As margens do Rio São Francisco, sentei-me e me pus a rir

 

Um dia desses, um grande artista das artes cênicas disse que me faltava parcimônia para escrever sobre teatro. Mas como economizar no amor quando a beleza se manifesta à nossa frente? Como falar sem transbordar emoção diante de As Centenárias?

Respondam, por gentileza.

 

Sinopse
Centenárias — o que indica que são muito antigas, não apenas velhas —, as duas protagonistas dedicam suas vidas a chorar os mortos alheios. Travam uma luta bem-humorada contra a Morte, usando o riso e o canto como formas de resistência e de permanência na vida.

 

Agradeço à Andrea do Sarau e a toda a equipe pelos ingressos.

Carpideiras: Zaninha e Socorro.

Primeiro, é preciso entender e respeitar a cultura nordestina. E, para falar dela, é necessário ter vivência — e parece que aqui há de sobra. Dramaturgia, música e direção mergulham com profundidade em suas origens. É assim que se faz. E deu muito certo. Há tanto a dizer que fica difícil escolher por onde começar.

As Centenárias já foi vivida por Marieta Severo, Andréa Beltrão e Sávio Moll. Fico imaginando essas presenças em cena. Disse Wanderley Gomes que, ao assistir, precisou voltar para ter certeza do que tinha visto. O produtor Julio Luz também mergulhou duas vezes nessa montagem — e eu, que não sou boba, vi em link.

É inevitável pensar no que essas atrizes alcançaram com o material. Andréa Beltrão, por exemplo, desmonta tudo: me fez rir no sofá de casa, sem aparato, sem grandiloquência, apenas com precisão e invenção com um boneco em mãos. Teatro no estado mais puro.

A montagem atual reúne Laila Garin, Juliana Linhares e Leandro Castilho.

E há beleza em tudo. Não pouca — muita. Entrega, rigor, trabalho de cena.

O texto de Newton Moreno confirma o que já sabemos: é um dos grandes dramaturgos do país. Seu Nordeste não é decorativo — é orgânico, pulsante. Corre nele algo que já não é só sangue: são águas de rio São Francisco, memória viva.

A trilha de Chico César é pura travessia. Ele dança entre riso e dor com naturalidade, criando uma ambiência que embala e atravessa o espetáculo.

Na direção, Luiz Carlos Vasconcelos mostra domínio absoluto. Com formação sólida e trajetória que passa por nomes como Gerald Thomas e Philip Glass, além do emblemático Vau da Sarapalha, ele constrói aqui mais uma obra de fôlego. Preenche o palco com inteligência — como um estrategista que move peças com precisão, como se fosse um tabuleiro, basta trocar o cavalo do xadrez pelo Boi Bumba e pronto, mas nesse caso lida só com “rainhas e um rei” mesmo.

A direção de movimento de Vanessa Garcia é arrebatadora. Corpos em estado de invenção, saias que giram, marcações rigorosas: um trabalho que revela tempo, disciplina e sensibilidade.

Os figurinos de Kika Lopes e Heloísa Stockler são deslumbrantes. Paleta impecável, volumes que evocam fantasia e tradição. O visagismo acompanha com igual potência.

O cenário de Aurora Campos é simples e preciso: um caixão, um quarto, uma porta. E basta. A objetividade se torna grandeza.

A luz de Elisa Tandeta merece atenção especial, sobretudo na cena do nascimento — delicada, simbólica, emocionante. Oscila entre suavidade e intensidade com precisão cirúrgica.

Agora, ao que interessa.

Leandro Castilho talvez entregue aqui o melhor trabalho de sua carreira. Um multiartista completo: canta, atua, se transforma com fluidez impressionante. Como a Morte, envolto em vermelho, é hipnótico. No coronel traído, arranca gargalhadas quase indecentes. E há cenas que ficam — simplesmente ficam.

Laila Garin é gigante. Provocadora, intensa, entregue. Engana a morte, joga com o corpo e com a voz sem qualquer economia. Não tenho intimidade, mas tive vontade de abraçá-la. O que ela faz é para o outro — e isso se sente.

Sobre sotaque, representação e essas discussões recorrentes: teatro é construção. É pesquisa, é verdade em cena. Representatividade importa — e muito — como escuta, como orientação, como responsabilidade. Mas não substitui presença, técnica e rigor. O ideal é quando tudo isso se encontra. E aqui, encontra.

Juliana Linhares surpreende. Um corpo vivo, brincante, cheio de intenção. Cada gesto carrega sentido. Ela brinca com os olhos, voz, trejeitos únicos! Ela trabalha com os dedos dos pés minha gente! Em cena com Laila, cria momentos de puro delírio e emoção.

Através delas, entendemos a morte rondando e a vida insistindo. Entendemos Maria Bonita, entendemos o riso como resistência.

Tudo costurado pela música de Chico César, como se o Velho Chico atravessasse o palco.

Parece que tudo deu certo.
Parece que tudo foi orquestrado com precisão.

Um Nordeste elegante, pulsante, vivo.

E, ao final, restam as palmas — inquietas, insistentes — como única forma possível de agradecimento.

 

Ficha Técnica:

Com: Laila Garin, Juliana Linhares e Leandro Castilho.
Texto: Newton Moreno
Canções originais: Chico César
Uma encenação de Luiz Carlos Vasconcelos
Direção Musical e Arranjos: Elísio Freitas
Direção de Movimento e Assistente de Direção: Vanessa Garcia
Direção Geral e Produção artística: Andréa Alves
Diretora de Projetos: Leila Maria Moreno
Idealização: Andréa Alves e Juliana Linhares
Desenho de luz: Elisa Tandeta
Desenho de som: Gabriel D’Angelo
Cenógrafa: Aurora Campos
Figurinos: Kika Lopes e Heloisa Stockler
Design Gráfico: Beto Martins
Coordenadora de produção: Hannah Jacques

 

SERVIÇO 

De 10/04/2026 até 10/05/2026

Dias
Quinta19h
Sexta19h
Sábado17h
Domingo17h
Duração

90 minutos

Valor
R$80 (inteira) / R$40 (meia)

Teatro Municipal Carlos Gomes
R. Pedro I (Praça Tiradentes), 4 , Centro, Rio de Janeiro/RJ – 20060-080

 

Paty Lopes (@arteriaingressos). Foto: Divulgação.

 

 

 

Author

Dramaturga, com textos contemplados em editais do governo do estado do Rio de Janeiro, Teatro Prudential e literatura no Sesi Firjan/RJ. Autora do texto Maria Bonita e a Peleja com o Sol apresentado na Funarj e Luz e Fogo, no edital da prefeitura para o projeto Paixão de Ler. Contemplada no edital de literatura Sesi Fiesp/Avenida Paulista, onde conta a História de Maria Felipa par Crianças em 2024. Curadora e idealizadora da Exposição Radio Negro em 2022 no MIS - Museu de Imagem e Som, duas passagens pelo Teatro Municipal do Rio de Janeiro, com montagem teatral e de dança. Contemplada com o projeto "A Menina Dança" para o público infantil para o SESC e Funarte (Retomada Cultural/2024). Formadora de plateia e incentivadora cultural da cidade.

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