
O PRIMEIRO LIVRO A GENTE NUNCA ESQUECE
Neste fim de semana, dei tratos à bola quanto à edição de primeiros livros (o que faço sistematicamente há 25 anos pela Ibis Libris e, há 45, desde 1980).
O primeiro livro é o mais importante de todos, pois abrirá as portas para o livro seguinte e todos os demais que vierem depois. Sem ele, nunca alcançaremos o primeiro degrau da escalada para a celebridade literária (quer ela venha ou não).
Antonio Torres, Patrono da Primavera dos Livros no Rio, em 2007, falou da edição de seu primeiro livro, que lhe rendeu a consagração nacional, publicado por uma pequena editora, que o levou a uma editora maior.
Todo primeiro livro exige respeito absoluto. É nele que estão as sementes de todos os livros por vir. Quando publiquei a terceira edição do meu primeiro livro, Joio & trigo, em 2005, replantei as sementes que apontam para todos os livros que escrevi depois, que hoje são 10.
Para chegar ao décimo livro, o primeiro passo foi fundamental. Foi necessário escrevê-lo, prepará-lo para diagramação, escolher os poemas, selecionar os melhores, decupá-los, editá-los, cortar os excessos de palavras, pontuá-los corretamente, ordená-los da melhor forma, escolher os títulos, dividi-los em partes, pôr e tirar vírgulas – tudo isso consumiu sete meses de trabalho.
Isso pronto, passei ao segundo passo: publicá-lo. Naquela época, era necessário mandar compô-los em máquina IBM numa gráfica, depois diagramá-los em folhas de papel sulfite para gravar as chapas de papel, fazer o fotolito da capa, comprar o papel da impressão de capa e miolo, e pagar a gráfica pela impressão. Foram mais oito meses de trabalho, seguindo cada pedacinho do processo em câmera lenta.
Hoje, isso não mudou muito: depois de revisá-los etc., é preciso fazer o projeto gráfico, escolher a capa, ver o melhor tipo para compor o miolo, levantar o orçamento de impressão, cotar os preços de papel, senão, arrumar quem faça isso por nós, uma produtora editorial ou uma editora que preste esse tipo de serviço (senão pague todo o processo por sua conta).
Não importa qual o caminho que se escolha, ou o que o livro siga, por conta da editora ou do autor, o processo será o mesmo, depois de sucessivas provas e revisões, de escolhas e aprovações, cada etapa apontando para o passo seguinte.
O livro vai se formando, indicando também o que ele quer, ora por meio de atrasos ou imprevistos, escolhas que não dão certo, para depois se revelarem como a melhor opção.
As várias histórias de inúmeros primeiros livros só podem ser contadas uma a uma, mas todas me ensinaram que é preciso ter uma imensa paciência para passar de uma etapa à outra, de uma fase à outra, pois os livros só parecem iguais por fora: por dentro, são um universo todo novo, que só descobrimos à medida que o percorremos.
Quando acreditar que um livro se repete, pare: deve estar deixando escapar algo, pois nenhum deles se repete, por mais parecidos que sejam.
Como na cena em que William Hurt vê as fotos tiradas, a cada dia, à mesma hora, na esquina da tabacaria em Smoke [Cortina de fumaça], de Paul Auster: olhe mais devagar, há sempre algo novo para ser percebido.
Uma amiga editora me perguntou como eu conseguia me lembrar de tantos detalhes de um livro que fiz em 2003. Eu respondi:
“É que vivo cada livro intensamente, então, nunca me esqueço dele”.
E cada livro tem sua história, irrepetível.
Thereza Christina Rocque da Motta
Dezembro de 2025
Colunista ArteCult e editora
da Ibis Libris Editora (@ibislibris)










