

O teatro para além da definição
Crítica do espetáculo “TIP”
Existe uma definição para o teatro? Segundo o Google, sim: uma manifestação artística ancestral em que atores interpretam histórias para provocar sentimentos e reflexões. Mas essa definição, embora correta, é insuficiente. O teatro está para além. Para além da técnica, da profissão e até da sobrevivência financeira. É sonho, transformação, fuga, fé. E, sobretudo, insistência.
Essa ideia atravessa “TIP”, espetáculo apresentado no SESI Firjan, no Centro do Rio de Janeiro, e que retorna em janeiro no Teatro Sérgio Porto. Com casa cheia na última sessão, a montagem provocou reações diversas — aplausos entusiasmados, desconfortos visíveis, discordâncias —, mas uma unanimidade se impôs: a atriz é extraordinária.
Milla Fernandez não está apenas “muito bem” em cena. Ela vai além. Corajosa, leal a si mesma e profundamente humana, a atriz expõe verdades sem ornamentos, transformando a própria experiência em matéria cênica. E o risco compensa.
Dirigida por Rodrigo Portella, um dos nomes mais consistentes da direção teatral contemporânea, a obra nasce da escassez e da crença absoluta no teatro. Ensaiada em casa, na cozinha, nos intervalos da vida cotidiana, “TIP” aposta na essência: atriz, texto e plateia. Não há cenário elaborado, nem aparato técnico excessivo. Há presença.
O espetáculo é um relato de autoficção que parte da experiência de Milla durante a pandemia. Diante da urgência financeira e da ausência de perspectivas no setor cultural, a atriz encontrou no sexo virtual — com apoio do marido e da família — uma forma imediata de sustento. Tornou-se camgirl, atendendo desejos de clientes anônimos em troca de gorjetas, os chamados tips.
Com humor ácido e inteligência cênica, Milla percorre situações cômicas, constrangedoras e dolorosas do universo do entretenimento adulto, sem vitimização e sem glamourização. O texto é extenso — em alguns momentos excessivo —, mas alterna provocação e riso, mantendo a plateia em estado de atenção contínua.
Antes mesmo de iniciar a narrativa central, a atriz fala diretamente ao público sobre a precariedade da profissão teatral: os inúmeros “nãos”, quase sempre sem justificativa, e o desgaste emocional que isso provoca. O recado é claro e necessário: continuem tentando.
Um dos momentos mais potentes da encenação surge com a interpretação de I Dreamed a Dream, de Os Miseráveis. Cantada com sarcasmo e emoção contida, enquanto a atriz se envolve em um tapete vermelho, a canção dialoga diretamente com as frustrações da vida artística e com as promessas quebradas do sistema cultural, com a mesma força quando a atriz traz à tela a moça latina. Que delícia de cena! Claro que foi aplaudida em cena aberta.
Uma pergunta que ecoa é inevitável: quem são os miseráveis dessa história?
A trilha sonora, assinada por Puppi e Leonardo Bandeira, contribui decisivamente para a dramaturgia. Puppi, também responsável pela direção musical, conduz a cena com precisão e sensibilidade — como se o espetáculo fosse pensado musicalmente desde sua origem. Na verdade, em qualquer ressonância do cérebro de Puppi é notório a presença de notas musicais.
Já o figurino de Karen Brusttolin rompe com estereótipos: nada de caricaturas ou erotização óbvia. O que se vê é elegância, clareza e respeito à personagem e à atriz. Como sempre, a figurinista não erra. Sua criação dispensa exageros ou justificativas.
Há ainda momentos de grande virtuosismo técnico, especialmente quando Milla transita entre idiomas e personagens, revelando domínio absoluto do corpo, da voz e do tempo cênico. Quando se fragmenta em várias mulheres em uma só, expõe a loucura — e o faz com força e precisão.
“TIP” é um espetáculo necessário. Não apenas pelo tema que aborda, mas pela forma como reafirma o teatro como espaço de verdade, confronto e humanidade. Uma obra que não pede julgamento moral, mas convida à escuta.
Acima de tudo, “TIP” fala do teatro para além de qualquer definição possível. Porque o teatro, quando é vivo, insiste.
Trocas
Em 2001, eu morava no Espírito Santo e procurava trabalho, sozinha em uma cidade que não conhecia. Naquele tempo, as oportunidades ainda estavam nos jornais. Li um anúncio que dizia: procura-se digitadoras tradutoras. Antes mesmo de ir para a Embratel, fui contratada pela Global Mídia, com carteira assinada, um salário que chamava atenção e, antes disso, algumas entrevistas em inglês. E lá fui eu.
A empresa ficava em um endereço nobre e era administrada por dois alemães. Vendia quatro salas onde mulheres dançavam usando peças mínimas. Eu era a ponte entre elas e os clientes, que faziam pedidos às mulheres que dançavam, rebolavam, mandavam beijos e, por vezes, se colocavam nuas.
Tudo o que Milla relata e leva ao espetáculo é verdade. Existem homens de todos os tipos nesses lugares: alguns eram piedosos com aquelas garotas, outros profundamente repulsivos. Alguns entravam apenas para conversar comigo, tentando desviar minha atenção.
As meninas trabalhavam 24 horas por dia — Natal, Ano Novo, sem exceção. Era necessário. Vidas atravessadas por urgências, histórias difíceis, desestrutura por todos os lados. Ao contrário de Milla, a educação formal era escassa entre elas. Foram quase quatro anos digitando em inglês e tentando compreender tudo aquilo.
À Milla, afirmo que não importa o que fizemos, mas o que faremos! Brilhe garota!
FICHA TÉCNICA
Espetáculo “TIP”
- Dramaturgia e Performance: Milla Fernandez
- Direção: Rodrigo Portella
- Direção Musical: Federico Puppi
- Trilha Sonora Original: Leonardo Bandeira (bateria) e Federico Puppi
- Figurino: Karen Brusttolin
- Cenário e Luz: Rodrigo Portella
- Colaboração: Georgina Vila Bruch
- Fotos: Ale Catan
- Mídias Sociais e Gestão de Tráfego: Nathália Alves
- Identidade visual: José Mancini e Diego Navarro
- Visagismo: Neandro Ferreira
- Captação de Apoio: RumoToloá
- Produção: Ártemis e Virgínia Bravo (Ártemis Produções Artísticas)
- Realização: Mil Atividades Artísticas
- Assessoria de Imprensa: JSPontes Comunicação – João Pontes e Stella Stephany
- Direção: Rodrigo Portella



Paty Lopes (@arteriaingressos). Foto: Divulgação.

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