
Eu sou pelo outro: alteridade a partir de Simone Weil
“Enquanto todo mundo espera a cura do mal
E a loucura finge que isso tudo é normal
Eu finjo ter paciência
O mundo vai girando cada vez mais veloz
A gente espera do mundo, e o mundo espera de nós
Um pouco mais de paciência
Será que é tempo que lhe falta pra perceber?
Será que temos esse tempo pra perder?
E quem quer saber?
A vida é tão rara, tão rara.”
(“Paciência”. Lenine)
A epígrafe que citei acima pode funcionar muito apropriadamente como um subtítulo para o artigo de hoje, cujo objetivo é apresentar a filósofa Simone Weil e um recorte de suas reflexões advindas de sua vivência filosófica e também como esta sua experiência pode nos ajudar a um bem viver melhor através do exercício da alteridade. Porque precisamos exercitar a paciência, o silêncio e a alteridade.
Poucas e poucos na história da filosofia exercitaram e viveram na vida prática e cotidiana uma transformação essencial a partir de suas reflexões filosóficas. Um verdadeiro exercício ético do que pensavam e professavam. Como exemplos cito Sócrates, que andava pelas ruas de Atenas ensinando e provocando sobre o autoconhecimento. Diógenes, o Cínico, que vivia de modo simples, de acordo com o que professa o Cinismo, escola fundada por ele. Os estoicos, sobretudo Epicteto, o ex-escravizado e filósofo. Epicuro e sua vida comedida na casa-jardim-escola. Alguns da Patrística, como Dionísio, o pseudo-aeropagita. De lá até nossos tempos, não consigo identificar muitos outros até a época dos existencialistas franceses, como Simone de Beauvoir, Jean-Paul Sartre, Emmanuel Lévinas. E por fim destaco nossa Simone Weil do artigo de hoje.
Ela nasceu em Paris na primeira metade do século XX (1909 até 1943). Viveu intensos 34 anos: aos 12 já dominava o grego arcaico; aos 15 conseguiu se formar em Filosofia e logo em seguida foi aprovada para a tradicional (e concorrida) Ècole Normal Supérieure. Tornou-se professora muito jovem, mas seu inquieto e crítico ‘olhar de mundo a levou para experiências práticas. Em 1934 licenciou-se por dois anos para ir trabalhar na fábrica da Renault, em Paris, para vivenciar o dia a dia das operárias. Em 1938 lutou na guerra civil espanhola. Em 1942 emigrou com a família para os EUA. Voltou para a Europa, para se juntar à resistência francesa durante a 2ª Guerra, mas não conseguiu chegar na França. Morreu em Ashford, Inglaterra, aos 34 anos.
Simone Weil viveu seu próprio modus vivendi filosófico. Nasceu numa família de origem judaica, mas não praticante. Ela e seu irmão, o matemático Andre Weil, cresceram numa vivência agnóstica. Mas nossa filósofa não cabia, digamos, numa única ‘prateleira’. Segundo registros biográficos, leu e se impactou com as ideias do Livro dos Mortos egípcio e também com o Bhagavad Gita, livro essencial para o hinduísmo. E em 1937 teve uma experiência mística e marcante com o cristianismo – embora nunca tenha se convertido a nenhuma religião. Esta é, brevemente, um pouco da nossa filósofa de hoje. Mas por que falo de sua biografia, digamos, antes de entrar no tema, que é a alteridade?
Porque acredito que Simone Weil viveu uma transformação essencial através de sua vivência e experiência filosófica. Sobre isto, o professor e historiador Pierre Hadot, em seu livro A filosofia como maneira de viver, afirma que não dá pra separar o pensador de seu contexto:
“prefiro estudar um filósofo analisando suas obras, em vez de buscar apreender um sistema extraindo de suas obras proposições teóricas separadas de seu contexto.” (p. 120).
Eu também concordo e complemento: Simone Weil, sua obra e seu pensamento são muito atuais e precisam ser lidos e acessados cada vez mais. Por isso hoje me esforço para tentar falar brevemente desta pensadora.
