TOMANDO CHÁ COM O AUTOR

 

TOMANDO CHÁ COM O AUTOR

 

O primeiro papo com o autor é importantíssimo para a construção de um livro. É quando ele expõe, pela primeira vez, sua vontade de publicar. Se for um primeiro livro, então, vai dizer “que nunca fez isso antes”. Claro, senão não seria um primeiro livro. Mas a necessidade de explicar que nunca passou por essa experiência é latente. Todos se atrapalham para falar sobre o incômodo sentimento de quererem publicar um livro; um filho (!) muitos dizem, misturando-se a publicação a algo que é gerado e cuidado por nós, como filhos, plantas e animais.

Não é bem a mesma coisa. Um livro não é um filho. É muito mais complicado, porque temos de fazer o que a natureza faz sozinha. Assim um livro começa a ser concebido sem capa, sem orelhas, sem texto de contracapa, sem prefácio, sem biografia, nem foto do autor.

E, ao chegar para esse primeiro papo, o autor só está pensando em lançá-lo! Mas, calma, o livro nem nasceu e já estão pensando na distribuição, e novamente dizem que não sabem como se faz isso. Evidente que não. E essa parte é mais complicada ainda. Enquanto o livro depende unicamente do editor, é mais fácil, porém, quando ele começa a dar seus passinhos no mundo, aí entram livraria, distribuidor, representantes, depósitos, correio, tudo o que é gente que só vê no livro um “produto”, não mais um “filho”, ou a publicação de um autor.

Sei. E quando o livro é de poesia, a coisa fica pior ainda: certa vez, tive de explicar a uma poeta que poesia não vende pouco, mas “aos poucos”, e vende sempre. Há um mercado “negro” de livros de poesia que a mídia e as estatísticas ainda não descobriram. A quem me diz que poesia não vende, eu pergunto:

“Você vende poesia? Não? Se vendesse, saberia que poesia vende. Eu vendo poesia há 45 anos”.

Mas voltemos ao chá com o autor: ele estava falando ali que há muito tempo quer publicar seu livro, que reuniu os poemas durante um período de convalescença, que viajou, que viveu fora, teve filhos, perdeu a mãe, o pai, o marido, a mulher… que os poemas são muito importantes para ele (pode ser prosa, mas a afluência de poetas é muito maior).

Certo, o que o autor está fazendo é confiando sua alma, seu sonho ao editor. E o editor que negligenciar isso, vai perder a chance de fazer um bom trabalho. O autor não quer apenas publicar um livro, ele quer que seu sonho se realize, e esta realização vai lhe custar um bom preço, pois sempre teremos de bancar nosso primeiro livro, quando não o segundo, o terceiro, o quarto… (se não houver patrocínio de qualquer tipo).

Manuel Bandeira não tinha livro de poesia publicado quando foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, em 1940. Os amigos tiveram de se cotizar para que Manu tivesse 200 cópias de um com seus poemas reunidos, para oferecer aos acadêmicos após a posse. Murilo Mendes nunca teve editor no Brasil. E Drummond só foi publicado pela José Olympio, em 1942, reunindo seus três primeiros livros. Mário de Andrade também bancou a si próprio, como todos os poetas que se prezam, e que querem ver sua obra difundida.

Um livro para ser bancado por um editor tem que vender. Isso é ponto pacífico. Mas o primeiro encontro entre o autor e o editor para falar sobre seu livro, e tomarem seu primeiro chá ou café juntos, vai determinar a sequência do trabalho: ali eles estabelecem o que irão fazer, o título, a ordem dos poemas, o que sai e o que fica, e vão continuar conversando, até tudo ficar resolvido – a revisão, a paginação, a capa, ufa!

Até a última hora, surgirão problemas a serem resolvidos. Já vivi essa situação tantas vezes que nem sei mais como não fazê-la, mas toda vez me surpreendo com uma situação “nova”, algo nunca experimentado antes. Se tudo vai bem durante a revisão e projeto gráfico do livro, pode esperar que na impressão vamos nos deparar com alguma surpresa. Mas há, curiosamente, os livros perfeitos, aqueles que nunca reclamam enquanto estão sendo preparados.

A esses, cabe a glória da perfeição editorial, algo que só acontece em certas conjunções favoráveis de Vênus e Júpiter na Casa do Trabalho. Senão, algum inferno astral se instala em algum ponto da trajetória, e é preciso ter sabedoria para segurar as mãos do autor e dizer: “Confie em mim, tudo vai dar certo”, porque, por experiência, sabemos que vai dar – é só driblar as situações, uma a uma, à medida que surgem à frente.

E tudo nasce naquele primeiro chá ou café que tomaram juntos.

Thereza Christina Rocque da Motta

Fevereiro de 2026

 

 

 

Colunista ArteCult e editora
da Ibis Libris Editora (@ibislibris)

 

 

 

 

Author

Thereza Christina Rocque da Motta (São Paulo, SP, 1957) é poeta, editora e tradutora. Foi Jurada de Tradução do Prêmio Jabuti, em 2018. Recebeu a Medalha Chiquinha Gonzaga da Câmara dos Vereadores, em agosto de 2021. Coordena a Ponte de Versos desde 2000, evento incluído no Calendário Oficial de Cidade do Rio de Janeiro, em 2024. Fundou a Ibis Libris no Rio de Janeiro, em 2000. Publicou Joio & trigo (1982), Capitu (2014), Lições de sábado (crônicas, 2015), Minha mão contém palavras que não escrevo (2017), O amor é um tempo selvagem, Lições de sábado Vol. 2 e A vida dos livros Vol. 2 (2018), Poesia Reunida 40 anos (1980-2020), Sheherazade: Novas lendas das 1001 noites e três já conhecidas (2022), entre outros. Traduziu, entre outros, Marley & Eu, de John Grogan (2006), A Dança dos Sonhos, de Michael Jackson (2011), 154 Sonetos, de William Shakespeare (2009), Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll e O Corvo, de Edgar Allan Poe (2020), Mais mortais que os homens, org. Graeme Davis (2021) e A última casa da Rua Needless, de Catriona Ward (2023), vencedor do British Fantasy Award, como Melhor Romance de Terror de 2022.

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