

Foto do espetáculo “Fafá de Belém, O Musical” | Divulgação
Fafá de Belém, O Musical
“O Rio Comanda a Vida”, livro do paraense Leandro Tocantins, parece ter abandonado as páginas para se transformar em ação diante dos meus olhos no palco do Teatro Riachuelo, no centro da cidade do Rio de Janeiro. Quando ganhei esse livro, ainda com vinte e poucos anos, aprendi muito sobre quem somos e sobre essa terra complexa, diversa e riquíssima chamada Brasil.
É como se Gustavo Gasparani tivesse decidido seguir o curso dessas águas. À maneira dos povos indígenas, em um ritual de passagem, lançou o corpo ao rio amazônico e dele emergiu transfigurado, encantando a classe artística e, sobretudo, o público. Há tempos não se vê um espetáculo acolhido com tamanha inteireza, daqueles em que o aplauso nasce antes mesmo de qualquer tentativa de encontrar falhas, como em “Fafá de Belém, O Musical”.
Em entrevista, o diretor artístico e dramaturgo contou que partiu da ideia inicial de Nelson Rodrigues, em Vestido de Noiva, ao trabalhar diferentes planos narrativos para contar a história de Fafá. E o fez com precisão, sensibilidade e absoluto domínio de linguagem.
Gasparani vem tecendo um legado sólido e indestrutível no teatro brasileiro, como um dia profetizou a crítica Barbara Heliodora no livro “A História do Teatro no Rio de Janeiro”. Sua obra revela maturidade estética, coerência artística e profundo compromisso com a cena nacional.
Se o idealizador Jô Santana, em seus inúmeros trabalhos, sempre falou sobre o Brasil, esse encontro não poderia ser mais certeiro. É como raiz fincada em terra fértil, alimentando não um jequitibá, melhor dizendo um pé de açaí, porque assim é Gasparani: nada o enfeitiça mais do que o país de berço esplêndido em que nasceu, assim como Jô Santana. Pode-se até apreciar musicais que contam histórias estrangeiras, mas o que realmente move suas almas é o Brasil.
Gustavo, que já havia dirigido um dos shows de Fafá de Belém, partiu com meio caminho andado e seguiu firme, seguro e assertivo do início ao fim da montagem. Mas claro que era só meio caminho andado, e para continuar a pesquisa de Rodrigo Faour, o ajudou a seguir esse rio.
O espetáculo traz as encantarias de um país que, aos poucos, parece se descortinar para outras regiões através da voz e da presença de Fafá.
A narrativa se inicia com Lucinha Lins, que conta a história da família no estado do Pará. Uma delícia ouvi-la. Lucinha sustenta sua personagem com precisão e reafirma a grande artista que sempre foi e é. O tom de voz é fantástico, a desenvoltura do entoar musical dela é macia, gostosa de ouvir, um presente para ela e para nós.
Em seguida, Laura Saab chega ao palco nos conduzindo à infância da artista. A atriz, neta da homenageada, estudou teatro em São Paulo e, apesar da juventude, revela delicadeza e verdade cênica. A menina Fafá surge com doçura, timidez e força: o último traço parece ecoar da avó.
Nesse primeiro momento, somos apresentados à lenda da Cobra Grande, que vive adormecida sob Belém, entre a Cidade Velha e Nazaré, com a cabeça na Catedral da Sé e o corpo na Basílica de Nazaré. Conta-se que, se despertar, a cidade afundará no rio. A história é narrada por Ananda K, artista nordestina que é abençoada pela musicalidade, aliás já foi indicada ao prêmio Shell por direção musical. Com violão, sotaque e jogo cênico, inclusive brincando com o português de Portugal quando homenageia a cantora por cantar Fado no país, conduz as cenas com excelência.
No núcleo familiar, a escolha de Mona Vilardo para interpretar as primeiras canções entoadas pela mãe de Fafá é de extrema inteligência. Quem conhece a atriz sabe de sua maestria vocal para o repertório da época. Thuca Soares também se destaca ao interpretar uma cantora do mesmo período, esbanjando nobreza e elegância em cena.
Nas encantarias, surge o Boto, magistralmente Renato Vieira (coreógrafo), imprime ao corpo do ator movimentos não humanos, criando uma presença híbrida e mítica.