Simone Weil atravessou os indizíveis anos de duas guerras. Viveu um tempo de extrema perseguição e violência e, apesar disso tudo (!) vejo em seus textos, diante de nós, um verdadeiro oceano de pensamentos carregando ondas de ideias sobre o amor, a alteridade e Deus, e muito mais temas. Diante de tantas faces, fica difícil escolher o que falar da filósofa, porque não dá pra reduzi-la e enquadrá-la num único ponto de vista/corrente filosófica.
Em seu livro, Pensamentos desordenados sobre o amor de Deus, um dos que considero mais intensos (lembrando que ela não era vinculada a nenhuma religião), a pensadora fala sobre nossa INCOMPLETUDE:
“Não depende de nós acreditar em Deus; só o que depende de nós é não dar nosso amor a falsos deuses. Primeiramente, não acreditar que o futuro seja o lugar do bem capaz de nos completar. O futuro é feito da mesma substância que o presente.
[…]Não confundir a necessidade com o bem. Há um certo número de coisas que acreditamos precisar ter para vivermos. Frequentemente isso é falso, pois sobreviveríamos à sua perda.
[…]Basta imaginarmos todos nossos desejos satisfeitos. Ao final de algum tempo, estaremos insatisfeitos. Gostaríamos de outra coisa e estaríamos infelizes por não sabermos o que querer. Depende de cada um manter a atenção fixada sobre esta verdade.” (p. 17-8)
Somos seres da carência e da falta por natureza – nascemos dependendo de outra pessoa para nos alimentar, vestir, proteger etc. De saída, necessitamos de uma outra pessoa para seguir existindo.
Simone Weil chama a atenção para atentarmos para este aspecto, tentando, via exercício filosófico, a reflexão para um certo desapego, o que a aproxima muito do que os estoicos e os epicureus pensavam também.
Ainda na mesma obra, ela nos fala sobre o aspecto incomensurável da AMIZADE:
“Há duas formas de amizade: o encontro e a separação. Elas são indissolúveis. Ambas encerram o mesmo bem, o bem único, a amizade. Pois quando dois seres que não são amigos estão próximos, não há encontro. Quando eles estão afastados, não há separação. Contendo o mesmo bem, eles são igualmente bons.” (p. 81)
Esta afirmação é das mais lindas que já li sobre a amizade. É um tema tratado por vários filósofos ao longo de nossa história, como Aristóteles, em sua Ética a Nicômaco. Os amigos são como anjos, como uma teia invisível de proteção que nos acolhe e nos ampara – mesmo quando tudo parece ruir. Aqui volto ao tema-título: eu sou pelo outro e a alteridade a partir de Simone Weil. O encontro com o outro nos remove do nosso ‘em si mesmo’. A alteridade é o outro de mim e nos aponta, diante de nós, o ‘rosto do outro’ (como fala Lévinas) – qualquer outro – e aqui está o difícil, mas necessário exercício ético e filosófico, porque a contemporaneidade e todos os excessos e estímulos múltiplos em que vivemos nos empurram para um certo automatismo quase maquínico. Não olhamos mais o rosto do outro. E aqui uma interdição imperativa weiliana: é preciso mesmo abrir nossos horizontes para ouvir, olhar ou mesmo silenciar respeitosamente diante do outro. Mas de modo que estejamos autenticamente inteiros ali, diante desta outra pessoa. Por mais romântico que possa parecer, isto pode, mesmo, mudar nosso modus operandi e nos direcionar para um bem viver.
