pra mim: que letra estranha! Como pode o Tony Stark virar onda?!

No hino do Namor, o príncipe submarino, eu também vacilava. Cantava:

“Ele é o rei dos mares… “Nem o homem, nem o peixe”… “Também nome não faz” Nobre submarino! Real Namor, dos mares “é o esplendor!”

Segue a letra correta:

Ele é o rei dos mares/ Meio peixe, meio homem,/ também domina os ares/ Nobre submarino,/ Real Namor/ Dos mares o Senhor!

Não fazia o menor sentido eu cantar “Nem o homem, nem o peixe… Também nome não faz!”! Coisas de criança! Mas o show do “nada a ver” continua. Veja como eu entendia o hino do Thor, o deus do trovão: “Onde o arco-íris é “bonde”, onde vivem os imortais… Do trovão que é o “seu” guarda-mor… Do “Aladim” é o grande Thor!

Abaixo, a letra correta:

Onde o arco-íris é ponte/ onde vivem os imortais/ Do trovão é o deus guarda-mor/ O barra limpa é o grande Thor!

E para completar, o hino do incrível Hulk, com a letra completamente trocada pela criança Ventura: “Bruce Banner, o gringo grande pelo esforço a mais! Lutei com o Hulk, ô! Verde é o monstro, é incompreensível, groso, mata! Luta com pequenino! Aponta o incrível Hulk! Hulk!”

Prezado(a) leitor(a), eu juro que tenho vergonha de comentar, mas… para onde o Hulk apontaria?! E quanto ao “gringo grande pelo esforço a mais”?!

Sigamos, portanto, com a letra correta:

Pobre Bruce Banner, por lindo cano entrou,/ Exposto a raios gama no feio Hulk virou/ Verde monstro, é incompreendido,/ Grosso, massa, luta por ser querido/ Na fossa vive o Hulk,/ Hulk! Hulk!

Meu Deus! De onde eu tirei essa frase Do Aladim é o grande Thor?! Mas vamos combinar: gírias como “barra limpa”, “na fossa” e “lenha pura” não são lá muito criativas.

Em paralelo à exibição dos desenhos na TV Bandeirantes/SP e outras emissoras nacionais, inicialmente, chamados de Super-heróis Shell, a mecânica da campanha promocional era a distribuição de revistinhas (edições zero), publicadas pela EBAL, dos cinco principais heróis Marvel, já citados acima, nos postos de gasolina. Os pais abasteciam os carros e recebiam as revistinhas para presentear as crianças. Além das revistinhas, nos postos Shell, os pais recebiam adesivos com os motivos dos heróis – hoje em dia, um item raro e caríssimo no ramo de colecionadores.

Além das edições promocionais, a EBAL também lançou revistas combos (histórias diferentes de dois super-heróis na mesma revista), como aventuras do Capitão América e do Homem de Ferro, do Thor e do Hulk, sem contar os álbuns para colorir que deixavam a criançada ouriçada (outra gíria da época).

Na esteira do sucesso da Marvelmania, que ocupava cada vez mais espaço na mídia, chegaram ao mercado do entretenimento infantil, com os motivos dos super-heróis, camisas, camisetas estampadas, bolas, lancheiras e, tendo como destaque, os bonecos de plástico rígido, medindo em torno de 12 centímetros, produzidos pela fabricante de brinquedos ATMA, que representavam os principais heróis: Capitão América, Homem de Ferro, Namor, Thor e Hulk – que, inexplicavelmente, era a figura mais baixa de todos, quando, na verdade, deveria ser a mais alta, mas esse erro de proporção também foi percebido no desenho de chamada do Clube Marvel, em que aparece, no final da musiquinha-tema, o Hulk “baixinho” em relação aos demais. Vá entender! Logo ele, um gigante verde e monstruoso! As figuras eram monocromáticas, mas alguns artistas colecionadores pintavam os personagens com as cores originais dos quadrinhos, e outros recebiam encomendas de comerciantes que visavam a um lucro maior de revenda.