A cena dialoga com o texto do dramaturgo amazonense Sérgio Vieira Cardoso, do livro “Teatro Urbano das Mulheres de Lazone – Quatro Dramaturgias Barehs” publicado em 2023 pela coleção Pensamento Amazônico, relançado na Academia Brasileira de Letras durante o FETAM (Festival de Teatro da Amazônia) em 2024.
Ascensão e o Boto
Ascensão (a moça, chocada):
— O que é isso, meu amor?
(Seu dedo anelar afunda em um buraco profundo no centro da cabeça do homem. Ele se mostra atônito por um instante, mas logo volta a sorrir.)
Ascensão:
— A moleira não fechou?
Jonathan (o Boto):
— Os botos são homens com um buraco no meio da cabeça.
Destaco aqui o trabalho grandioso de Tovar no figurino: o chapéu que cobre a cabeça do boto e a saia de tecidos vestidos pela atriz Helga, que interpreta Fafá, com faixas amplas que pareciam furta cor ao encontro da luz, que voam em cena nos transportando diretamente aos rios amazônicos: um verdadeiro desbunde teatral.
Tovar, reconhecido por seus pares como um gênio, mais uma vez nos deixa boquiabertos. Mesmo contando com o carinho e a generosidade da homenageada, que cedeu pertences pessoais ao espetáculo, o figurinista constrói a obra com profunda verdade sobre a região Norte e a história da cantora.
Na cena do Círio de Nazaré, a pele arrepia. O figurino remete à apresentação de Fafá ao Papa Francisco, em 2013. O Círio, maior festa do Pará, é uma romaria sem igual no país. Como descreve Percival Tirapeli em Festas de Fé: “uma multidão sem fim, turbulenta como uma pororoca, um encontro de almas e angústias terrenas”. A entrada do padre ao som do canto gregoriano em latim, interpretado por Gabriel Manitta, ecoa no teatro como um luxo raro.
Na maturidade da artista, Helga Nemetik assume o papel de Fafá de Belém. A atriz, que recentemente esteve no SESI Fiesp com um monólogo questionando a ausência de protagonismo em sua carreira, agora o conquista plenamente. Helga canta, dança, se entrega. A voz, incrivelmente próxima da original, conduz o público sem ruídos ou dúvidas. É Fafá ali!
O cenário de Ronald Teixeira acerta mais uma vez. Barcos descem, planos se movem, portais se abrem, conduzindo os artistas por diferentes fases da vida da cantora. A iluminação de Paulo César Medeiros (Paulinho) explode em cores, ampliando a experiência sensorial.
As canções foram escolhidas com inteligência e afeto. Viajamos no tempo da artista, no nosso tempo, no tempo do Brasil. O musical cumpre sua missão: abrir nossos olhos para o nosso povo, para os nossos. Nos faz refletir sobre quem devemos agradecer.
Fafá de Belém, que foi perseguida após subir em 32 palanques sem receber nada em troca, lutando pela democracia, merece nosso reconhecimento. Com um decote do tamanho do Brasil, não recuou. Defendeu o próprio corpo, mergulhou no brega, no popular, no que o povo queria. Separou-se da elite e apostou no Brasil, porque o Brasil está muito longe de ser elite.
Fafá foi ontem, foi anteontem, é agora. Emociona, conquista o mundo.
E quando achamos que a emoção já atingiu o auge, somos levados à Parintins. Nem todos podemos estar lá, mas o Festival chega ao palco com seu boi-bumbá, mito indígena e explosão de cores. Quando o boi mais brasileiro desse país entra em cena, logo chega Naieme, paraense, surge como Cunhã-Poranga, vestida de vermelho, fervendo brasilidade, o sangue aquece em nossas veias. A arte deste país nos emociona, e é uma das mais belas do mundo. E nos abraçamos a “Vermelho”, canção que marca nossa cultura.
A oralidade indígena é defendida. A canção “Indauê Tupã” ecoa, lembrando que temos forças ancestrais que nos guardam.
Fafá abriu portas para nós no passado, com coragem e resistência. A ela, por tudo, agradeço e a todos os artistas envolvidos nesse espetáculo, deixo minha reverência.
Declaro: que sorte a minha poder viver essa inigualável festa brasileira.
