

Há encontros que parecem pequenos, mas ficam reverberando dentro da gente por dias.
Sábado, saí de casa às duas da tarde para conhecer pessoalmente meus professores na biblioteca. Não imaginava que voltaria tão atravessada por histórias, vozes e afetos.
Eles hipnotizam. Me lembrei imediatamente do flautista de Hamelin: aquele que conduzia as crianças pela cidade através do som. Mas eles fazem diferente. Seduzem pela palavra, pela presença, pela propriedade absurda no ofício que exercem.
Sou do teatro, e para mim o teatro também conta histórias — mas muitas vezes através de figurinos, cenários, iluminação, objetos, toda uma maquinaria que, a cada dia, se profissionaliza mais. A contação de histórias, ao contrário, parece partir de outro lugar: da oralidade, da herança, de algo ancestral, quase mítico. Não sei explicar exatamente. Talvez porque não seja mesmo algo para explicar, mas para sentir.
E então surge Tiffany. Cheia de trejeitos, movimento, presença. Uma menina que fala com o corpo inteiro. Simplesmente amo. E é perceptível que não sou só eu. Quando ela chega ao espaço, um burburinho começa. Ela coloca fogo no parquinho. Existe uma alegria imediata ao redor dela, uma energia viva, dessas raras.
O projeto “Sarauzin”, patrocinado pelo Sesc e idealizado por eles, é riquíssimo. Um trabalho cuidadoso, afetivo e profundamente inteligente. Além dos convidados incríveis, existe algo ali que me atravessou muito: as crianças também contam suas histórias. E contam mesmo.
A sala se enche de inocência, escuta e conexão. Crianças adoram ser ouvidas — mas antes disso precisam aprender que sua voz importa. O Sarauzin entende isso com delicadeza. Na primeira parte elas ouvem; depois ocupam também o centro da cena. Achei a ideia brilhante, porque transforma a criança não apenas em espectadora, mas em protagonista.
Sentada ali, eu ria. Via crianças felizes, atentas, participativas. E aquilo tudo parecia tão simples — e ao mesmo tempo tão poderoso.
A primeira convidada foi Graziela Burnett. Ela contou por que a tartaruga possui o casco como se fosse colado ao corpo. Segundo sua narrativa, tudo aconteceu porque a tartaruga foi a uma festa junina no céu. E o mais impressionante: ela não tinha praticamente nada nas mãos. Nenhum grande recurso, nenhum aparato. Apenas a própria voz, a escuta aberta e a beleza de quem sabe narrar. Foi perfeita. Deliciosa de assistir.
Depois veio Ilhana — talvez eu esteja errando o nome — mas não esquecerei daquela contadora. De uma caixinha pequena nasceu uma canção, depois uma viola, depois uma menina, depois um livro… e de repente tudo fazia sentido.
Talvez a contação de histórias não tenha tantos recursos quanto o teatro. Mas existe nela algo muito potente: o saber contar. Não há nada entre o artista e quem escuta. Não existe parede, maquinaria ou distância. É voz, presença e imaginação. É humano no estado mais puro. E isso é lindo.
Ali também estava o “Tapetes Contadores de Histórias”, grupo potente, premiado e imenso na arte de narrar. Havia ainda outros convidados, todos compondo uma tarde de verdadeira celebração da palavra.
Enquanto observava tudo, pensei em como a contação de histórias também é ferramenta de formação humana. Paulo Freire já dizia que contar e recontar histórias pode ser um ato de diálogo e libertação. E Jean Piaget defendia a imaginação e a linguagem como caminhos fundamentais para a aprendizagem. Talvez por isso as crianças estivessem tão inteiras ali: porque ouvir histórias é também aprender sobre o mundo, sobre o outro e sobre si.
Em suma, a contação de histórias une afeto e cognição. Faz da aprendizagem um encontro prazeroso e inesquecível. E sinceramente? Isso já deveria ser motivo suficiente para ninguém deixar de ouvir histórias.
Obrigada, Tiffany, Leandro e Elton.
Sobre a Ih, Contei!
Desde 2012, a Ih, Contei! atua nas áreas de literatura, artes cênicas e cultura popular, desenvolvendo projetos de contação de histórias, oficinas, festivais, intervenções poéticas e produções voltadas especialmente para a infância.
O grupo já passou por mais de 60 cidades brasileiras e realiza importantes ações sociais em escolas públicas e comunidades do Rio de Janeiro, aproximando arte, educação e literatura de crianças e famílias.
Vale acompanhar as redes sociais para descobrir onde estarão nas próximas apresentações.



Paty Lopes (@arteriaingressos). Foto: Divulgação.