A popularidade dos Super-Heróis Marvel aumentou quando os desenhos desanimados passaram a ser exibidos no Clube do Capitão Aza, pela TV Tupi. Diga-se, de passagem, que essa coleção, sob o licenciamento da Marx Toys, é considerada uma das primeiras coleções da linha action figure do país. Logo depois, a ATMA lançou a figura do Homem-Aranha em razão da sua audiência na TV (desenho animado produzido com um pouco mais de recursos financeiros).

Uma curiosidade como registro: na coleção brasileira, a figura do Namor foi a única fabricada em nosso país, em substituição à figura do Demolidor, que pertencia à coleção norte-americana. Isso aconteceu porque o personagem Demolidor era desconhecido aqui, no mercado nacional. Ao contrário de Namor, que era super conhecido dos desenhos da TV e das HQs. A ATMA não perdeu tempo. Sob a licença da Marx Toys, optou por adaptar o Príncipe Submarino, esculpindo a pose do majestoso super-herói a partir de uma base de troféu de natação. O modelo é exclusivo da ATMA e, por isso, é uma das peças mais valiosas para quem curte o colecionismo de brinquedos antigos.

 

 

Ah, tempos bons! Quem se lembra?

 

*  Todas as imagens (fotos e vídeos) respeitam os seus respectivos direitos autorais e são utilizados aqui apenas para efeito de pesquisa e resenha jornalística.

 

SOBRE JORGE VENTURA

Jorge Ventura é escritor, roteirista, editor, ator, jornalista e publicitário. Tem 13 livros publicados e participa de dezenas de coletâneas nacionais e estrangeiras. É presidente da APPERJ (Associação Profissional de Poetas no Estado do Rio de Janeiro), titular do Pen Clube do Brasil, membro da UBE – RJ (União Brasileira de Escritores) e um dos integrantes do grupo Poesia Simplesmente. Recebeu diversos prêmios, nacionais e internacionais, como autor e intérprete. Tem poemas vertidos para os idiomas inglês, francês, espanhol, italiano e grego. É também sócio-proprietário da Ventura Editora, CQI Editora e da Editora Iniciatta. Jorge é colunista do ArteCult, responsável pelo AC RETRÔ.
E, agora vocês já sabem… Uma das maiores referências no Brasil sobre o universo Batman.

Instagram @jorgeventura4758

SOBRE O AC RETRÔ

Prepare-se para embarcar em uma viagem no tempo! O AC RETRÔ é um espaço dedicado à nostalgia, à memorabilia, ao colecionismo, relembrando também aquelas propagandas icônicas da TV, telenovelas, anúncios inesquecíveis das revistas e jornais, programas que marcaram época e filmes que nos transportam diretamente para tempos dourados! ️

Aqui, cada post será um convite para reviver memórias, despertar emoções e compartilhar as lembranças que moldaram gerações.

Se você sente saudade de jingles que não saíam da cabeça, comerciais que viraram clássicos, seriados que marcaram a infância ou até mesmo daquele filme que você alugava na videolocadora todo fim de semana, então o AC RETRÔ será o seu novo ponto de encontro. Afinal, recordar é mais do que viver: é reconectar-se com o que nos fez sorrir, sonhar e se emocionar. Fique ligado, porque essa viagem ao passado JÁ COMEÇOU! ✨

 

 

Author

Fundador, CEO e Editor-Geral do ArteCult.com (@artecult), Sócio-fundador e Editor-Geral do QuadriMundi (Quadrinhos, Mangás e Animações) @quadrimundi , sócio-diretor do CinemaeCompanhia (@cinemaecompanhia), admin do @portalteamigo no Instagram. Apaixonado pela sua família, por tecnologia e por todas as formas de ARTE e CULTURA. Viva o POVO BRASILEIRO e sua rica e infindável cultura.

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