No tempo das enciclopédias
Por Jorge Ventura
No meu tempo de primário e ginásio (que, depois, passou a ser 1º grau), não havia IA, Google, sites, blogs ou Apps, celulares smartphones, computadores e, muito menos, Internet. Aí vem a pergunta: como nós pesquisávamos? Resposta: nas enciclopédias. Nessa época, era comum aparecer, batendo à porta de nossas residências, um(a) vendedor (a) de enciclopédias para a alegria das crianças e de toda a família.
As enciclopédias eram edições de luxo, de capa dura e formato especial, em sua maioria, com miolo colorido, em papel couchê, com textos didáticos, em fontes tipográficas graúdas e, ricamente, ilustradas. Os vendedores se apresentavam como representantes das editoras e começam a “vender o peixe” com um discurso memorizado, persuasivo e comercial. Todos atuavam igualzinho às revendedoras de cosméticos da marca Avon (da campanha Avon Chama). Nossos pais sempre eram atraídos pelas novidades porque entendiam que as enciclopédias poderiam ajudar em muito na instrução dos filhos, no fomento à leitura e na ampliação e diversificação de fontes de pesquisa.
As enciclopédias eram recorridas e muito úteis quando tínhamos a obrigação de entregar, e ainda apresentar, oralmente, diante da turma, um trabalho individual ou em grupo. Em grupo, era mais legal, porque juntávamos uns colegas mais próximos e nos reuníamos na casa de um deles. Geralmente, era o que tinha a casa maior, ou que pertencia a uma família com mais condições financeiras para promover um farto lanche e oferecer um quintal espaçoso para os garotos jogarem bola. Era um grande pretexto! Quando não era uma “peladinha” antes do dever da escola, era o futebol de botão. É claro que as mães acabavam fazendo os trabalhos de pesquisas por nós, que apenas assinávamos nosso nome como autores.
Usávamos papel cartão ou cartolina de várias cores e colávamos com cola Tenaz ou Cascolar os recortes das revistas para ilustrar o trabalho. Os textos eram extraídos, compilados e adaptados para esse fim. Era tudo manual, com direito a tesourinha sem ponta, régua, lápis e caneta hidrocor. E pensar que, hoje em dia, é tudo no “control C, control V”!
E a curtição era quando a professora (a tia) passava novos trabalhos de grupo para a turma. A gente via uma boa oportunidade para criar um campeonato ou torneio, fosse de futebol de campo ou de botão. Para uma geração, como a minha, que cresceu lendo gibis, os clássicos dos Irmãos Grimm, a coleção completa de Monteiro Lobato e os livros infantis de Maria Clara Machado, as enciclopédias davam um suporte mais substancioso. Os conteúdos iam de História, Geografia, Ciências, Cultura, Esportes a Conhecimentos Gerais. Na disputa editorial, as que mais se destacavam eram a Barsa, Delta Larousse, Mirador Internacional, Ciência Ilustrada, Conhecer (que inovou o formato com fascículos semanais, porém as edições encadernadas fizeram sucesso), National Geografic, História do Século 20, Enciclopédia Disney e Enciclopédia Juvenil, que reunia volumes dirigidos ao público infantojuvenil.
Eu me lembro que, um dia, ganhei do meu pai o conjunto completo de O Mundo da Criança (Editora Delta), uma edição primorosa com 15 volumes, que trazia, em cada volume, conteúdos e temas, como poesia, contos, fábulas, animais, plantas, ciências, família e espaço. Acredito que o meu primeiro contato com poesia tenha sido ainda criança, quando eu li o volume Poemas e Rimas dessa coleção. Por meio de adivinhas com versinhos rimados, penso, tomei gosto pela literatura. Havia uma adivinha das clássicas parlendas folclóricas que marcou minha infância. Era mais ou menos assim:
“casa caiada / bonina amarela/ telhado de vidro/ ninguém mora nela.”
Essa quadrinha se referia ao ovo, e era divertido, para qualquer criança, adivinhar e aprender a fazer versos dessa forma. Outros volumes também me chamavam a atenção: Contos e Fábulas, O Mundo e o Espaço e A criança no mundo moderno.
O Mundo da Criança faz parte, seguramente, da minha memória afetiva, e a publicação dessa obra foi considerada um grande marco cultural e intelectual que transcendeu gerações e serviu não apenas como um auxílio na formação escolar das crianças, como também na orientação pedagógica dos pais na educação em casa.
Com o tempo, as editoras foram lançando coleções e enciclopédias temáticas. Foi o caso de Os Bichos, Medicina e Saúde, Atlas Geográfico Universal, Os Pensadores, Grandes Personagens da História Universal e Grandes Personagens da Nossa História.
