POR QUE OS LIVROS SÃO DIFERENTES

Arte Digital: Chris Herrmann

 

POR QUE OS LIVROS SÃO DIFERENTES

 

Cada livro é igual ao seu autor. Se o editor e a gráfica forem duas constantes, a única variável é o autor. Um livro sempre será cópia fiel do ânimo, do espírito, da alma, da carência, da necessidade, dos medos e das expectativas de seu autor. Porém, é bom também lembrar que um livro não é um objeto: ele é um ser, que pensa, acha, sente, quer e tem vontades tanto quanto qualquer outro, independentemente de seu autor (é o alter ego do autor – só que ele não sabe disso).

Um livro pode ser a materialização de um sonho, ou pode se tornar um tormento, se autor e editor não respeitarem a “vontade” do livro. Improvável?

Tente fazer um livro quando as condições não forem propícias. Tente acelerar uma edição, apressando a revisão, ou fazê-la com prazo menor do que o desejável. Tente contratar pessoas que não sejam adequadas para a realização do livro, e que não entendam pouco ou nada de revisão, editoração ou edição. Tente contratar uma gráfica que tem bom preço, mas que anda mal das pernas, e terá o resultado em dois tempos: o livro vira uma criatura de Frankenstein.

O que era sonho vira pesadelo para o autor, o editor e o leitor. Um livro mal editado, mal traduzido, mal escrito e mal impresso é o que há de pior no mundo.

Para se fazer um livro, é preciso tempo, como já diz o Eclesiastes:

“Fazer livros, meu filho, é um trabalho sem fim”.

Primeiro, é preciso não ter pressa. Segundo, é preciso estar pronto (o texto pronto, bem entendido). Terceiro, o autor tem de entender que ele não é editor, e o editor entender que ele não é deus, só um materializador de livros, e que, o livro, a entidade perpétua nesse caso, que vai durar muito além dos dois, sabe como e quando quer vir ao mundo, por isso, certos livros fluem como espuma, e outros emperram e nunca saem, ou sai tudo errado.

Diante de um futuro livro, é preciso ter a sabedoria de esperar que ele indique o caminho: não é muito fácil nos tempos de hoje auscultar a vontade de um livro.

Seu autor já terminou de escrever, que bom, mas, e o livro, quando sai? Só o próprio livro sabe. O editor, nesse processo, é o parteiro de uma gestação sem termo, que apenas tem data para começar. Estamos falando de um mundo capitalista, com prazos de investimento e retorno? Não é desse tipo de livro que estou falando: esses se fazem todos os dias, nem sei como. Mas os que eu faço, além de atender a alguma parcela do mercado editorial, são manhosos e caprichosos, e só saem quando querem.

Já vi livros esperarem anos para vir à luz. E outros saírem a jato, em dois meses. O que faz com que eles sejam diferentes: seu autor e a entidade livro, que foi concebida ali. E cabe ao editor perscrutá-lo, com olhos de águia, para saber o que ele tem nas mãos. Auscultá-lo e esperar que o livro lhe “diga”, aqui e agora.

Cada livro tem sua história, seu rosto, sua identidade, sua forma, sua perfeição. Editá-lo é uma honra, e é concedida a quem o livro escolhe, sim, ele escolhe o editor (e não só o autor).

Quando tudo isso dá certo, é a realização de um encontro feliz: autor, editor e livro, mas basta alguma coisa dar errado para que tudo isso caia no abismo. E ninguém vai entender por quê.

Houve livros que começaram bem e, de repente, tudo saiu às avessas: a revisão embolou, a diagramação se atrapalhou, os arquivos foram mal copiados, a gráfica montou o livro errado, o impressor estava de porre e cortou o livro torto.

A quem cabe a culpa? Juridicamente, é fácil responder, mas eu digo, instintivamente, quem errou? Alguém estava contrariado ao longo do processo, ou foi a ansiedade do autor, a má vontade do editor, a displicência do impressor, vai saber?

Um livro é algo sagrado e deve ser tratado como tal. O livro não é uma coisa, é um ser, cheio de vontades e manias.

É preciso estar atento para conseguir ouvi-lo.

 

Thereza Christina Rocque da Motta

Janeiro de 2025

 

 

 

 

 

Colunista ArteCult e editora
da Ibis Libris Editora (@ibislibris)

 

 

 

 

 

Author

Thereza Christina Rocque da Motta (São Paulo, SP, 1957) é poeta, editora e tradutora. Foi Jurada de Tradução do Prêmio Jabuti, em 2018. Recebeu a Medalha Chiquinha Gonzaga da Câmara dos Vereadores, em agosto de 2021. Coordena a Ponte de Versos desde 2000, evento incluído no Calendário Oficial de Cidade do Rio de Janeiro, em 2024. Fundou a Ibis Libris no Rio de Janeiro, em 2000. Publicou Joio & trigo (1982), Capitu (2014), Lições de sábado (crônicas, 2015), Minha mão contém palavras que não escrevo (2017), O amor é um tempo selvagem, Lições de sábado Vol. 2 e A vida dos livros Vol. 2 (2018), Poesia Reunida 40 anos (1980-2020), Sheherazade: Novas lendas das 1001 noites e três já conhecidas (2022), entre outros. Traduziu, entre outros, Marley & Eu, de John Grogan (2006), A Dança dos Sonhos, de Michael Jackson (2011), 154 Sonetos, de William Shakespeare (2009), Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll e O Corvo, de Edgar Allan Poe (2020), Mais mortais que os homens, org. Graeme Davis (2021) e A última casa da Rua Needless, de Catriona Ward (2023), vencedor do British Fantasy Award, como Melhor Romance de Terror de 2022.

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