FICHA TÉCNICA:
FAFA DE BELEM , O MUSICAL
- Idealização e direção de produção: Jô Santana
- Texto: Gustavo Gasparani e Eduardo Rieche.
- Direção geral: Gustavo Gasparini
- Pesquisa: Rodrigo Faour
- Elenco:
Lucinha Lins (atriz convidada)
Helga Nemetik
Laura Saab
Ananda K
Clarah Passos
Daniel Carneiro
Diego Luri
Fernando Leite
Gabriel Manitta
Keren Silveira
Mona Vilardo
Naieme
Sérgio Dalcin
Thuca Soares - Músicos:
- Maestro/regência: Glauco Berçot
- Baterista: Bruno Martins
- Baixista: Didier Fernan
- Percussão: Fábio D´Lélis
- Cordas: Frank Russo
- Diretora assistente: Iléa Ferraz
- Direção musical: Marcelo Alonso Neves
- Assistente de direção musical: Glauco Berçot
- Coreografia: Renato Vieira
- Coreografa assistente: Soraya Bastos
- Equipe de cenografia:
- Cenografia: Ronald Teixeira
- Cenógrafo Assistente: Pedro Stamford
- Cenógrafo Projetista: George Bravo
- Aderecista Escultor: Gabriel Barros
- Cenotécnico: GT Cenografia – Guilherme Tommasi
- Assistente de Cenografia e Cenotecnia: Ricardo Junior
- Design Gráfico da Cenografia: Flavio Graff
- Equipe de figurino:
- Figurinista: Claudio Tovar
- Assistente de figurino: Paulo Raika / Rodrigo Cachoeira
- Costureiras (os) : Marien Modas/Lugall/Dilan Jara
- Visagista: Beto Carramanhos
- Desenho de som: Bruno Pinho e Paulo Altafim
- Iluminador: Paulo Cesar Medeiros
- Equipe de comunicação:
- Fotos still: Leo Aversa
- Fotos de cena: Nil Caniné
- Design gráfico: DOROTÉIA DESIGN / Adriana Campos,
Flávia Pacheco, Pedro Cancelliero e Iara Moraes - Marketing: Edu Santos
- Marketing cultural e parcerias: Gheu Tibério
- Assistente de marketing cultural e parcerias: Paula Rego e Pedro Ribeiro
- Assessoria de imprensa: amigos comunicação /Mauricio Aires e Rogério Alves
- Clipping: Top Clip
- Social media: Stace Mayka
- Performance: V2P
- Equipe de produção:
- Direção de produção: Carmem Oliveira / Renato Araújo
- Assistente produção: Thales Huebra
- Estagiária de produção: Leticia Ribeiro
- Chef: Osmar Ribeiro
- Copeira ensaio: Lidiane Silva
- Equipe administrativa:
- Direção financeira e leis de incentivo: Janaína Reis
- Assistente Administrativo: Marcela Lima
- Jurídico e contabilidade:
- Assessoria jurídica: FRANCEZ ADVOGADOS – Andrea Francez, Myrna Malanconi e João Pedro Batista
- Contabilidade: Yara Brasil
- Equipe Técnica:
- Direção técnica: Ricardo Santana
- Maquinista: Kadu Carvalho
- Contrarregra: Bubu
- Peruqueira Chefe: Raquel Reis
- Peruqueiro: Vandinho Cardin
- Camareiras (os): Ligia Silva / Alessandra Persan e Paulo Raika
- Operador de som: Jeff Almeida
- Microfonista: Michael de Alexandria
- Operador de luz: Ale Farias
- Fisioterapia: CTDJ Centro de Terapias Debora Jardim
- Produção: Charge Produções e Fato Produções
SERVIÇO:
FAFA DE BELEM , O MUSICAL
- Datas das Apresentações:
De 15 de janeiro de 2026 ao dia 08 de março de 2026, de quinta-feira a domingo (carnaval não haverá apresentação).
Horários: De quintas-feiras e sextas feiras as 20h – sábados e domingos, às 17h. - Ingressos:
- Plateia VIP – R$ 200,00
- Plateia – R$ 180,00
- Balcão Nobre – R$ 100,00
- Balcão – R$ 40,00
- Classificação indicativa: 12 anos
- Duração: 02h40 (com intervalo de 15 min.)



Paty Lopes (@arteriaingressos). Foto: Divulgação.









