

Cena da peça “Onde o Vento faz a Curva” | Crédito: Roberto Carneiro
Onde o vento faz a curva
Sinopse
um espetáculo sem falas, que conta a jornada de Maya, uma menina surda que aprende com sua avó a controlar o vento e a respeitar as forças da natureza. Com a chegada da seca, surgem figuras assustadoras e pessoas que tentam dominar aquilo que é essencial à vida. Maya parte em uma viagem guiada pelo vento, atravessando territórios áridos, criando amizades improváveis e superando desafios cheios de poesia e humor. A personagem é representada por uma boneca em tamanho natural, manipulada por uma atriz surda.
Esse Breno Sanches, dramaturgo e diretor, veio como um concorde com força!
Estamos acostumados com espetáculos impactantes vindos de São Paulo, mas eis que a surpresa chega. E, para minha alegria, no Sesc Tijuca tive a sorte de assistir a Onde o Vento Faz a Curva, uma obra sofisticada e elegante, que me deu a sensação de ter sido criada dentro de uma casinha de contos de fada. Há doçura, há licença poética no mais alto nível; tudo nos conduz à emoção, ao encanto.
Embora não exista uma dramaturgia falada, Maitê e Teodoro, de quatro anos, não piscavam os olhos, conectados ao amor que transbordava no palco. O olhar da boneca os toca, e eu fiquei pensando sobre isso por um bom tempo. Como Diirr conseguiu essa verdade nos olhos dessa menina que voa com o vento e faz amizade com todos, inclusive conosco, espectadores?
A criação do tatu também foi minuciosa e encantadora
O cenário carrega tanta elegância que ficamos sem chão. Não acredito que o cenário seja o fator principal de um espetáculo. O artista é o centro, e nisso concordo com as palavras de Fernanda Montenegro, ouvidas na primeira semana de fevereiro. Mas, obviamente, este cenário é espetacular, com cores muito bem-vindas.
Longe de ser uma obra que retrata o Brasil, nossa arte e nossa cultura, o espetáculo nos conduz a outra cultura, a outro espaço, o que também é bem-vindo.
É sempre bom deixar claro onde está o olhar de uma crítica, o que se aborda e a partir de que perspectiva. O mesmo ocorre, por exemplo, na construção musical: ela não me remeteu a nenhuma canção nacional, mas é de muitíssima qualidade. Isso é inquestionável.
Inclusive, em todo o espetáculo não encontrei crítica negativa nem mesmo uma crítica construtiva. Apenas elogios aos feitos do grupo.
A amizade, a inclusão, o cuidado com o meio ambiente, o respeito à força da natureza e a importância da água aparecem de maneira delicada, apostando em um olhar cuidadoso para o nosso planeta. Não sei se houve essa intenção explícita por parte do dramaturgo, mas o fato é que permanece em nós a importância de cuidar deste mundo terrestre.
Em meio ao espetáculo, os antagonistas surgem: dois artistas que atuam com dignidade em suas expressões faciais, divertidíssimos. Embora ocupem esse espaço do “mal”, são leves e extremamente competentes naquilo que comunicam com comicidade.
Assim como os antagonistas criados por Diirr: quatro bonecos lindíssimos e imensos, preenchendo a cena. Uau, que espetáculo!
Os figurinos também são belos, elegantes e fluidos, cada qual à sua maneira. Senhor, tive a sensação de estar diante do melhor espetáculo do mundo. Aliás, uma criança disse a eles: “o melhor show!”. Isso diz tanto… Porque quando fazemos teatro para crianças, nosso público-alvo são elas. Elas precisam sair do teatro felizes, e isso acontece.
Embora a obra traga bonecos estranhos, tudo é apaziguado. O bem vence o mal. E, nos dias atuais, isso é tão importante: mostrar que o mal não é um caminho a ser seguido.
Quanto aos artistas, é fato que estão muito bem preparados. A obra está linda. Eles não são apenas satisfatórios, são excelentes, Hugo Souza, Jhonatas Narciso, Juliana Rodrigues e Tatiane Santoro, perfeitos, potentes!
Não posso deixar de mencionar, nesta crítica, os artistas Ana Carolina Sauwen e Marcio Nascimento, grandiosos na arte de fazer teatro. Carolina trouxe a comicidade dos antagonistas com precisão. Marcio, minha referência brasileira no teatro de animação, dirige esse estilo teatral que tanto amo com maestria.
Assim como a querida responsável pela luz, que atravessa um momento delicado na vida pessoal, demonstra um profissionalismo assertivo. A moça da luz parece viajar tão alto quanto a boneca que voa no vento.
Entendi uma coisa através desse espetáculo: a expressão “bons ventos”. Bons ventos sempre trazem coisas boas. E, neste caso, posso dizer que o vento me trouxe uma obra de tremendo bom gosto, que encantou a mim e a um teatro lotado de crianças, caladas e entorpecidas, em verdadeiro transe.
Viva o teatro!
FICHA TÉCNICA:
- Dramaturgia e Direção: Breno Sanches
- Elenco: Hugo Souza, Jhonatas Narciso, Juliana Rodrigues e Tatiane Santoro
- Direção de formas animadas: Marcio Nascimento
- Bonecos e Formas Animadas: Diirr
- Assistente de Bonecos e Formas Animadas: Erick Saar
- Preparação de elenco e direção de comicidade: Ana Carolina Sauwen
- Trilha Sonora: Marcello H
- Interlocução de Trilha Sonora: Felipe Monteiro
- Consultoria em acessibilidade estética: Gislana Monte Vale
- Adereços: Alice Cruz e Carla Costa
- Cenário: Alice Cruz e Breno Sanches
- Costura de cenário: Atelier Tramontin
- Cenotécnico: Djavan Costa
- Assistência de Cenografia: Eduarda Brandão
- Figurino: Carla Costa
- Assistente de figurino: Eduarda Sanques e Karollayne Ferreira.
- Iluminação: Ana Luzia de Simoni
- Operação de luz: Paulo Ignácio
- Operação de som: Carolina Godinho e Igor Borges
- Interpretação de Libras: Lorraine Mayer
- Audiodescrição: Nara Monteiro
- Arte Gráfica: Ludmila Valente
- Fotógrafo: Roberto Carneiro
- Gestão de Mídias Sociais e Videomaker: Erick Ligneul |Cachoeira Cria Produções] Assessoria de imprensa – Lyvia Rodrigues
- Assistente de produção: Marina Dib/Pagu Produções Culturais
- Produção executiva: Ana Flavia Massadas/Pagu Produções Culturais
- Direção de Produção: Fernanda Pascoal/Pagu Produções Culturais
- Realização: Cia Teatral MilongasArte visual e design
SERVIÇO:
Espetáculo: ´Onde o vento faz a curva´
- Teatro I – Sesc Tijuca
Rua Barão de Mesquita, 539 – Tijuca - Classificação: Livre
- Dias e horário: Sábados e domingos, 16h
- Entrada: R$20,00 (Inteira)/R$10,00 (Meia-entrada)/R$18,00 (Conveniado)/R$14,00 (habilitado Sesc)/Gratuito (PCG)
- Datas: de 28 de fevereiro a 29 de março de 2026



Paty Lopes (@arteriaingressos). Foto: Divulgação.

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