Esta última, publicada em 1969, pela Editora Abril, composta por quatro volumes e mais um volume adicional, contendo 59 mapas históricos do país, vinha com a biografia de grandes brasileiros e seus feitos que ajudaram – segundo a linha editorial – a escrever e a contar, com brilhantismo, a história do Brasil. Cada fascículo semanal (depois, publicaram a edição encadernada) vinha com um grande vulto histórico na capa, com o miolo repleto de textos informativos e ilustrações.
No fascículo Tiradentes – considerado o mártir da Inconfidência Mineira – uma das imagens que mais me impressionou foi a do corpo do inconfidente esquartejado, obra criada pelo notável pintor Pedro Américo (1843-1905), que também foi poeta, romancista, teórico de arte, ensaísta, filósofo, político e professor. O escritor e artista também já havia assinado pinturas de batalhas épicas e outras personalidades históricas, como Batalha do Avaí, Fala do trono e Independência ou Morte!
Pedro Américo foi um dos pintores acadêmicos neoclássicos do Brasil, apesar de muito criticado pelos especialistas de arte por seu conservadorismo e por não retratar a realidade em suas telas. Contudo, ele deixou obras de impacto nacional que foram reproduzidas em enciclopédias, coleções, catálogos, álbuns e livros didáticos e escolares para todo o território nacional.
Outra coleção que eu adorava era Os Cientistas, mais um título da Editora Abril. Dava prazer, toda semana, ir às bancas de jornal e “comprar” um Lavoisier, um Volta, um Newton ou um Einstein. Se o(a) leitor(a) não sabe, meu sonho de criança era ser um cientista na vida – de tanto que eu assistia aos seriados japoneses, pois, nos episódios, sempre havia um laboratório que os meus heróis e super-heróis preferidos frequentavam.
Cada edição de Os Cientistas vinha com uma revistinha produzida em papel couchê, com a foto do cientista na capa, contando tudo sobre sua vida e obra (sua maravilhosa invenção ou descoberta que contribuiu para o bem ou para o desenvolvimento da humanidade). Um detalhe curioso: vinha, também, junto com a revistinha, uma pequena caixa de isopor contendo peças e instruções para a criança montar um aparelho – geralmente feito de plástico – e realizar uma experiência em casa. Eu guardo o meu microscópio até hoje!
Era uma atividade lúdica, divertida e, ao mesmo tempo, educativa. Pena que as minhas experiências, no final, não davam muito certo, fato que me causava frustação e uma sensação de incompetência. Mas o que valia mesmo era a brincadeira e o que aquela coleção despertava: o interesse pela leitura e o conhecimento pela ciência.
Ah, tempos bons! Quem se lembra?
* Todas as imagens (fotos e vídeos) respeitam os seus respectivos direitos autorais e são utilizados aqui apenas para efeito de pesquisa e resenha jornalística.

SOBRE JORGE VENTURA

Jorge Ventura é escritor, roteirista, editor, ator, jornalista e publicitário. Tem 13 livros publicados e participa de dezenas de coletâneas nacionais e estrangeiras. É presidente da APPERJ (Associação Profissional de Poetas no Estado do Rio de Janeiro), titular do Pen Clube do Brasil, membro da UBE – RJ (União Brasileira de Escritores) e um dos integrantes do grupo Poesia Simplesmente. Recebeu diversos prêmios, nacionais e internacionais, como autor e intérprete. Tem poemas vertidos para os idiomas inglês, francês, espanhol, italiano e grego. É também sócio-proprietário da Ventura Editora, CQI Editora e da Editora Iniciatta. Jorge é colunista do ArteCult, responsável pelo AC RETRÔ.
E, agora vocês já sabem… Uma das maiores referências no Brasil sobre o universo Batman.
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SOBRE O AC RETRÔ
Prepare-se para embarcar em uma viagem no tempo! O AC RETRÔ é um espaço dedicado à nostalgia, à memorabilia, ao colecionismo, relembrando também aquelas propagandas icônicas da TV, telenovelas, anúncios inesquecíveis das revistas e jornais, programas que marcaram época e filmes que nos transportam diretamente para tempos dourados! ️
Aqui, cada post será um convite para reviver memórias, despertar emoções e compartilhar as lembranças que moldaram gerações.
Se você sente saudade de jingles que não saíam da cabeça, comerciais que viraram clássicos, seriados que marcaram a infância ou até mesmo daquele filme que você alugava na videolocadora todo fim de semana, então o AC RETRÔ será o seu novo ponto de encontro. Afinal, recordar é mais do que viver: é reconectar-se com o que nos fez sorrir, sonhar e se emocionar. Fique ligado, porque essa viagem ao passado JÁ COMEÇOU! ✨
