Em seguida, trago um recorte sobre o AMOR. E aqui, adianto, vejo um elo ontológico entre alteridade-amizade-amor. Eis o que ela nos diz:
“Nosso próprio ser, a cada instante, possui como estofo, como substância, o amor que Deus tem por nós
[…]Minha própria existência é como um despedaçamento de Deus, um despedaçamento que é amor.” (p. 35-36)
Nós carregamos esta ‘partícula’ cósmica, como nos falam os estoicos. Agostinho de Hipona também afirmava algo próximo, que o mal essencial não existe na natureza; o que há é o afastamento do Bem. E Simone Weil adiciona mais um belíssimo conceito: sou um ‘despedaçamento de Deus’ Uma pequena (e divina) parte, que está posta no mundo, convivendo e coabitando com outros seres que são igualmente um ‘despedaçamento de Deus’. Aqui é preciso uma pausa para entender e refletir sobre essa condição posta, que é atributo e identidade. E se isto é aceito, há uma segunda interpretação: eu preciso entender e levar em consideração a liberdade de existir do outro, que Simone Weil fala reiteradamente nesta e em outras obras. Não esqueçamos também do tempo em que viveu!
Como vimos, nossa filósofa fala de termos como tolerância, empatia, busca por equilíbrio, alteridade e desaceleração. É preciso desacelerar para tentar olhar o outro ao lado, ouvi-lo ou até mesmo, apenas, acolhê-lo no silêncio.
Como já dito, a alteridade é o outro de mim e nisto há implícita a diferença, pois como afirma Weil em O peso e a graça: “a contradição, por si mesma, é a prova de que não somos tudo.”. Vemos aqui uma forte conotação de linguagem lógica-matemática-metafísica. O diferente existe e está ao lado. Eu não sou único no mundo e por isso mesmo preciso pensar e refletir sobre esta alteridade que se me apresenta. Mas muitas outras interpretações podem ser tiradas partir deste ponto de vista.
Por outro lado, nós estamos vivendo e percorrendo o campo fértil da reflexão filosófica, cotidianamente, em maior ou menor escala. Podemos assim, a partir de nossos questionamentos e do essencial exercício do autoconhecimento, mudar nosso modus vivendi, seguindo um caminho de reflorescimento, com nossas dores, alegrias e redescobertas, porque segundo afirma Leda Cartum, pesquisadora e tradutora da obra O peso e a graça:
“para ela (Simone), o pensamento só tinha sentido se ele se realizasse em todos os níveis da existência.” (p. 16).
Daí pergunto: de que matéria é feito o presente? De vidas humanas e animais. De sonhos, medos, vontades, angústias, coragens, de partilhas…da outra e do outro. A vida é composta deste plural, contraditório e potente. Eu sou pelo outro porque sou incompleto, sou carente e sofro, mas, como nos fala Joao Guimarães, em Grande sertão: veredas “refresca teu coração. Sofre, sofre depressa, que é para as alegrias novas poderem vir.”
Vivemos um tempo de selvageria, sem muito exagero, onde o outro é visto como um ‘rival/inimigo’, que precisa ser eliminado/superado. É a lógica do modelo neoliberal onde ‘só pode haver um vencedor’. Mas a partir do que Simone Weil nos fala cabe a pergunta: onde está nossa humanidade? Onde está nossa capacidade de pensar (mesmo), de amar, de compartilhar, de escutar…? Por isso volto ao tema e deixo uma proposta: uma busca por uma autoconfiguração pela alteridade. A contradição e a diferença são a evidência de que não somos tudo e nem somos os únicos. Há um outro de mim, que pode nos levar a uma reflexão filosófica para o exercício do bem viver. Lembrando um pouco a vida breve, luminosa e intensa de Simone Weil, uma pensadora ousada, corajosa e autêntica. Vamos nos permitir ser configurados pela alteridade?
E para ajudar a reflexão, deixo aqui mais um trecho da música Paciência, de Lenine, que citei na epígrafe:
“Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede um pouco mais de alma
A vida não para
Enquanto o tempo acelera e pede pressa
Eu me recuso, faço hora, vou na valsa
A vida é tão rara.”
“A vida é tão rara” e por isso, que é tanto e é muito, pensemos: eu sou pelo outro.
Pensemos mesmo nisto!
Um abraço fraternal e até o próximo artigo na ArteCult.
ZAL










